A 29 de Maio de 1988, a lotação da Praça de Toiros de Almeirim esgotou para uma das célebres “Corrida da Rádio”, que nesse ano teve o privilégio de ser também o espectáculo em que João Salgueiro tomou a Alternativa de Cavaleiro Profissional, das mãos de seu avô – Dr. Fernando Salgueiro – tendo como testemunhas, seu pai, Fernando Salgueiro, João Moura, Paulo Caetano e Joaquim Bastinhas, na lide de toiros Condessa de Sobral. Pegaram nessa tarde os Forcados Amadores de Santarém e Montemor.
28 anos depois, outro Salgueiro, o da quarta geração desta dinastia de cavaleiros profissionais, doutorou-se naquela praça.
Contudo, a história da corrida e quase três décadas depois, é completamente diferente, contando-se curta e sem registo para grande recordação.
Cerca de meia casa envergonhada, num espectáculo em que arriscou a empresa juntar 8 toiros (isto sim, à antiga), com a duração de 3h30m mas que o cimento das bancadas, e a falta de motivos de interesse na arena, fizeram parecer que demorou o dobro.
Foi discreta, ainda que o jovem ‘doutorado’ se tenha emocionado, a cerimónia de alternativa, apadrinhada por seu pai e testemunhada pelos cavaleiros António Telles, João Telles Jr. e o primo António Lopes Aleixo, cavaleiro retirado.
Lidaram-se oito toiros da ganadaria Murteira Grave, ainda que à arena saíssem nove, sendo que o lidado em terceiro lugar, saiu condicionado e acabou por ser devolvido. No geral, foram animais de desigual apresentação mas cumpridores, compostos de carnes, enraçados, perseguindo melhor antes, do que depois dos ferros, mas quiçá, os que mais seriedade proporcionaram ao espectáculo.
João Salgueiro da Costa revelou em Almeirim uma das razões porque provavelmente tardou a chegada deste dia, a inconstância das suas actuações. Frente ao 'murteira' nº 27, de nome “Pataco”, ainda nos fez acreditar que teríamos actuação grande, como no passado algumas vezes lhe vimos. Mas durou esse pensamento o tempo de chegar o terceiro curto. Antes disso, Salgueiro da Costa destacou-se em três ferros compridos, e dois curtos de emoção, com o toiro a arrancar-se de largo, com raça e a encurtar caminho. A seguir, veio a menos o labor do cavaleiro. Frente ao que foi último do festejo, pouco há a registar, numa actuação em que consentiu alguns toques na montada.
Também João Salgueiro na sua segunda aparição nesta temporada, e após um interregno de 2 anos, escasseou de ofício que nos faça recordar o ‘génio’ que não há meio de sair da lâmpada, sendo por vezes notória a 'pouca vontade' das suas montadas. Na sua primeira actuação ainda se viram intenções, mas disso não passou e fica-nos o primeiro curto, carecendo a lide de remate das sortes. No que foi sexto da corrida, animal codicioso, que saiu com pata, logo interrompida pelo capote do peão de brega, Salgueiro andou a ‘despachar’ os ferros. Escutou música (quase que por favor) ao terceiro, cravou o quarto e foi-se embora. De salientar ainda a presença constante do ‘capote’ nas suas actuações.
Da passagem de António Telles por Almeirim sobram os pormenores da brega, da classe, de todo um saber estar dentro da arena e do respeito pelos que pagam bilhete. Frente ao que foi segundo da corrida, ainda se deixou apanhar contra as tábuas, felizmente não passou de susto. Irregular nos compridos, veio a mais a lide nos curtos, medindo distâncias, mexendo o toiro de terrenos, para depois cravar certeiro. No sexto da tarde, um toiro que se fez tardo nas investidas, António voltou a insistir nas abordagens rectas e na sobriedade na brega, carecendo de algum impacto nas reuniões.
João Telles Jr. teve duas actuações que facilmente chegaram ao público. Primeiro, insistiu em dar vantagens, citando de largo, frente a um toiro reservadote, ao qual no quinto e sexto curto, quando o animal finalmente se arrancou, o cavaleiro, com ligeiras batidas, então sim criou impacto e ajuste nas reuniões. Já no sétimo da corrida, Telles Jr. optou pela espectacularidade dos quiebros, que nem sempre resultam por se mandar o toiro para fora da sorte, sendo pronunciado o segundo curto, numa actuação rematada com um ferro violino de agrado do conclave.
Verdadeiramente entregues e valentes estiveram os dois Grupos em praça, os de Santarém e Montemor, proporcionando os autênticos momentos de emoção da tarde.
Pelos Amadores de Santarém abriu praça o futuro cabo, João Grave, com uma grande pega à córnea e à primeira tentativa; Lourenço Ribeiro consumou à segunda, depois de no primeiro intento ter reunido com raça e com o toiro a levantar alta a cara mas acabando por desfazer já após o grupo ter acudido. Voltou a reunir com entrega e consumando à segunda com mais eficácia. Luís Sepúlveda à terceira com ajudas carregadas, depois de dois intentos em que o toiro quase se parava no momento da reunião e depois o despejava; e António Góis à primeira, numa pega rija.
Pelo Grupo de Montemor, João Romão à barbela consumou bem e com eficácia à primeira; Francisco Borges voltou a demonstrar a sua fibra, concretizando à primeira uma pega em que aguentou a dureza do toiro; Manuel Dentinho no seu primeiro intento sofreu fortes derrotes, acabando por consumar à segunda e com o grupo coeso a efectivar; e João Câmara, também à primeira, encerrou a função do grupo alentejano com uma pega de boa nota.
Dirigiu o espectáculo, o sr. Pedro Reinhardt, numa corrida que podia ter sido de Festa mas não o foi…por variadas razões.