Em 2005, Paulo Jorge Ferreira atravessou o Atlântico em busca de uma oportunidade que sentia faltar-lhe em Portugal. Tinha 21 anos, pouco conhecia da Califórnia e praticamente não falava inglês. O que começou por ser uma experiência transformou-se numa vida: 21 anos de toureio, cavalos, amizades, dificuldades e conquistas. Agora, prepara-se para se despedir das arenas californianas, mas não fecha completamente a porta aos toiros em Portugal. Nesta conversa, recorda os primeiros tempos, as razões que o levaram a partir, o caminho que construiu do outro lado do Atlântico e aquilo que leva consigo dia 14 de Setembro, quando chegar a hora de sair da arena na Califórnia, pela última vez.
Paulo Jorge Ferreira: “Não saio porque deixei de gostar dos toiros, saio porque sinto que cheguei ao meu limite e não consigo dar mais que o que já dei.”
Naturales: O Paulo Jorge recebeu a alternativa de cavaleiro tauromáquico a 21 de julho de 2002, na Praça de Toiros da Póvoa de Varzim. Depois disso, foi uma presença constante nas arenas portuguesas. Como foram esses primeiros anos como cavaleiro profissional?
Paulo Jorge Ferreira: Na verdade, as coisas começaram de uma forma muito positiva depois da minha alternativa. Triunfei nesse dia numa extraordinária corrida transmitida pela RTP Norte, na Praça de Toiros da Póvoa de Varzim, e foi sem dúvida, um arranque muito positivo para a minha carreira como cavaleiro profissional. Infelizmente, esse bom momento não durou tanto quanto eu gostaria. Mas foi uma fase muito importante para mim, porque me permitiu aprender muito e perceber que, para além das dificuldades que encontramos dentro da arena, existem outras dificuldades, muitas vezes ainda maiores, que temos de enfrentar fora dela. Foi uma experiência que me fez crescer, amadurecer e perceber muito cedo que, neste mundo, não basta ter vontade e saber estar diante do toiro, é preciso também saber lutar pelo nosso espaço e nunca desistir dos nossos objetivos.
Naturales: E porque decidiu, há 21 anos, sair de Portugal, atravessar o Atlântico e instalar-se na Califórnia? O que o levou a tomar essa decisão?
PJF: Foi uma decisão que nasceu sobretudo da necessidade de procurar um caminho diferente. Depois da alternativa, percebi que, apesar de ter vontade, ambição e de sentir que tinha capacidade para continuar a crescer, as oportunidades em Portugal não apareciam com a frequência que eu precisava. Ao mesmo tempo, começaram a surgir os primeiros contactos da Califórnia, algumas pessoas da comunidade portuguesa tinham-me visto tourear nas corridas da RTP que eram transmitidas para os Estados Unidos e fizeram-me o convite para ir tourear aí. Aceitei praticamente de imediato, na altura, não fui para a Califórnia a pensar que ia ficar 21 anos, fui com a ideia de fazer algumas corridas, viver uma experiência diferente e, quem sabe, abrir uma porta para o futuro. Quando cheguei, encontrei uma realidade completamente diferente, era um mundo novo, uma tauromaquia diferente, um país que eu não conhecia, uma língua que praticamente não falava e, acima de tudo, estava muito longe da minha família e de tudo aquilo que conhecia. Mas encontrei também pessoas que acreditaram em mim e me deram uma oportunidade. A primeira apresentação, em outubro de 2005, foi muito positiva e, antes de regressar a Portugal, já tinha várias corridas contratadas para o ano seguinte. Foi aí que percebi que talvez a Califórnia pudesse ser muito mais do que uma passagem. Surgiu depois a oportunidade de trabalhar como equitador e de abraçar o projeto da Coudelaria dos Irmãos Martins. Aceitei o desafio e comecei a construir a minha vida aqui. Hoje, olhando para trás, posso dizer que foi uma das decisões mais importantes da minha vida, saí de Portugal à procura de uma oportunidade e encontrei na Califórnia um lugar onde me deram espaço para trabalhar, crescer, aprender e realizar muitos dos sonhos que tinha desde criança.
Naturales: Quando chegou à Califórnia, o que encontrou? Quais foram as maiores dificuldades desses primeiros tempos, tanto a nível profissional como pessoal?
PJF: Quando cheguei à Califórnia encontrei uma realidade completamente diferente. Como já referi, tinha apenas 21 anos, estava longe da família, não falava inglês e tudo era novo para mim. Profissionalmente, também encontrei uma tauromaquia diferente e com condições muito diferentes das que conhecia em Portugal. Foram tempos de muita aprendizagem e adaptação, mas tive a sorte de encontrar pessoas que acreditaram em mim e me deram oportunidades. Foi difícil no início, mas essas dificuldades fizeram-me crescer e acabaram por ser fundamentais para aquilo que viria a construir na Califórnia. Ajudou muito esta minha maneira de enfrentar a vida com decisão e sempre na luta á procura do sonho.
Naturales: Houve algum momento em que pensou seriamente em desistir e regressar a Portugal?
PJF: Houve momentos muito difíceis, claro, mas nunca pensei verdadeiramente em desistir dos toiros, pensei sim, muitas vezes em voltar para Portugal. A saudade da família acompanhou-me sempre, os problemas de saúde de alguns familiares fizeram-me viver com o medo constante de os perder e, com o passar dos anos, a perda de amigos que me eram muito queridos deixou marcas profundas. Foram algumas das maiores cornadas que a vida me deu, feridas que não se veem, mas que ficam. A tudo isto juntavam-se as dificuldades dos primeiros tempos na Califórnia, que muitas vezes pesavam e me faziam sentir ainda mais longe de casa, mas eu sabia porque tinha vindo, estava à procura de uma oportunidade, e quando encontrei pessoas que acreditaram em mim, que me deram trabalho e me abriram portas, senti que não podia desperdiçar essa confiança. Tinha de agarrar aquela oportunidade e lutar por ela, mesmo quando tudo parecia mais difícil. No fundo, nunca desisti do meu sonho, apesar da saudade, das perdas e de todas as dificuldades, continuei a avançar. Mudei foi o lugar onde tive de lutar por eles.
| Paulo Jorge Ferreira era presença assídua nos cartéis das praças portuguesas nos seus inícios como profissional |
Naturales: Depois de se afirmar na Califórnia, porque é que nunca voltou a tourear regularmente em Portugal? Foi uma opção sua, por causa da vida que, entretanto, construiu na América, ou sentiu que continuava a não existir cá o espaço que procurava?
PJF: Foi um pouco das duas coisas, nunca deixei de ter vontade de tourear em Portugal, nem de sentir que aquela é a minha terra e a minha tauromaquia, mas entretanto, a minha vida na Califórnia foi crescendo e fui assumindo cada vez mais responsabilidades. Aqui encontrei oportunidades, pessoas que acreditaram em mim e um espaço onde pude construir a minha carreira, trabalhar com cavalos e também contribuir para o crescimento da tauromaquia. Por isso, não foi propriamente uma decisão de deixar Portugal para trás. Foi uma escolha de vida, quando percebi que na Califórnia podia continuar a realizar os meus sonhos e a construir algo meu, fui ficando. Talvez a verdade seja essa, Portugal nunca deixou de estar no meu coração, mas foi na Califórnia que encontrei o espaço onde consegui construir a minha vida e ser feliz.
Naturales: E como conseguiu transformar aquilo que começou por ser uma ida para a Califórnia numa permanência de 21 anos? O que o fez ficar?
PJF: Quando vim para a Califórnia, nunca imaginei que iria ficar 21 anos. A ideia inicial era ir, viver uma experiência diferente, trabalhar e, ao fim de algum tempo, regressar a Portugal. Mas a vida tem maneiras muito próprias de nos mudar os planos. Aos poucos, fui criando raízes, comecei a conhecer pessoas, fiz amizades que se transformaram em família, encontrei oportunidades e fui construindo uma vida que já não era fácil deixar para trás. A Califórnia começou por ser um destino, depois tornou-se uma segunda casa. Também houve momentos em que pensei em voltar, a saudade de Portugal, da família, dos amigos e das nossas tradições nunca desapareceu, mas cada ano que passava trazia novas responsabilidades, novas amizades e novas razões para continuar. No fundo, não houve um dia em que tivesse decidido, vou ficar 21 anos, foram 21 anos de pequenas decisões, de momentos bons e menos bons, de lutas, conquistas e pessoas que foram entrando na minha vida, quando dei por mim, já tinha construído uma história na Califórnia. E talvez seja isso que mais me marcou, vim para a América sem saber quanto tempo ficaria e acabei por deixar uma parte muito importante da minha vida.
Paulo Jorge Ferreira: "Se algum dia voltar a vestir de casaca e tricónico, e entrar numa praça portuguesa, será certamente por uma razão muito especial."
Naturales: Tourear na Califórnia é muito diferente de tourear em Portugal. O que muda na relação com os toiros, com o público e com o próprio ambiente taurino?
PJF: Sim, é diferente, e bastante. A essência da tauromaquia é a mesma, mas o ambiente, o público e até a forma como se vive cada corrida são diferentes. Em Portugal, cresci dentro de uma cultura taurina com séculos de tradição, o público conhece os toiros, conhece os cavaleiros, percebe os terrenos, os momentos e é muito exigente. Há uma ligação muito profunda entre o público e a festa. Na Califórnia, encontrei uma realidade diferente. A comunidade portuguesa teve um papel enorme em manter viva a nossa tradição e muitas vezes uma corrida de toiros é muito mais do que um espetáculo, é um ponto de encontro da nossa gente, das famílias e das nossas raízes. Sente-se uma emoção muito especial porque sabemos o esforço que existe para manter esta tradição tão longe de Portugal. Com os toiros, a responsabilidade é exatamente a mesma, o toiro não sabe se está em Portugal ou na Califórnia, exige respeito, conhecimento e verdade, e isso, para mim, nunca mudou. O que mudou foi o ambiente à minha volta e a forma de viver a tauromaquia. Na Califórnia, senti muitas vezes que não estava apenas a tourear, estava também a ajudar a preservar uma parte da nossa identidade, e isso dá um significado muito especial a cada vez que entramos numa arena.
| Além de cavaleiro tauromáquico, Paulo Jorge é ainda equitador na Coudelaria dos Irmãos Martins, na Califórnia |
Naturales: Sente que, de alguma forma, ajudou a manter e a divulgar a tauromaquia portuguesa na Califórnia? Pode considerar-se hoje um verdadeiro embaixador da tauromaquia portuguesa nesse estado americano?
PJF: Sim, sinto que, de alguma forma, contribuí para manter viva e divulgar a tauromaquia portuguesa na Califórnia. Mas nunca fiz isso sozinho, a tauromaquia que existe hoje na Califórnia é fruto do trabalho e da dedicação de muitas pessoas, de várias gerações, que acreditaram que era possível manter esta tradição viva tão longe de Portugal. Ao longo destes anos, tive a oportunidade de tourear, de organizar, de apoiar e, sobretudo, de estar presente. Sempre procurei defender a nossa festa com respeito e dignidade, não apenas dentro da arena, mas também fora dela, e isso, para mim, é muito importante. Se me perguntarem se me considero um embaixador da tauromaquia portuguesa na Califórnia, aceito essa palavra com muito orgulho, mas também com muita responsabilidade, ser embaixador não é apenas vestir um traje e entrar numa arena, é representar uma cultura, uma tradição de um povo. Tenho muito orgulho em saber que, durante estes anos, pude contribuir para que a nossa tauromaquia continuasse a ser conhecida, respeitada e vivida na Califórnia, e talvez a maior recompensa seja perceber que, depois de tantos anos, ainda há jovens que se apaixonam pelos toiros e que querem continuar esta história. Se deixarmos isso como legado, então todo o esforço valeu a pena.
Naturales: Agora chegamos à despedida das arenas na Califórnia: porquê neste momento? O que o levou a decidir que era chegada a hora de fechar este capítulo?
PJF: A decisão de me despedir das arenas não foi fácil. Quando dedicamos tantos anos da nossa vida aos toiros, é muito difícil imaginar o momento em que vamos dizer que já chega. Mas há momentos em que temos de saber ouvir a vida e perceber quando é altura de fechar um capítulo. Não saio porque deixei de gostar dos toiros, saio porque sinto que cheguei ao meu limite e não consigo dar mais que o que já dei. Sempre entendi que um homem deve saber quando é o momento certo para sair, e prefiro que as pessoas guardem na memória aquilo que fui capaz de dar às arenas, e não aquilo que poderia ter sido se tivesse prolongado demasiado, ou até mesmo sair desgastado e desgastando a minha imagem. Foram muitos anos de emoções, de sacrifícios, de alegrias, de momentos difíceis e, acima de tudo, de histórias que vou levar comigo para o resto da vida. A Califórnia deu-me muito, e eu espero também ter conseguido dar alguma coisa à Califórnia e à nossa tauromaquia. Quero sair em paz, com o coração cheio e com a consciência de que dei tudo o que tinha para dar. Afinal, depois de tantos anos, não se fecha uma porta com tristeza, fecha-se com gratidão.
Naturales: A corrida de 14 de setembro, em Gustine, coloca o seu nome ao lado de Marcos Bastinhas e Francisco Palha. Que significado tem para si poder fazer esta última corrida na Califórnia ao lado de dois cavaleiros portugueses?
PJF: Tem um significado muito especial, talvez até difícil de explicar por palavras. Depois de tantos anos de vida taurina na Califórnia, poder fazer a minha última corrida aqui ao lado de dois cavaleiros portugueses como o Marcos Bastinhas e o Francisco Palha, e ainda por cima ter na arena o Grupo de Forcados da minha terra, a Azambuja, torna este momento verdadeiramente inesquecível. Para mim, é como juntar numa só tarde as duas partes mais importantes da minha vida taurina, a minha terra, Portugal, e a Califórnia, que durante tantos anos foi e continua a ser a minha casa. A Azambuja representa as minhas raízes, aquilo que sou e de onde venho, ver os Forcados da minha terra naquela arena, tão longe de Portugal, vai certamente ser um dos momentos mais emocionantes de toda a minha carreira, e poder partilhar a arena com o Marcos e o Francisco, dois cavaleiros portugueses, dá a esta despedida uma dimensão ainda maior. É quase como se Portugal viesse à Califórnia para me acompanhar neste último capítulo. Não podia ter escolhido, nem imaginado, uma forma mais bonita de terminar. Quero viver este dia intensamente, sem pensar demasiado que é a última vez, quero entrar naquela praça, olhar para o público e sentir tudo aquilo que estes anos me deram. E quando chegar o momento de sair da arena, quero sair de cabeça levantada e com o coração cheio, porque mais do que uma despedida, quero que seja uma celebração dos toiros, da amizade, da minha terra e de todos aqueles que fizeram parte desta caminhada.
| Momento de um remate numa corrida na Califórnia onde a Tauromaquia é muito diferente deste lado do Atlântico |
Naturales: Esta é apenas uma despedida da Califórnia ou é também o princípio de uma despedida das arenas? Pensa ainda tourear em Portugal?
PJF: A despedida da Califórnia é, neste momento, uma despedida de uma etapa muito importante da minha vida, mas não quero dizer que seja necessariamente o fim absoluto das arenas. A Califórnia foi a minha casa durante 21 anos e é aqui que sinto que tenho de fechar este capítulo. Mas Portugal é diferente, Portugal é o meu País, são as minhas raízes, é onde comecei a sonhar com os toiros e onde nasceu esta paixão. Por isso, sim, gostava de ainda poder tourear em Portugal, não estou a dizer que vou regressar para fazer uma temporada ou que vou voltar a tourear regularmente. Mas se surgir uma oportunidade especial, numa praça e num ambiente que tenham significado para mim, não escondo que seria muito difícil dizer que não. A corrida de Gustine será o meu adeus às arenas da Califórnia, quanto a Portugal, se algum dia voltar a vestir de casaca e tricónico, e entrar numa praça portuguesa, será certamente por uma razão muito especial e acima de tudo, porque o coração ainda me disse que é altura de voltar a sentir aquela emoção.
Naturales: Hoje, olhando para a realidade portuguesa, acha que, se regressasse, seria mais fácil para si integrar-se novamente nos cartéis e encontrar oportunidades?
PJF: Sinceramente, não sei se seria mais fácil, depois de 21 anos fora, seria quase começar uma nova etapa. O mundo taurino mudou, os cartéis mudaram, apareceram novos cavaleiros e eu também já não sou o mesmo homem que saiu de Portugal. Mas uma coisa é certa, hoje voltaria com muito mais experiência, maturidade e conhecimento do que tinha quando parti. Foram 21 anos a viver os toiros, a enfrentar diferentes realidades e a aprender, muitas vezes com as dificuldades. Mas na verdade hoje com a experiência que tenho e pelo que vivi, não me identificava nada com a tauromaquia portuguesa deste momento, está muito viciada, com muitos truques e pouca seriedade e isso para mim não dava.
Naturales: Estando longe do nosso país, mantém-se certamente a par da actualidade por cá. Como avalia o estado actual da tauromaquia em Portugal? Acha que melhorou ou piorou ao longo destes 21 anos?
PJF: Tenho acompanhado a tauromaquia portuguesa, mesmo estando longe, e confesso que tenho sentimentos mistos. Há coisas que me dão muito orgulho e outras que me preocupam. Não acho que se possa dizer simplesmente que a tauromaquia está melhor ou pior, mas que mudou, há hoje mais dificuldades, mais pressão exterior e uma necessidade cada vez maior de defender e explicar aquilo que fazemos. Mas, ao mesmo tempo, continuamos a ter cavaleiros, forcados, ganadeiros, empresários e aficionados com uma paixão enorme e uma vontade extraordinária de manter a festa viva. O que me preocupa é ver, por vezes, alguma falta de união dentro da própria tauromaquia. Acho que precisamos de estar mais unidos, de defender a nossa cultura sem complexos e de trabalhar mais para aproximar as novas gerações das praças de toiros.
Naturales: Depois de uma carreira tão longa na Califórnia, há algum momento, corrida ou cavalo que tenha sido particularmente marcante e que leve consigo para sempre?
PJF: Sim. Há muitos momentos que guardo com enorme carinho, mas há um que terá sempre um lugar muito especial na minha memória, a minha Alternativa. Foi muito mais do que um momento importante na minha carreira, de certa forma, foi a ponte de ligação para a Califórnia e para tudo aquilo que viria a acontecer na minha vida depois. Quando olho para trás, percebo que aquele momento marcou o início de uma nova etapa. Nunca poderia imaginar que aquela Alternativa me levaria a construir 21 anos de vida, de tauromaquia, de amizades e de histórias na Califórnia. Por isso, quando penso nela, não penso apenas no cavaleiro que ali se tornou profissional. Penso no caminho que começou naquele dia e que me trouxe até aqui. E talvez seja isso que torna determinados momentos tão especiais, na altura vivemo-los sem saber a dimensão que vão ter no futuro. Hoje, tantos anos depois, olho para a minha Alternativa e vejo nela a verdadeira ponte entre o homem que eu era em Portugal e o homem que me tornei na Califórnia. É um momento que vou levar comigo para sempre.
Naturales: E para terminar: se o Paulo Jorge Ferreira de 2005 pudesse conversar durante cinco minutos com o homem que hoje, em 2026, se prepara para sair da arena pela última vez na Califórnia, o que acha que lhe diria?
PJF: Acho que lhe diria, não tenhas medo, vai que vais deixar para trás muita coisa, vais sentir saudades, vais ter momentos em que vais questionar as tuas decisões, mas vais encontrar na Califórnia muito mais do que alguma vez imaginaste. Dir-lhe-ia também para aproveitar cada momento, porque os 21 anos vão passar muito mais depressa do que ele pensa, que algumas das pessoas que vai conhecer vão tornar-se família, que vai viver momentos que nunca imaginou viver e que, um dia, vai olhar para trás e perceber que aquela viagem que parecia apenas mais uma etapa acabou por mudar a vida, e também lhe dizia para nunca esquecer de onde veio, para levar a Azambuja, Portugal, a família e os amigos sempre no coração, porque podemos viver do outro lado do mundo, construir uma vida diferente e criar novas raízes, mas aquilo que somos acompanha-nos sempre. Hoje, se aquele Paulo de 2005 me perguntasse se valeu a pena, eu respondia sem hesitar, valeu cada sacrifício, cada lágrima, cada saudade e cada momento vivido. Dizia-lhe ainda uma última coisa, quando chegar o dia de saíres daquela arena pela última vez, não olhes para trás com tristeza, olha para trás com orgulho, porque vais perceber que não viveste apenas uma carreira, viveste uma vida. Talvez esse seja o maior legado que levo comigo não saio da arena com a sensação de que estou a perder alguma coisa. Saio com a gratidão de ter tido a oportunidade de viver um sonho.
Texto: Patrícia Sardinha
Fotografias: Gentilmente cedidas por PJF/DR
10/09/2026