Faz hoje, sexta-feira dia 5, um ano que segundo nos confidenciou Rui Bento em entrevista (ler aqui), o rejoneador Pablo Hermoso após terminar actuação lhe disse: "Para o ano que vem temos que cuidar isto da ganadaria de outra maneira, não quero vir lidar Passanhas na próxima temporada".
Bem dito o disse, bem feito o fez mas pergunto-me agora: O que terá o navarro dito ao gestor taurino desta vez, após mais uma Corrida de Toiros no Campo Pequeno?
Chego a casa e não me ocorre outra coisa, e modéstia à parte, que nada mais que o meu artigo publicado aqui mesmo no passado 1 de Setembro, cujo título 'E quando falta o respeito...', precedia um monólogo onde o desrespeito pelo toiro mas também a exigência das figuras em lidarem só certas ganadarias, geradoras de animais que se destacam pela monotonia de investida, de pouca transmissão e raça, foram tema central. Pois quase parecia que tinha feito nesse artigo de opinião, uma antevisão da crónica de hoje.
Querem que vos diga o quê? Que minta só para não ofender aqueles que acham que não podemos dizer as verdades para não parecer mal aos 'antis'? Não posso nem consigo, lamentando se tenho um grau de exigência superior a essas pessoas (novamente, modéstia à parte). Devo realçar e sobrevalorizar as partes boas (pouquíssimas as que vi) e abafar as más da corrida para dar a sensação que estamos bem? Não consigo colaborar com tamanha ousadia. Se temos a Festa que temos actualmente, é porque muito se tem perdoado (tapado e inventado) do que se passa na arena. E consequentemente, vê-se menos toureio e mais de outra coisa qualquer...que tourear não é! Acham que tenho a mania que sou dona da razão? Pois, se calhar não sou mas como a crónica vai assinada por mim... Aguentem-se!
E da corrida há pouco a dizer.
Mais uma vez, corrida de Figuras grandes, sendo que é do conhecimento geral que a exigência do curro (e eventualmente dos companheiros de cartel) partiu apenas de uma. E onde há Figura, falta toiro e faltam forças. Houve até alguns momentos desta corrida que nos fizeram ter a sensação de déjà vu, quando por várias vezes os animais foram ao chão devido à escassa força mas depois lá nos lembrávamos que aí a 'figura' tinha sido outra.
De pouca mobilidade, presença e raça, os toiros da ganadaria de Guiomar Cortes Moura acusaram pouca força, sendo justos de apresentação, badanudos, com pouco pescoço, em tipo do encaste murube, excepto o lidado em segundo lugar, de pouca presença, provavelmente um 'erro de casting' feito pela figura que o lidou, que por ser figura, e pela praça onde estava, poderia ter tido mais 'sensibilidade' até porque os olhos também comem. Mas a verdade é que mesmo escolhidos, nem sempre os murubes satisfazem as vontades...
Apesar de muitas vezes nos terem tentando 'vender' que a corrida se fazia só de dois artistas, foi António Telles, naquela que foi para aí a sua 25ª vez a abrir praça a Pablo em Lisboa (ironia), quem inaugurou a noite. E sentia-se no cavaleiro da Torrinha alguma disposição, só que por vezes na pauta saem 'notas musicais' que nem o maior dos 'maestros' consegue tocar. O seu primeiro, com 584 kg e de pouca transmissão, fechava-se em tábuas, havendo labor por parte do cavaleiro em o sacar da querença, indo muitas vezes deixar a ferragem em terrenos de dentro. Acabou discreta esta actuação onde se o toiro foi sonso, António não lhe pôs sal. No segundo do seu lote, com 560 kg, montando o Alcochete, houve claras intenções de um toureio mais recto e detalhes do seu classicismo de sempre mas faltou-lhe toiro e acabou por consentir algumas passagens em falso que a somar à pouca transmissão do oponente, desequilibraram a actuação. Escutou música em ambas as lides e por conseguinte, em ambas deu volta.
Pablo Hermoso andou longe do nível de outras noites nesta praça. Já diz o povo: "Tanto vai o pote à bica, que um dia lá fica". Ele que escolheu ganadaria pelo encaste ser o mais cómodo ao tipo de toureio praticado, acabou por não ter sorte e pouco fez para deleite dos aficionados e como tal, esta passagem de Pablo não justificou a muitos o bilhete. O primeiro toiro do espanhol, com 500 kg, avacado de presença, saiu com patinha mas bastou-lhe a ferragem comprida, irregular por sinal, para evidenciar a escassa força, indo para ao chão. Romperam assobios. Montando o Chenel, o rejoneador tentou sacar do fundo do âmago da rês, as virtudes da sua condição de murube para o levar em ladeios e recortes mas não houve matéria para tanto, com o toiro novamente a cair. Foi-lhe consentida música antes do último ferro, e inclusive autorizada volta mas achou por bem Pablo, não a dar tal a reserva na sua lide. Mais voluntarioso andou no segundo do seu lote, com 595 kg, animal reservado mas com mais presença 'física' que o anterior. Pablo Hermoso teve lide mais disposta e montando o Disparate deixou a ferragem da ordem perante um toiro que se inicialmente já perseguia pouco nos ladeios que o rejoneador lhe instigava, depois praticamente não se mexia, consentido sem 'oposição', que o espanhol lá fosse cravar os ferros. Deu volta.
João Moura Jr. foi quem mais se destacou nesta noite, o que também não seria difícil perante o pouco que se vira nas outras actuações. Sorte ou não mas o seu lote até foi o que mais se permitiu e o jovem cavaleiro, não se fez rogado. Com os cavalos armados de 'arames' até aos dentes, o que ainda logrou um 'recado' das bancadas, Moura Jr. teve cabeça e praticou um toureio trazido de casa. Com duas actuações muito similares, primeiro frente a um toiro com 594 kg, mais harmonioso de apresentação, que se permitiu aos ladeios, e depois frente ao último, com 590 kg, escorrido de carnes, investida curta e que veio a menos com o decorrer da lide. Moura Jr. baseou as sortes em cites de largo, quase sempre nos mesmos terrenos, partindo ao toiro para após batidas, abrir o quarteio e deixar a ferragem ora mais cingida, ora mais aliviada mas sempre muito metido com as bancadas. Deu volta nas duas.
Nas pegas, dois Grupos em competição, os Amadores de Vila Franca e os da Chamusca.
Pelos de Vila Franca, pegou Bruno Casquinha à primeira sem problemas (volta); Pedro Castelo à terceira depois de duas reuniões menos conseguidas (autorizado a dar volta, entendeu não o fazer); e Rui Godinho que nos deu o verdadeiro momento com emoção de toda a corrida. Depois do toiro se ter arrancado com pata ao primeiro intento e ter aguentado muito, e de uma segunda tentativa em que não se fechou bem, consumou à terceira, com ajuda valiosa do primeiro ajuda, com o toiro a levanta-los alto (deu volta, sendo ainda premiado com segunda mas apenas agradeceu do centro).
Pelos da Chamusca pegou Luís Isidro à primeira com o toiro ainda a ensarilhar antes da reunião mas bem o forcado a recuar e a consumar à primeira (deu volta); Nuno Marques, o cabo que se despedia da arena lisboeta, concretizou à segunda, depois de no primeiro intento o toiro lhe ter metido o piton no peito (deu volta); e Nuno Marecos, aquele que a partir de sábado será o novo cabo, consumou bem à primeira (deu volta).
Dirigiu a corrida, o sr. Rogério Jóia, que simpaticamente foi desejando 'sorte' aos artistas cada vez que estes lhe pediam autorização para lidar, e ainda consentindo música e voltas para todos.
De referir ainda, a lotação esgotada que se registou nesta noite no Campo Pequeno mas será que saíram todos de lá satisfeitos? Pelo menos não os vi tantas vezes a aplaudirem de pé e ao desbarato...
"Quando se perde o respeito pelo toiro, quando este perde o seu instinto de bravo, o seu comportamento imprevisível e de perigo que nos transmite emoção, perde-se também a essência da Festa!" Patrícia Sardinha in Naturales 01/09/14