25 Anos | 25 Entrevistas - João d'Alva: “Não sei o dia de amanhã mas dificilmente esta decisão será reversível”

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Depois de uma vida dedicada ao sonho de ser matador de toiros, João D’Alva decidiu no final de Setembro, afastar-se das arenas. A decisão não foi apresentada como definitiva, mas encerra, pelo menos por agora, uma etapa que começou quando tinha apenas oito anos.Com um percurso de temporadas duríssimas, triunfos importantes, graves cornadas, mudanças de apoderamento e de uma alternativa que chegou a estar apontada para 2026, João D’Alva decidiu parar.

“Onde uns viam trabalho e sacrifício, outros viam uma maneira de ganhar dinheiro.”

NATURALES: João, anunciaste na passada semana a tua decisão de te afastares das arenas. Antes de falarmos do presente, quero recuar ao princípio: tinhas apenas oito anos quando entraste numa escola taurina. O que sonhava aquele menino?

João D’Alva: Aquele menino sonhava em marcar uma geração e orgulhar os seus antepassados. Havia ouvido do seu pai e do seu tio que este era o mundo mais incrível que existia, mas vivia um sonho como qualquer jovem da sua idade, sem qualquer conhecimento de causa.


NATURALES: Viveste muitos anos de aprendizagem, cá, em Espanha, passaste pela Fundação El Juli, várias novilhadas, triunfos e também muitas dificuldades. Qual foi o momento mais importante deste teu percurso?

João D’Alva: Creio que a aprendizagem a nível pessoal foi o mais importante. O facto de sair da comodidade da minha casa com apenas 17 anos e viver sozinho, a 600 km de casa, deu-me muita maturidade e fez-me aplicar ainda mais na minha preparação, mas sem esquecer nunca as minhas bases, a quem estarei sempre agradecido: à Escola de Toureio e Tauromaquia da Moita, pelos primeiros ensinamentos, e à Escola José Falcão, pela oportunidade de aparecer no mundo do toiro. Serei sempre agradecido, apesar das diversas adversidades que aconteceram em cada uma delas.


NATURALES: Achas que sempre tiveste as oportunidades necessárias para demonstrar o teu valor?

João D’Alva: Talvez não tantas como muitos companheiros e colegas de profissão, mas estou agradecido pelo meu caminho, porque sei que tudo o que consegui foi por mérito e não por outro tipo de formas que abrangem, infelizmente, este mundo taurino.



NATURALES: Como sentes que a afición portuguesa te tratou ao longo destes anos?

João D’Alva: O aficionado sempre reconheceu a minha trajectória, mas, pela distância a que toureava, era difícil ter apoio presencial. Onde senti menos apoio ou carinho, infelizmente, foi a nível empresarial, mas faz parte. Não entendo muitas decisões, mas também não as julgo. A vida é isto mesmo e, como disse antes, estou agradecido pelo meu caminho e pelo reconhecimento de Espanha e França.


NATURALES: E em Espanha? Sentiste que tiveste o reconhecimento que procuravas?

João D’Alva: O circuito em que naveguei era exigente e difícil e, da maneira que o dignifiquei, creio que tive reconhecimento do sector. O facto de estar anunciado repetidamente em feiras onde o aficionado tem uma palavra creio que é a recompensa de muito sacrifício.


NATURALES: Em 2021 disseste numa entrevista ao NATURALES: “Afastei muitas pessoas com a minha ida para Espanha”. Hoje, olhando para trás, achas que algumas das tuas escolhas acabaram por prejudicar a tua carreira?

João D’Alva: Creio que, para estar neste mundo, tens de sacrificar muito e, graças a Deus, eu consegui fazê-lo. Graças a essas decisões consegui crescer e aprender e voltaria a repetir tudo. Na vida temos várias pessoas: os que te querem e os que te admiram, mas só os que te amam continuam quando aparecem essas dificuldades. Estou agradecido ao meu irmão e aos meus pais, que fizeram sempre esta caminhada junto a mim e nunca saíram do meu barco.


“Tenho de apoiar os meus e recuperar-me a nível emocional e físico”


NATURALES: Como já referiste, sempre foste reconhecido pela afición em geral como um novilheiro de luta, de valor, de ganadarias duras, que muitas vezes pagou com sangue a entrega na arena. Também sentes isso? Que nunca tiveste uma vida facilitada…?

João D’Alva: No geral da vida nunca o tive e, no toiro, menos. Mas estou agradecido ao circuito “torista”, que me abriu as suas portas e, pelo menos, deixou-me andar digno e em toureiro durante a minha trajectória. São ganadarias que perdoam poucos erros, e somar vinte e sete novilhadas, tem bastante mérito. Estou contente por esse reconhecimento.


NATURALES: Uma dessas colhidas, e grave, foi a que aconteceu em agosto em Cenicientos, e da qual regressaste às arenas muito pouco tempo depois. O que te fazia continuar?

João D’Alva: A falta de oportunidades e o querer ser toureiro. Creio que demonstrei sempre amor-próprio e compromisso pela profissão que tanto amo, muitas das vezes sem pensar nas consequências, mas orgulhando aquele menino que um dia teve o sonho de ser toureiro. E isto faz parte do mesmo.


NATURALES: Em 2025 conquistaste a Espiga de Oro de Calasparra. Sentiste, naquele momento, que finalmente o teu caminho para a alternativa estava aberto?

João D’Alva: Sim, e prometeram-me a mesma para o ano seguinte, mas, por más gestões, não pôde ser. Entre essas promessas e o passo por Madrid, decidi, no final de Maio, que esta poderia ser a última temporada da minha carreira.



NATURALES: Mas a verdade é que chegaste mesmo a ter prevista a alternativa para este ano. O que aconteceu para afinal não ter acontecido?

João D’Alva: Fizeram-me trabalhar no inverno com a ilusão e a promessa de que em Maio iria converter-me em matador de toiros, mas deixei-me influenciar pela minha gestão e, infelizmente, os objectivos eram diferentes. Onde uns viam trabalho e sacrifício, outros viam uma maneira de ganhar dinheiro. Mas pronto, terminei a minha temporada gerindo a minha carreira e feliz por ter conseguido igualar números anteriores.


NATURALES: Mas achas que se te tivesses tornado matador de toiros, com todas as dificuldades que vives como novilheiro, iria efectivamente mudar alguma coisa ou seria apenas o concretizar do sonho?

João D’Alva: É um mundo muito complicado e já não funciona quem quer e quem tem valor, senão quem pode… Creio que seria o concretizar de um sonho e pouco mais.


NATURALES: Muito possivelmente, em boa parte o que tem acontecido contigo acontece com todos ou a grande maioria dos novilheiros portugueses, e inclusive até aos que chegaram a matador de toiros. Na tua opinião, que viveste isto por dentro, porque achas que isto acontece? Porque não temos um matador de toiros português a dar que falar cá e principalmente em Espanha? Porque não temos um novilheiro português que se imponha de uma vez?

João D’Alva: Tivemos o caso do Tomás, agora, que competiu entre os grandes novilheiros e tomou uma alternativa sonhada, mas está complicada a exigência do toureio a pé em Espanha e as escassas oportunidades no nosso país levam-nos a estar menos preparados para competir entre eles. Mas creio que, nas oportunidades que temos tido, pelo menos muitos conseguimos dignificar dentro da praça.


“Estou agradecido ao circuito ‘torista’, que me abriu as suas portas e me deixou andar digno e em toureiro.”


NATURALES: Há poucos meses, anunciaste também teres ficado sem apoderados. Por que isso também aconteceu, sendo que não houve notícia de novo apoderamento, e se achas que essa condição também levou ao desfecho anunciado?

João D’Alva: Passei a maior parte da temporada sem apoderado, mas, neste caso, até veio positivo na minha carreira. Começaram a ajudar-me por fora e as portas de Madrid estavam abertas para a próxima temporada, mas neste momento não me sinto bem psicologicamente por motivos familiares e esta decisão foi a que achei mais acertada para poder estar ao lado dos meus e não roubar postos a colegas meus sem estar a cem por cento.


NATURALES: E depois de tudo isso, de tanto cair e levantar, porquê parar agora? O que aconteceu para chegares a este ponto?

João D’Alva: A falta de apoio a nível nacional levou-me inicialmente a ponderar, mas a decisão final chegou quando vi certas dificuldades a nível familiar e achei por bem recuperar-me e apoiar todos aqueles que me apoiaram a mim sempre.


NATURALES: Quando dizes “de momento, não posso continuar”, estás a falar de cansaço, desilusão, falta de oportunidades, falta de apoio… ou de tudo isso junto?

João D’Alva: Um conjunto de coisas e muitas injustiças também, mas o principal agora mesmo é, sem dúvida, saber que tenho de apoiar os meus e recuperar-me a nível emocional e físico.


NATURALES: A decisão de dia 29 de Setembro já estava tomada antes do paseíllo em Guadarrama, onde actuaste nesse mesmo dia, e de onde a imprensa especializada até destacou, como de costume, a tua entrega e valor perante as duras condições dos hastados, ou o resultado artístico daquela novilhada acabou por ditar o momento decisivo?

João D’Alva: A decisão já estava tomada antes e foi um dia muito difícil de digerir, mas tanto o brinde ao meu pai como o brinde à minha quadrilha foi de agradecimento e só aí ficaram a saber da minha decisão.


NATURALES: Há mágoa ou revolta nesta decisão?

João D’Alva: Há certa tristeza, porque foi toda uma vida dedicada a este sonho, mas não sabemos o dia de amanhã e a verdade é que Deus tem o nosso caminho traçado. Se estiver destinado para ser neste mundo, nada nem ninguém o poderá parar.



NATURALES: Se fizeres um balanço absolutamente honesto, o que achas que falhou na carreira de João D’Alva: o próprio João, as oportunidades, as pessoas que o rodearam ou o sistema taurino?

João D’Alva: Tentei sempre dar a cara em todas as oportunidades que tive, mas a falta de triunfos, difíceis neste circuito, faz com que haja cada vez mais dificuldades em entrar nos cartéis e em somar novilhadas. Mas, como referi anteriormente, estou contente com o caminho que percorri e pelo reconhecimento do aficionado.


NATURALES: Disseste que não sabes se isto é um “até já” ou um “até sempre”. O que teria de acontecer para voltares a vestir de luces?

João D’Alva: Teria de ter a minha vida pessoal equilibrada e alguém que quisesse rumar e lutar de verdade a meu lado profissionalmente. Mas dificilmente será uma decisão reversível, mas oxalá algum dia fosse possível.


NATURALES: E se pudesses falar hoje com aquele menino de oito anos que sonhava ser toureiro, o que lhe dirias?

João D’Alva: Agradecia-lhe por me ter colocado neste mundo do touro e por me ter feito sonhar e crescer como homem e como toureiro, e pedia-lhe perdão por não ter chegado onde ele imaginou um dia…









Patrícia Sardinha
05/10/2026



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