Corria o ano de 1958, dezanove de
Julho, e o Campo Pequeno daquele tempo, assistia à única reprovação de uma
alternativa de cavaleiro tauromáquico. O visado? José Mestre Batista. Repetiu-a
meses depois, na Moita, e passou!
Aquele que foi o único ‘chumbo’
da história do toureio a cavalo em Portugal, veio a resultar num dos maiores nomes
da nossa Tauromaquia. Eu ainda não estava cá para ver, mas diz-se que a reprovação não foi tanto pela sua prestação, mas pelo incómodo que já causava aos companheiros
de então.
O que é que isto interessa agora?
Nada!
Mas vem a propósito de mais uma
alternativa de cavaleiro concedida ontem no Campo Pequeno, principalmente pela diferença dos critérios e do nível de exigência entre esse tempo e os dias de hoje na Praça
de Toiros de Lisboa e que são, claramente, outros. Inclusive o público, hoje bem mais permissivo, que aplaude, vibra e, tantas vezes, tudo aceita.
Agora, passam todos. E passa tudo…
Duarte Fernandes tornou-se ontem cavaleiro
de alternativa.
E, é um facto, passou com grande distinção e mérito, e com uma casa completamente lotada a assistir!
Perante tal responsabilidade, o
jovem cavaleiro não acusou um milímetro a pressão e triunfou forte em Lisboa. Aliás,
tudo naquela noite esteve alinhado para um desfecho triunfal. O toiro da sua
alternativa, com o nº 23 no costado, e 592kg, carregava no nome aquilo em que Duarte Fernandes se tornaria nessa noite: 'Triunfador'. Teve mais esqueleto que carne, de
pouca cara e badanudo, mas teve a nobreza suficiente, e a comodidade exagerada,
para permitir a Duarte uma actuação francamente bem conseguida. Depois de três
compridos de boa nota, iniciou os curtos com sortes de praça a praça, tão em voga
actualmente e em que com o toiro despejado numa ponta da praça, parte o
cavaleiro da outra a passo, e, a poucos metros do toiro imóvel, faz a batida
para cravar os ferros. Desta forma engatou o público e a música logo ao
primeiro ferro, e desde então a sinfonia foi em crescendo. Montando o Mistral,
logrou o melhor ferro da noite, o quarto, com o toiro nos médios e numa sorte
frontal. Rematou a ferragem final com piruetas na cara da rês que perseguia a
passo cadenciado, mas que deixaram o público completamente rendido e a aplaudir efusivamente de pé.
No seu segundo, voltou a exibir
bons modos, mas os resultados não foram lineares perante um toiro que não foi tão
colaborante, sendo reservado de investida. Os compridos resultaram díspares de
colocação, e nos curtos, a actuação foi de menos a mais, sendo novamente com o
Mistral que cravou o ferro de melhor qualidade. Terminou prestação valendo-se
dos recursos, com três palmitos em sorte violino para gáudio das bancadas. Deu
duas voltas após esta actuação, até porque era fazer contas… Mas por mim, a
haver lide meritória de duas voltas, teria sido a sua primeira, que foi efectivamente
boa.
Rui Fernandes teve a feliz
coincidência de cumprir nessa mesma noite 28 anos de alternativa. E mais do que
um padrinho orgulhoso, foi acima de tudo, um tio babado. E provavelmente saiu
mais recompensado pelos resultados do sobrinho do que pelos próprios. Até
porque os toiros foram condicionantes para triunfos. Perante o
primeiro deu importância na brega para a ferragem comprida. Nos curtos, sacou
ofício e experiência para resolver a papeleta perante um toiro reservado e manso.
No que foi quarto da ordem, Fernandes
teve novamente de puxar dos galões e medir distâncias com um toiro que cortava caminho,
mas que teve mais predisposição que o seu anterior. Cumpriu com ofício a
ferragem, rematando com ladeios na cara do toiro e terminando com um par de
bandarilhadas concretizado com sucesso no segundo intento.
Diego Ventura também não foi
bafejado pela sorte com o lote e deixou-nos a nós, na bancada, sem a sorte de
podermos desfrutar em pleno do valor do rejoneador luso-espanhol. Frente ao
primeiro, Ventura tentou recriar-se levando o toiro em ladeios e recortes
pela arena, mas faltou transmissão ao toiro para que resultasse com outro
impacto. Foi eficiente com a ferragem, e bem na brega, sabendo medir as
distâncias a um toiro reservado e, que por isso, não se lhe podia dar muita. Cumpriu,
mas sem triunfalismos de outras vezes. Frente ao segundo do seu lote, a
actuação nem sempre pautou pela regularidade, muitas vezes fruto do engano das
batidas que provocam o desequilíbrio na investida do toiro, mas também pela
reserva deste em investir e, com isso, resultaram as passagens em falso. Ainda
assim, deixou ar de sua graça, quando montando o Bronce lhe retira a cabeçada e
cravou um bom ferro para encerrar a sua passagem por Lisboa.
Nas pegas também a reserva dos
toiros não facilitou, fazendo por vezes demorada algumas pegas na sua
concretização.
Pelo Aposento da Moita, pegou o
cabo, Luís Canto Moniz, que consumou numa reunião à córnea, com o toiro a ir
por direito; António Lopes Cardoso concretizou num segundo intento; e André
Silva concretizou bem à primeira.
Pelos Amadores de Turlock, Morais
Rocha consumou ao quinto intento, a sesgo e com ajudas carregadas; Joey
Parreira efectivou à primeira; e Fábio Vieira fechou a noite com uma pega
também à primeira.
Lidaram-se toiros de Cortes
Moura, em tipo do encaste Murube, escassos de raça e transmissão, sendo reservados
na investida e sem emoção nas perseguições, condicionando o brilho das lides. Se
é um facto que é encaste favorito e exigido por algumas das figuras do toureio
equestre, também outro facto é que depois, sem ovos, não se fazem omeletes. O
espectáculo taurino resulta da imprevisibilidade, do risco, da bravura… Se isso
falta, se falta o toiro, falta tudo!
Dirigiu a corrida Ricardo Dias, assessorado
pelo médico veterinário José Luís da Cruz, e que se iniciou com um minuto
de silêncio em memória de António José Zuzarte, antigo cabo
dos Amadores de Montemor, recentemente falecido.
Ressalvar ainda que, com três
voltas ao ruedo, foi concedida abertura da porta grande a Duarte Fernandes.
Fica assim um dado assinalável: o Campo Pequeno soma, para já, duas casas esgotadas com dias de antecedência e duas saídas em ombros pela Porta Grande. Bons sinais para a Festa. Mas convém nunca esquecer que a Porta Grande deve continuar a ser um prémio extraordinário e não uma consequência natural.
Pode abrir-se à vontade; nunca à
vontadinha.
Patrícia Sardinha
07/08/2026
