Há noites de toiros que se medem pelo resultado artístico. Outras pela emoção. E há ainda aquelas, mais raras, que valem por tudo isso, mas sobretudo por aquilo que representam para uma terra e para a sua gente.
A noite de 15 de agosto, em Messejana, pertence a esta última categoria.
Todos os anos, por esta data, a castiça Praça de Toiros Padre Serralheiro engalana-se para receber uma das mais genuínas tradições taurinas do nosso Alentejo. Uma praça diferente, carregada de história, de memórias e, acima de tudo, de uma profunda ligação à comunidade que a envolve.
Integrada nas instalações do Lar da Santa Casa da Misericórdia de Messejana, oferece-nos uma das imagens mais ternurentas e singulares da tauromaquia portuguesa: os utentes do Lar a assistirem à corrida das janelas dos seus quartos. Talvez seja difícil encontrar uma imagem que explique melhor aquilo que esta corrida significa. Ali, a festa não acontece apenas dentro da arena. Entra pelas casas, pelas janelas, pelas memórias e pelo coração de quem vive Messejana.
Este ano, mais uma vez, Messejana esgotou. E esgotou com 24 horas de antecedência.
Casa cheia, ambiente de festa e um objetivo maior por detrás de tudo isto: o lucro da corrida reverte para a aquisição de um terreno onde se pretende erguer um novo Lar da Santa Casa da Misericórdia.
E é aqui que a festa ganha uma dimensão ainda maior.
Porque em Messejana poderíamos recuperar a velha expressão de que “o Homem sonha e a obra nasce”. Já assim foi no passado. E falar desta praça sem recordar o saudoso Manuel Ruas seria esquecer uma parte fundamental da sua história. Homem de visão e de enorme afición, muito contribuiu para erguer, afirmar esta castiça praça no panorama taurino português. Há homens que partem, mas deixam obras que continuam a falar por eles. A Padre Serralheiro é também testemunho dessa paixão e dessa capacidade de sonhar.
Para a edição deste ano, o empresário Rui Palma reuniu um cartel composto pelos cavaleiros Rui Fernandes, Francisco Palha e Luís Rouxinol Jr., acompanhados pelos Forcados Amadores de Évora e de Beja, perante toiros de Lima Cabral.
O facto de os bilhetes terem esgotado na véspera já constituía uma vitória. Mas a noite deste sábado acabaria por confirmar que o sucesso não se ficou pelas bilheteiras. Houve também correspondência artística dentro da arena, justificando-se, por isso, as honras a Rui Palma pela montagem de um cartel que soube interpretar aquilo que Messejana queria para a sua grande noite taurina.
Mas antes de se abrir verdadeiramente o livro da lide, Messejana voltou a proporcionar um dos momentos mais bonitos e simbólicos da noite.
A anteceder as cortesias, realizou-se a tradicional Procissão das Velas em honra de Nossa Senhora da Assunção, padroeira da terra. O andor percorreu a arena aos ombros dos principais intervenientes da corrida, numa imagem onde fé, tradição e tauromaquia se encontraram no mesmo espaço.
É difícil ficar indiferente.
Por alguns instantes, a arena deixou de ser apenas o palco da corrida para se transformar num lugar de devoção coletiva. As velas, o silêncio e o respeito de uma praça cheia deram ainda mais significado a uma tradição que Messejana continua orgulhosamente a preservar.
Uma palavra igualmente merecida para a Banda Imparcial 15 de Janeiro que viajou de Alcochete, e que abrilhantou a corrida com excelentes interpretações musicais, comprovando ser uma das melhores do nosso país.
Numa praça com estas características, a música tem uma importância especial. Acompanha os momentos, ajuda a criar ambiente e dá ainda mais cor e alma à festa. E nesta noite cumpriu plenamente essa missão.
Mas se há algo que continua a tornar Messejana diferente é, indiscutivelmente, o seu público.
Quem vai a Messejana não vai simplesmente assistir a uma corrida de toiros. Vai para participar nela. Vai para fazer a festa. Vai predisposto a aplaudir, a apoiar os artistas e a viver cada momento.
É um público caloroso, próximo e generoso. Um público que transforma uma pequena e castiça praça numa enorme caixa de emoções. Talvez seja esse um dos grandes segredos do sucesso desta corrida: quem ali entra sente que não está apenas perante mais um espetáculo taurino. Está a participar numa tradição coletiva.
E isso sente-se desde o primeiro momento.
Sente-se nas bancadas cheias. Nas janelas do Lar. Nas velas que percorrem a arena. Na música. Nos aplausos. Na entrega dos artistas. Nas famílias que regressam todos os anos. E sente-se, sobretudo, naquele orgulho muito próprio de uma terra que sabe receber e que sabe preservar aquilo que é seu.
Messejana tem um encanto especial.
Um encanto difícil de explicar a quem nunca viveu uma noite de 15 de agosto na Padre Serralheiro.
Este ano voltou a provar-se que a tauromaquia, quando profundamente ligada às comunidades, é muito mais do que aquilo que acontece dentro de uma arena. Pode ser tradição, identidade, memória, solidariedade e também futuro.
Ontem ajudou-se a sonhar com um novo Lar.
Tal como outros sonharam antes com uma praça e conseguiram erguê-la.
Porque há terras onde as tradições apenas sobrevivem. Em Messejana, vivem-se.
E enquanto houver uma praça cheia, um artista para a pisar, uma banda para tocar, uma vela acesa em honra de Nossa Senhora da Assunção e uma janela do Lar aberta para a arena, a noite de 15 de agosto continuará a ser uma das noites mais bonitas e genuínas da nossa festa.
Messejana voltou a encher. Messejana voltou a emocionar. Messejana voltou a sonhar.
E quando Messejana sonha, a obra nasce!
Vitor Besugo
