Reguengos animou-se com Escribano e com o regresso do Toureio a Pé

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Numa das datas com mais tradição taurina, o quinze de Agosto, Reguengos atreveu-se a mudar o conceito e o formato de um dos festejos com mais calendário nesta região.

De corrida vespertina, que acontecia no pico do calor, passou recentemente a nocturna, ganhou uma procissão de velas a anteceder a corrida (acréscimo que nos últimos tempos tem sido adoptado em vários festejos um pouco por todo o país), e este ano trouxe ainda a novidade de ser corrida mista. Um risco, mas também um passo de gigante dado pela Reguengos Afición que, vinte e dois anos depois, fez regressar o Toureio a Pé à arena da “Mestre Batista”. 

E resultou?

Resultou! Resultou porque houve a habilidade de trazer, a uma afición esquecida da arte de Montes, um toureiro com gancho junto do público, e, também, porque perante a passividade de lides equestres cujas sortes são mais do mesmo, o toureio a pé obviamente ainda impacta, emociona e surpreende.

Manuel Escribano foi a aposta ganha deste cartel e primou por algo raro no nosso país quando somos visitados por alguma ‘figura’ aqui do lado. Não exigiu ganadaria, não trouxe “novilhos” de casa, lidou o que estava anunciado no cartel, igual a todos os outros intervenientes e nem vinham demasiado afeitados. O resto foi a entrega, a disposição, o valor e a variedade em todos os tércios que fizeram a diferença. Frente ao primeiro faltou algum empuje ao toiro para que as tandas fossem mais largas. Ainda assim a disposição e os desplantes do matador espanhol sobressaíram nas bancadas. No que foi último da corrida, com mais recorrido, voltou a ser patente a entrega e o valor de Escribano. O toiro virava-se a cada passe, era preciso estar-se atento, e o espanhol ainda sofreu voltareta sem consequência. Mas depois, cresceu, confiou-se ainda mais, deixando roçar os pitóns várias vezes pela taleguilla, e praticamente nisso assentou o final da faena. Em ambas as actuações bandarilhou com oficio, partilhando em cada toiro um par com o bandarilheiro português da sua quadrilha, Filipe Proença, que também cumpriu com efectividade. O público abraçou a entrega do espanhol com muita devoção e brindou-o com duas voltas à arena em cada faena. No final, saíu em ombros.

A cavalo, o regressado João Salgueiro, teve duas actuações com conceitos diferentes mas de resultados similares. Frente ao primeiro, as sortes tiveram intenções mais rectas. Cumpriu com a ferragem ainda que nem sempre com reuniões cingidas. Já no que foi o segundo do seu lote, e montando o Olho de Rei, citou de largo para depois impingir as batidas ao pitón contrário, o que levou a algumas passagens em falso e ainda a uma colhida aparatosa. Trocou de montada e conseguiu melhorar a qualidade da lide.

Tristão Ribeiro Telles recebeu ambos os toiros do seu lote com ferros compridos em sorte gaiola. E nos dois, o toureio praticado foi o mesmo. Deixar o toiro junto das tábuas, onde os peões de brega o fixavam, para depois da outra ponta do ruedo, partir ao toiros e cravar após batidas ao píton quiebro. As dessemelhanças entre actuações deram-se essencialmente porque na primeira, nem sempre houve assertividade na colocação dos ferros, e na segunda, porque teve pela frente um toiro bravo que se arrancava codicioso ao cavaleiro. Logrou, portanto, com mais transmissão junto das bancadas, a segunda lide. 

Nas pegas, estiveram em praça os Amadores de Lisboa, cujas pegas foram executadas por Duarte Nascimento, que consumou bem à primeira, com o toiro a arrancar-se com pata; e por José Batista à terceira, depois de dois intentos não conseguidos. Pelos Amadores de Monsaraz, Rui Caeiro tentou por duas vezes mas sem aguentar os derrotes saiu lesionado. Acabou dobrado pelo cabo, João Ramalho; e André Mendes concretizou à segunda, uma pega rija, depois de no primeiro intento o toiro o ter despejado com violência nas tábuas.

Lidaram-se toiros de Falé Filipe, bem apresentados, e de bom jogo no geral, sem complicarem, destacando-se o quinto da noite, um bom toiro, que concedeu volta merecida ao ganadero. 

Salientar ainda que a praça contou com lotação esgotada, de acordo com o anúncio feito pela empresa a meio do festejo e pela voz do ‘speaker’ da noite, Maurício Vale, que foi tecendo comentários durante os tempos “mortos” da longa noite - o espectáculo durou mais de quatro horas tendo em conta que iniciou pouco depois das 21h30m com a procissão das velas, e aqui, há a rever de futuro o que se pode melhorar para reduzir o tempo do espectáculo.

Dirigiu a corrida, Domingos Jeremias, numa noite ainda marcada por uma homenagem da Reguengos Afición ao Dr. António Peças, uma presença frequente, e útil, nas trincheiras das praças de toiros. 

E, regressado que está o toureio a pé a Reguengos, que não se perca agora novamente esta possibilidade de o podermos ver com mais frequência na “Mestre Batista”. 






Patrícia Sardinha

17/08/2026

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