Crónica de la tarde lluviosa de un lunes de Feira de Outubro en la Palha Blanco

NATURALES
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Em Vila Franca:

Dois Toiros, Dois Toureiros

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5 de Outubro, 2009

Por PATRICIA SARDINHA, subdirectora de NATURALES

Quando um homem traz o toureio dentro de si isso não se quita com o avançar da idade, pois ainda que esta lhe possa afectar com naturalidade o corpo, jamais lhe invade a alma, o espírito. Maestro José Júlio é desses que carrega o peso de ser toureiro para a vida e transborda esse veneno através do olhar e do sorriso com que dos seus 74 anos contagia todos.

No ano em que comemora as Bodas de Ouro como Matador de Toiros, o Maestro José Júlio viu ser-lhe feita uma singela homenagem na sua terra, Vila Franca de Xira, por altura da tradicional Feira de Outubro e onde para além do descerramento de uma placa, teve ainda o privilégio de ser brindado com o que mais lhe dará prazer, tourear. E fê-lo com a mesma vontade e a mesma gana de um toureiro de trinta anos no auge de carreira, talvez até com mais arrimo e mais arte que muitos que por aí andam. O toiro que lidou, com 440 kg, permitiu-se a ser gentil para que o toureiro pudesse desfrutar, tanto de capote como de muleta, com uma entrega que fez soar cedo os olés e a quem ninguém ficou indiferente sendo aplaudido de pé e saindo da Palha Blanco em ombros.

Depois de ter deixado marca por ocasião do Colete Encarnado, o matador espanhol Sanchez Vara voltou a Vila Franca e teve sorte com o lote que lhe tocou. O primeiro, um toiro com 469 kg foi recebido com duas cambiadas de joelhos, aplicando um toureio variado de capote. Partilhou o tércio de bandarilhas com o português António João Ferreira e ambos se exibiram. Na muleta a faena foi de menos a mais, com o matador a entender as qualidades do toiro e por isso a medir distâncias para que o este não se esgotasse, provocando um toureio que chegou facilmente às bancadas, mas que pecou por alguma ausência de ligação e de temple nos passes. O toiro escutou palmas ao ser recolhido. No seu segundo, outro bom toiro com 475 kg, nobre, o matador esteve regular de capote e com as bandarilhas mostrou espectacularidade. Na flanela deliciou por alguns derechazos bem conseguidos e em redondo, com o toiro sempre a perseguir a tela. Sobressaiu ainda no arrimo e no modo como se recreia a cada passe, que não sendo de um toureio profundo e puro, conquista as bancadas. No final volta para o toiro e para os representantes da ganadaria Oliveira Irmãos juntamente com o matador.

António João Ferreira teve em sorte o lote mais complicado, mas o próprio matador demonstrou alguma agitação que em nada o abonou. O seu primeiro toiro, com 442 kg, sem classe, a não humilhar e por vezes desligado, serviu só para o jovem toureiro se exibir de muleta, pois que até nas bandarilhas, tércio onde era aluno aplicado, andou desvirtuado. Com a flanela sim foi poderoso, subindo de tom a cada muletazo, toureando essencialmente com a mão esquerda e sacando passes ligados, até que a rês se esgotou. O seu segundo toiro, com 468 kg, depois de recebido de capote, teve o azar (ou a sorte?) de claudicar uma vez e quase que sem o próprio matador se aperceber, decide o director de corridas que o animal seja recolhido. Vem então o sobrero, bonito, astifino, mas perigosíssimo que não perdoou a inquietação do matador (afinal um toiro sente sempre como está um toureiro) e acabou por o apanhar quando este lhe cravava o segundo par de bandarilhas. Toda a faena de muleta ficou automaticamente comprometida com um toiro que procurava o toureiro, e um toureiro que não se fiando no toiro, pouco mais fez do que um ou outro passe isolado, dissipando-se as ilusões de um triunfo na terra que o acolheu enquanto aluno da Escola de Toureio.

O novilheiro João Augusto Moura teve pela frente um toiro com 482 kg, a quem efectuou uma faena de muita técnica mas pouca ligação, sacando passes isolados, exibindo-se em dois redondos invertidos que não chegaram para que a faena tivesse muita transmissão. No seu segundo voltou a evidenciar um toureio sensaborão, com um ou outro passe de boa nota, mas ainda assim não conseguindo romper. Inclusive chegou a ser-lhe concedida música, ao que o público, exigente, reclamou por não achar merecida. Uma tarde que soube a pouco para o jovem novilheiro.

Os toiros pertencentes à ganadaria Oliveira Irmãos, bem apresentados, foram justos de forças, desigual desempenho mas serviram, principalmente o lidado em segundo e quinto lugar, bons toiros!

Dirigiu a corrida o Sr. Ricardo Pereira com alguma falta de critério, assessorado pelo veterinário José Manuel Lourenço, numa tarde em que a Palha Blanco viu cerca de ¼ de casa preenchida e em que a chuva fez questão de marcar presença.

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