Campo Pequeno: Faltou tudo (e mais um par de botas)

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Terceira corrida, e penúltima, da época taurina da Praça de Toiros do Campo Pequeno, com o primeiro de dois cartéis que anunciavam uma composição de sete cavaleiros.

Entendo que o Campo Pequeno, como disse o seu empresário, deva dar lugar a todos. Mas, pessoalmente, sou apologista de que aquela que é a primeira praça do país deve ter, acima de tudo, por mote a excelência, a exigência, o critério e o exemplo… Pode dar lugar a todos, mas…

Posto isto, confesso que a expectativa para o festejo já não era grande, mas conseguiu surpreender…e ser bem pior.

Faltou (bom) toureio, faltou verdade, faltou até respeito pelo público que continua a ser, com mais ou menos ‘glamour’, com mais ou menos conhecimento, um resistente, o pagante — e como está cara a vida no Campo Pequeno! —, a tolerar de tudo e, ainda assim, a bater palmas.

Mas faltou, principalmente, o Toiro!

E quando não há matéria-prima, não há o resto… por mais que haja boa vontade.

Ontem, sem sombra de dúvida, o curro da ganadaria Herdeiros de António Silva condicionou em pleno o resultado artístico do festejo. Mansos, sem excepção! Apenas cumpriram na apresentação.

Até saíam com pata, a prometer emoção, mas cedo caíamos na realidade, e percebíamos que não tinham investida, nem pela frente nem por trás, quase todos a descaírem para tábuas. E os poucos exemplares que tiveram algumas ‘nuances’ de lidáveis foram desaproveitados.

Mas a imprevisibilidade de um curro de toiros, que é também uma das condições da Tauromaquia, não pode ser a única desculpa para a falta de argumentos por parte dos artistas, que nem sempre os entenderam, dando distâncias ou provocando enganos a toiros que, por si, já pouco ou nada investiam, quanto mais… E, nalguns casos, perante a falta de matéria-prima, houve que recorrer ao ‘artífice’ para colmatar outras carências.

O toiro condicionou mas não absolveu.

Pelo que, artisticamente, pouco ou nada há a registar.

Triste, mas verdade!

Variedade houve, mas de ferros falhados, de ferros traseiros, de ferros a cilhas passadas, de ferros pescados, de toques nas montadas… Nisso, sim, houve variedade.

Paco Velásquez, que confirmou alternativa, andou esforçado, mas incerto com um toiro que não lhe deu opções.

Luís Rouxinol ‘bailou com a mais feia’ do curro, um toiro desinteressado no cavalo e sempre a descair para tábuas. Deixou um comprido traseiríssimo que borrou a lembrança dos outros dois e nos curtos não lhe chegou a experiência para convencer.

Gilberto Filipe cumpriu na ferragem, ainda que por vezes de forma desajustada, para romper depois com dois violinos, cada um seguido de volta ao ruedo a pedir aplausos, e com o cavalo sem cabeçada, apenas com um cabo de aço, com o qual, o cavaleiro controlava a montada.

Filipe Gonçalves, com um toiro que após uma ‘campana’ pareceu ficar um pouco (ainda mais) limitado, preconizou o seu registo toureiro, com batidas pronunciadas, tendo mais eco no público com as cabriolas e as ‘palmas’ das montadas.

Manuel Telles Bastos cuidou da ferragem comprida, para nos curtos a lide resultar irregular perante outro manso enquerençado.

O rejoneador espanhol Andrés Romero teve pela frente outro toiro sem investida e viu-se com dificuldades para lograr deixar os ferros com assertividade.

Fechou a noite o praticante Vasco Veiga, que teve no seu segundo curto o melhor ferro da noite. Citou a pouca distância, cingiu-se, e cravou de alto a baixo. Andou com boas intenções, mas de resto, se até os profissionais tiveram dificuldades, fará o praticante…

Nas pegas, havia competição anunciada para a Melhor Pega, entre os Amadores de Montemor e os de Vila Franca. E se nas lides equestres os mansos condicionaram, nas pegas também...

E foram os alentejanos, os Amadores de Montemor, os que sentiram mais dificuldades com os toiros a imporem dureza nas reuniões. Pegaram Miguel Cecílio e Vasco Ponce à terceira tentativa; Joel Santos à quarta; enquanto José Pena Monteiro concretizou à primeira, na única pega que não foi abrangida pelo concurso.

Pelos Amadores de Vila Franca, Miguel Faria, Guilherme Dotti e Rodrigo Andrade lograram pegas ao primeiro intento, todas com boa efectividade, quer do forcado da cara, quer dos demais elementos. A sexta pega da noite, da autoria de Rodrigo Andrade, foi rija, com grande ajuda de Rodrigo Dotti, e acabou por resultar na vencedora da Melhor Pega.

O júri foi constituído pelos cabos dos dois grupos e entregou o prémio, Pedro Trindade, pai de Manuel Trindade (o prémio levava o seu nome), forcado dos Amadores de São Manços que sofreu uma colhida grave nesta praça, há precisamente um ano, e que acabaria por falecer.

Bonito e emotivo foi o gesto de Rodrigo Andrade, ao entender deixar este primeiro troféu com o nome do malogrado forcado, junto da família do jovem homenageado. Um momento de verdadeira emoção numa noite onde esta escasseou.

Com cerca de dois terços de lotação, dirigiu a corrida, Tiago Tavares, assessorado pelo veterinário José Luís Cruz, numa noite que iniciou com uma homenagem póstuma ao Dr. José Cabral, médico que integrou durante vários anos a equipa do Campo Pequeno, e falecido este ano.

E na noite em que se juntaram duas bandas para animar o espectáculo — a habitual do Samouco e a convidada de Idanha —, foi o silêncio o que mais imperou. E, em boa verdade, mais ainda deveria ter imperado.

O “rigor” do director de corrida nessa noite só consentiu a música por três vezes e fomos também poupados das voltas à praça. O que, vendo pelo lado positivo, numa corrida de sete toiros, o tempo acabou semelhante ao habitual de seis lides…

E quando o director de corrida resulta num dos protagonistas do festejo, significa que algo não vai  bem.

Mas talvez o mais preocupante não seja sequer o facto de uma noite correr mal. Isso acontece. A Tauromaquia vive da imprevisibilidade, e até os melhores podem ter uma noite menos conseguida.

Mas ontem, faltou tudo… E mais um par de botas.








Patrícia Sardinha
22/08/2026




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