Crónica de Lisboa: "Faltou ver qualquer coisa..."


Aquela que foi a segunda corrida do abono lisboeta, e que acabou "fechada" em pouco mais de 24h face à impossibilidade da estrela maior que se publicitava comparecer, resultou ao final da noite como que a saber a pouco, pela escassez de transmissão dos toiros.

Pablo por infortúnio, não pôde vir a Lisboa e não sabe o que perdeu. 
Aliás, sabe! Porque pelo menos 4 dos 6 toiros que esta quinta-feira saíram à praça do Campo Pequeno, terão sido obra de sua escolha. E teriam servido para que provocasse nas bancadas o delírio perante as conhecidas capacidades equestres do rejoneador navarro e as qualidades das suas montadas, em detrimento da falta de toiro. Fomos assim "poupados" desse espectáculo que podia ter dado outra 'vida' a esta corrida... 

Os toiros de António Charrua para as lides equestres foram díspares de apresentação, animais de pouca força, anunciando-se mais peso do que o seu corpo comprido poderia iludir não ter. Em comportamento foram similares. Deixaram-se, sendo nobres em demasia, reservadotes e de pouca transmissão. Ao gosto geral dos cavaleiros e rejoneadores, pois assim, podem fazer tudo...menos o pino! 

Os irmãos Moura, na ausência de Pablo, lá se tiveram que aguentar com eles e safaram-se, até porque isso não era difícil...

João Moura Jr anda bem montando, tem confiança e assim se apresentou em Lisboa. Fazendo prova de um toureio de distâncias e aproveitando a "mãe de caridade" que teve por diante (dizer "irmã" neste caso seria considerar grau de parentesco afastado), evidenciou-se na sua actuação, principalmente pela rectidão e ajuste com que cravou os dois compridos montando o Goya. O toiro avacado, de escassa presença, foi um 'bombom', que sem maldade permitiu a Moura Jr. executar as sortes citando de largo e cravar com correcção. Nos remates, recreou-se em ladeios e recortes na cara de uma rês... parada. Ainda houve tempo para dois quiebros com que fechou função.

Frente ao que foi segundo do seu lote, animal nobre, que perseguia a passo, João Moura Jr. voltou a repetir-se na execução do seu toureio com cites de praça a praça, por vezes resultando mais aliviada a ferragem mas muito em versão 'fotocópia' da que fora a sua primeira lide. Chamou a atenção que, posto o empenho do toureiro, tardava a concessão de música que viria a surgir quando, após mais um ferro, o cavaleiro logrou toque na montada. O que se pode considerar de "o lenço certo no momento errado". Com o Xeque-Mate apostou novamente na brega a duas pistas e rematou com um palmito do agrado do conclave.

Miguel Moura viu-se mais condicionado pela carência das montadas mas nem por isso se desarmou perante as actuações do irmão. Tentou brilhar com uma sorte gaiola mas o toiro saiu à arena a estranhar e parou-se, tendo o jovem cavaleiro que desfazer o intento. Nem sempre foi feliz na execução dos curtos, alguns pescadotes, consentido um ou outro toque e um ferro falhado. Ainda assim fez subir de tom a sua lide, principalmente quando após um ferro bem conseguido, rematou com três piruetas na cara do toiro. E entre o ferro e as piruetas, o que levou mais palmas?! ...Pois claro...

No que foi segundo do seu lote, Miguel Moura quis concretizar a dita sorte gaiola e saiu à praça novamente com o Xarope. Mas uma vez mais, o toiro, um badanudo, avacado, não permitiu essa vontade. Irregular nos compridos, subiu ligeiramente de tom nos curtos, também ele a dar primazia a um toureio de largo, partindo de tábuas para "achar" toiro na outra ponta do tauródromo, onde 'jazia' imóvel e a carecer de lide e brega. 

Nas pegas, os toiros tiveram comportamento similar. Uns a empurrar um pouco mais que outros mas todos cómodos de investida e com viagens rectas, sem derrotes, e quase que antes de chegar o conjunto 'grupo-toiro' às tábuas, já as pegas se davam por consumadas. Assim, pelos Amadores de Lisboa, resultou fácil a pega do cabo Pedro Maria Gomes efectivada ao primeiro intento; e entusiasmou João Varanda, quando entendeu saltar à arena sozinho, aguentando a investida do toiro e só após a reunião, ver saltar os restantes elementos. À primeira, a reunião não foi conseguida, tendo saído da cara do toiro já quando o Grupo chegara ao seu alcance, pelo que entenderam repetir o feito. Resultou eficaz à 2ª tentativa, uma sorte que faz parte da História do Grupo de Lisboa e que teve a sua estreia há 44 anos, na corrida de alternativa do saudoso José João Zoio no Campo Pequeno, quando o eterno cabo Nuno Salvação Barreto encomendou na pessoa de Domingos Barroca esta sorte (uma efeméride partilhada por cortesia do crítico Eng. João Cortesão). O 'atrevimento' de João Varanda com este feito, valeu-lhe duas voltas à arena. 

Pelos Amadores de Évora, despediu-se de Lisboa o actual cabo António Alfacinha, que concretizou sem problemas à primeira; e seguiu-lhe as pisadas o futuro cabo, João Pedro Oliveira, também ele a efectivar ao primeiro intento.

Na parte a pé, e desconheço se 'escolhidos' de véspera face à mudança de cartel que se impôs, saíram dois toiros de Manuel Veiga, pequenotes de tipo, com raça mas sem classe. O primeiro tinha cara mas quase que inaceitável o montado que era, e que teve de bom a forma como metia a cara pela esquerda. Com ele, António Ferrera começou por nos fazer pensar que iríamos desfrutar do bom momento que atravessa após ser considerado triunfador de Sevilha, quando por verónicas arrimadas se mostrou de capote. Nas bandarilhas cumpriu sem deslumbrar e de muleta, viu-se essencialmente toureando com a mão esquerda, levando o toiro numa larga viagem, ainda que por vezes despegado. O animal humilhava, fixo na flanela, mas protestando de forma sonora. Ferrera cumpriu mas sem romper. 

No seu segundo, que foi em tipo e comportamento do primeiro, mais descomposto nos passes mas que teve sempre investida pronta, Ferrera estendeu em demasia uma actuação de pormenores que contudo voltou a não convencer, acabando por chegar mais às bancadas quando arriscava no número do desplante. Salientar a simpatia de Ferrera ao brindar a João Moura, e aos seus dois filhos, João e Miguel.

Houve ainda tempo nesta noite para uma homenagem ao Real Grupo Tauromáquico pelos seus 125 anos de existência.

Ressalvar que mesmo tendo o cartel sido 'remendado', mas com inteligência e qualidade, a pouco mais de 24h do seu início, o público correspondeu em peso, estando quase que 3/4 de casa preenchida. 

Contudo, este público que geralmente delira com os desplantes e atrevimentos dos artistas, não teve nessa noite a sensibilidade e a delicadeza de saudar com uma ovação, por exemplo após as cortesias como é hábito em Espanha, o regresso às arenas depois de dois anos ausente, o triunfo recente da Feira de Sevilha, mas acima de tudo, a disponibilidade do matador de toiros espanhol António Ferrera, em ter aceitado actuar em Lisboa apenas a pouco mais de 24h da corrida se dar. Pormenores...

Uma noite para se ver toureio mas à qual faltou ver qualquer coisa...


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