Um dos grandes paradoxos da Festa
dos Toiros reside no facto de aqueles que não a entendem a considerarem um acto
de violência, quando, aos olhos de um aficionado, é na realidade, toda ela, um
acto de amor.
Desde o ganadero, que dedica anos
da sua vida à criação do toiro, aos cavaleiros que estabelecem com os seus
cavalos uma relação que vai muito além da simples parceria profissional; desde
o aficionado, que vive intensamente cada festejo tauromáquico e que cria
preferências entre o leque de artistas, por vezes até ‘endeusando’ os seus
predilectos,… muitos seriam os exemplos que poderia aqui mencionar.
São relações construídas com
tempo, dedicação, entrega e paixão. Relações que, para quem olha de fora, podem
ser difíceis de compreender, mas que para quem vive a Festa por dentro fazem
parte da sua própria essência.
Mas há um sector da Tauromaquia
onde tudo isto ganha uma dimensão muito particular, onde é claramente visível
uma união desmedida, um apoio constante e um espírito de entreajuda quase como
se de uma verdadeira família se tratasse, e que são os Grupos de Forcados.
Ali, ninguém está verdadeiramente
sozinho.
Quando um avança para a arena,
avançam todos com ele. Quando um dá o peito ao toiro, há outros atrás
preparados para o amparar. Quando chega o momento da verdade, não existe espaço
para individualismos: existe um grupo, uma amizade, uma cumplicidade e uma
confiança construídas ao longo de muitos anos.
Um por todos. Todos por um.
Ontem, no Campo Pequeno, isso
foi, mais uma vez patente com o Grupo de Forcados Amadores de Lisboa, primeiro
com a manifesta presença de muitos elementos fardados, de várias gerações.
Depois, no exemplo e na coragem de, praticamente todos, terem ontem coajudvado
nas pegas realizadas, dos mais novos aos consagrados e já retirados, ontem
todos ajudaram. E por último, na forma respeituosa e participativa como
seguiram, guiados numa volta ao ruedo, o Cabo que se despedia.
Gonçalo Maria Gomes inaugurou a
noite no que a pegas diz respeito para volta a honrar a jaqueta do seu Grupo e
citar a um toiro. Fechou-se à barbela, aguentou a volta de ‘campana’, e com
efectiva ajuda do Grupo mas com a crucial intervenção do primeiro ajuda, Mota
Ferreira, consumou com decisão à primeira.
Pedro Maria Gomes, na noite em
que se despedia, via-se emocionado. Depois de vinte e nove a honrar a jaqueta
dos de Lisboa, dezasseis dos quais como cabo, bateu as palmas ao seu último
toiro, aguentou a investida para ser acolhido pelos que atrás se perfilavam e
efectivar com sucesso à primeira.
O novo cabo, Duarte Mira,
demonstrou ter a capacidade de superação necessária para ser o novo líder. Num
primeiro intento, citou com galhardia e tudo parecia perfeito até que o toiro
baixou demasiado a cara e acabou por sair. Repetiu com mais sucesso no segundo
intento.
Duarte Nascimento não conseguiu
efectivar a sua pega à primeira, mas à segunda reuniu bem e consumou. Igual
sorte teve José Duarte Batista, cuja primeira impactou mas tardou a ajuda; no
segundo intento, tudo foi mais eficaz.
Tiago Silva sofreu um primeiro
intento mais violento, que de alguma forma o deixou mais condicionado. O toiro
também não consentiu facilidades, e veio a concretizar à quarta tentativa com
ajudas carregadas. Francisco Mira encerrou a noite com uma pega rija à
primeira.
A cavalo, Ana Batista regressava
às arenas após uma paragem forçada devido a queda, oscilou entre bons
pormenores e outros menos conseguidos. João Moura Caetano assentou toureio com o
seu costume temple, e nem uma aparatosa queda, o demoveu de manter o registo.
Duarte Pinto andou regular e
cumpriu sem, contudo, romper. Joaquim Brito Paes nem sempre foi claro nas
intenções e desenvolveu por isso uma actuação inconstante;.Miguel Moura esteve
disposto, e foi quem, de todos, cumpriu com maior assertividade e cingimento na
ferragem.
António Telles filho demonstrou
boas intenções de lide e um toureio frontal, ao qual só faltou mais ajuste
nalguns ferros. Tristão Ribeiro Telles cingiu-se ao conceito das sortes de
praça à praça com quiebros com eco nas bancadas.
Foi lidado um curro de toiros da
ganadaria António Raul Brito Paes, justos de trapio, que saíram ao ruedo a
transmitir, para depois virem a menos, sendo cómodos, perseguindo a passo. No
geral, foi um curro que se deixou, facilão, ‘indo pelo seu caminho’,
muito ao gosto dos cavaleiros. O segundo lidado concedeu a honra de volta ao
ganadero.
A corrida teve o extra de se
iniciar com o cortejo de Gala à Antiga Portuguesa e de marcar a transição de
cabo dos Amadores de Lisboa com uma homenagem a Pedro Maria Gomes que passou o
testemunho a Duarte Mira. Houve ainda tempo para um minuto de silêncio em
memória de Luís Campino e Frederico Cunha e durante o intervalo, João Moura
Caetano foi homenageado pelos seus 20 anos de alternativa, bem como o Padre
Vítor Melícias.
Dirigiu o espectáculo Rúben
Fragoso, com alguma insegurança na concessão de música preconizada pela Banda
da Misericórdia de Arruda dos Vinhos, sendo assessorado pelo veterinário José
Luís Cruz. O festejo contou com uma casa cheia, e teve o (penoso) condão de
durar quase quatros horas, muitas vezes desprovidas de interesse artístico.
A última corrida do curto abono
lisboeta deste ano deu-se assim sem os floreados e os ‘glamours’ das duas
primeiras, sem o fracasso da terceira, sendo essencialmente uma corrida com
ambiente familiar e alguma emoção.
No fim, ficou a imagem de um Grupo. De várias gerações. De um homem que saiu e de outro que entrou. E de todos os outros atrás, prontos para amparar.
Um por todos. Todos por um.
Texto e Imagens: Patrícia Sardinha
05/09/2026