Naturales | 25 anos - 25 entrevistas com Luís Miguel Pombeiro: "Criticar é fácil. Arriscar do nosso é muito mais difícil."

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A precisamente uma semana do início da sua sétima temporada à frente da gestão taurina do Campo Pequeno, Luís Miguel Pombeiro explica ao NATURALES as opções do abono de 2026, aborda a ausência dos Amadores de São Manços, defende a aposta em novos protagonistas e revela a ambição de voltar a ver Lisboa com cinco ou seis corridas de toiros por temporada.


Luís Miguel Pombeiro - Foto: Pedro Batalha


Luís Miguel Pombeiro

"Tenho esperança de voltar a ter cinco ou seis corridas no Campo Pequeno."




Naturales: Estamos a uma semana do início de mais uma temporada de abono no Campo Pequeno. Como vive estes últimos dias que antecedem a primeira corrida da época em Lisboa?

Luís Miguel Pombeiro: Sempre nervoso e ansioso, mesmo sabendo que a corrida irá esgotar há sempre pormenores e situações que surgem e que têm de estar previstas para que tudo corra bem e o público saia satisfeito e os Toureiros triunfem. É um cartel excecional por isso tem de correr tudo em conformidade.


Naturales: Esta será a sua 7.ª temporada à frente da gestão taurina do Campo Pequeno. A motivação contínua a ser a mesma? O que mudou em si enquanto empresário ao longo destes anos à frente da principal praça de toiros portuguesa?

LMP: A Tauromaquia é uma paixão contínua, porque como não é imutável , vai alimentando sempre o sentido de estar apaixonado. Aliás penso que não há nenhuma arte tão apaixonante como esta. Porque há sempre novidades, há transformações e inovações. O Toureio tem as suas regras, mas dentro delas há progressos e interpretações de cada artista que nos fazem alimentar essa paixão. Daí que eu não mudei nem alterei essa paixão. Posso é ter cometido erros e com eles vou aprendendo e continuarei a aprender. Estou mais velho, passei por fases dificílimas da pandemia e no ano seguinte à mesma e hoje é tudo diferente de há anos. A responsabilidade é maior, mas não mudei a minha ideia e a minha conceção, e a minha maneira de ver e entender a Tauromaquia.  Estou mais velho, talvez vinte anos mais nestes anos…


"Se consideram a segunda parte “discreta” no Campo Pequeno, estão a ofender os intervenientes que a compõem."



“Magnífico” de Murteira Grave será um dos toiros lidados na corrida de 16 de Julho - Foto:MurteiraGrave@Facebook


Naturales: Será mais uma temporada de quatro corridas. Que análise faz no geral aos cartéis que prepararam para esta temporada e que expectativas tem relativamente à resposta do público?

LMP: Vão ser quatro grandes corridas e irei trabalhar para que todas tenham casas cheias. São quatro corridas para todos os gostos mas também para quem não gosta…


Naturales: Por falar em quem não gosta… Alguns aficionados consideram que as duas primeiras corridas têm um peso mediático e competitivo superior às restantes e até quem diga que a temporada de Lisboa se divide em duas partes: uma ‘fortíssima’ (as duas primeiras corridas) e a outra ‘discreta’ (as duas últimas corridas do abono). Concorda com esta apreciação?

LMP: Não acho isso. As duas primeiras têm figuras mundiais de extrema importância. As outras têm também os nossos cavaleiros, os tais que aguentam aqui as corridas que se dão por esse país fora e que vejo serem exaltados pela crítica noutras praças. Por isso se consideram a segunda parte “discreta” no Campo Pequeno, estão a ofender os intervenientes que as compõem. E isso é lamentável…


Naturales: Os dois últimos espetáculos apostam no formato de sete cavaleiros. Há quem ache que este modelo pode tornar a corrida morosa e, por isso, menos apelativa para parte do público. O que esteve na base dessa opção de programar duas corridas consecutivas com sete cavaleiros?

LMP: É engraçado porque quem defende o antigamente sabe que havia corridas de sete, de oito, de doze…. A diferença é que não eram à noite. Mas essas corridas até estão à sexta-feira para que possam estar até mais tarde. Estou a ser irónico, desculpe. Já vi corridas de três cavaleiros demorarem quatro horas e já vi de seis demorarem duas e meia. Depende dos toiros, das pegas, das voltas dos cavaleiros, dos azares, dos triunfos e de muita coisa. A opção foi estarmos, eu o Charraz, com o “vem este ou vem aquele”, e depois pensarmos “então e fulano fica de fora?”. Para nós também seria mais fácil e mais barato fazer corridas só de três cavaleiros… Mas agora digo-lhe o que dizia o Sr. Manuel Gonçalves: “melhor seis porque assim, só com um toiro, eles têm de dar tudo nesse toiro. Se forem dois, como não têm cavalos estrelas, toureiam bem num e no outro é assim-assim…”. Diga-me ou aponte se há muitos cavaleiros com quadras para dois toiros?! Começamos a pensar e talvez o Sr. Manuel Gonçalves tinha razão. E essa razão mantém-se. Eu aponto cinco ou seis capazes disso. E destes, alguns até estão nestes cartéis…vocês próprios nas críticas e crónicas dizem que beltrano esteve enorme num toiro e depois no segundo não esteve tão bem ou porque o toiro não serviu… Mas a culpa é sempre do toiro! E o Campo Pequeno deve ser respeitado. Mas também lhe digo que todos, ou quase todos, os que estão de fora dos cartéis foram contactados e por algumas razões, umas que compreendemos outras não, mas não se chegou a acordo. Para o ano logo se vê. Mas temos um lote de cavaleiros de grande nível em todas as corridas. Disso pode ter a certeza. E temos de agradecer aos que estão e defendê-los porque se colocaram à disposição de uma forma em que provaram que apoiam o Campo Pequeno.


As cortesias em noite de casa cheia. Foto: Naturales/DR


"Haverá um 'Troféu Manuel Trindade' que fica instituído para sempre...mas aproveitar a infelicidade que aconteceu para mobilizar pessoas não faz parte dos nossos genes"


Naturales: A ausência dos Forcados Amadores de São Manços no abono lisboeta também gerou alguma discussão, sobretudo nas redes sociais, tendo em conta a ligação emocional criada após a morte de Manuel Trindade, na sequência da colhida sofrida no Campo Pequeno na temporada passada. Como foi tomada essa decisão? Houve contactos com o Grupo?

LMP: O Grupo de S. Manços merece todo o respeito e veio o ano passado. Não quisemos fazer nenhuma homenagem ao Manuel Trindade e expliquei bem ao Cabo João Fortunato que não queria ser acusado de aproveitamento da morte de alguém para trazer gente à praça. Por isso não vieram. E haverá um Troféu Manuel Trindade que fica instituído para sempre com o nome do Manuel. Agora aproveitar a infelicidade que aconteceu para mobilizar pessoas não faz parte dos nossos genes. E digo-lhe que da parte do Grupo e do seu Cabo foram exemplares!


Naturales: Esta será mais uma temporada em parceria com José Maria Charraz. Como se complementam enquanto empresários?

LMP: Sim, acho que na troca de ideias existe um complemento…

 

Naturales:  Mas considera que esta parceria veio trazer maior estabilidade ao projeto do Campo Pequeno?

LMP: A estabilidade vem com os êxitos. E no ano passado, tirando o caso fatal do Manuel, a temporada foi muito positiva. Tivemos êxitos inolvidáveis, pelo menos para mim e para o público, com os Caetanos, Telles, Ventura, Hermoso de Mendoza, Palha, Roca Rey entre outros. Acho que mal, mal, ninguém esteve.


Naturales: Em épocas anteriores trabalhou com outros sócios. O que aprendeu dessas experiências?

LMP: Todos os anos aprendo e todos aprendemos uns com os outros.


Naturales:  O contrato que mantém com a Administração do Campo Pequeno permite-lhe trabalhar com tranquilidade e pensar o projeto a médio prazo ou contínua a existir alguma incerteza quanto ao futuro?

LMP: Há sempre é a certeza de que ninguém da parte da proprietária da praça quer acabar com os toiros no Campo Pequeno. E assim continuará. Eu trabalho sempre com tranquilidade com a Administração mesmo quando haja quem, de fora, queira destabilizar. Mas isso é o normal da nossa Festa. Incerteza naquela casa não há. Pode haver é na Festa em geral e nas atitudes que tomam por aí e que prejudicam todos. Não me incluo nesse lote e por isso estarei sempre tranquilo.


Naturales: E que feedback tem recebido da Administração do Campo Pequeno relativamente ao trabalho desenvolvido pela Ovação e Palmas nestes últimos anos?

LMP: Até agora mantiveram a confiança e sabem que sempre farei tudo para defender aquela casa e quem lá trabalha permanentemente. Não se esqueça quanto foi a insolvência e quanto custou e custa manter aquela casa. Deveria haver mais respeito! Hoje sei muito mais sobre o tema que há uns anos.


Naturales: Mas o que ainda falta fazer para que Lisboa volte a ter uma temporada mais extensa? É possível voltarmos a ter mais de quatro corridas no Campo Pequeno?

LMP: Tenho esperança que sim! Nunca de dez ou doze corridas porque isso é passado. Não há condições para tal mas penso que para cinco ou seis desde que em meses diferentes, sim. Mas desde que se fizeram as obras de remodelação que a casa passou a ser para todo o tipo de espetáculos. Veja a quantidade de concertos que há, reuniões empresariais e muitas coisas que pagam a mesma renda que eu pago, e alguns mais, porque estão três e quatro dias com eventos... Quem ficou com a praça é só um dos maiores promotores de Concertos da Europa e como tal é essa a sua função principal. Mas tem respeitado sempre a nossa causa.


Praça de Toiros do Campo Pequeno com anúncio na fachada de lotação esgotada - Foto: Naturales/DR


"Alguns façam uma introspeção e pensem que o Campo Pequeno é para manter e não para irem “arrebanhar” o dinheiro!"


Naturales: Continua a considerar que o Campo Pequeno é a grande montra da tauromaquia portuguesa? Que responsabilidade isso representa para quem o gere?

LMP: Sem dúvida que sim! E você ao perguntar-me isso também acha, se não, não me fazia essa pergunta. Sendo assim porque é que não se podem mostrar na montra todos os cavaleiros que lá temos este ano? Têm de ser sempre os mesmos? E casas cheias? E Figuras? A responsabilidade de quem gere é muito maior do que quem crítica. Porque quem fica mal, se não corre bem, é quem gere. Por isso, se apostámos na diversificação é exatamente para ver se saímos do lugar-comum. E temos jovens alternando com consagrados ou com os de mais anos de alternativa. Digam-me, desses cartéis quais é que tiravam? E os porquês de os tirar…. Criticar é fácil! Arriscar do nosso é muito mais difícil…E mais não digo.


Naturales: Olhando para a realidade actual, sente que hoje é mais difícil ser empresário taurino do que era há dez ou vinte anos? Quais são, na sua opinião, os maiores desafios da atividade?

LMP: Muito mais! Em 1989 iniciei na Barquinha. Não tem nada a ver… São realidades completamente distintas. A sociedade evoluiu e as alternativas são mais que muitas. Antigamente a Corrida de Toiros era o corolário das Festas das vilas e cidades. Hoje são o patinho feio. Porque o lobby anti touradas é organizado e nós andamos às turras uns com os outros, olhando para os umbigos e com uma vaidade enorme, e sede de protagonismo que chega a roçar o ridículo. Hoje uma corrida de toiros custa muito mais do que antigamente. Hoje tudo é muito mais caro. Não tem comparação. Os desafios maiores são manter a actividade! Lançar novos toureiros, dar-lhes oportunidades na principal montra do país. Reconhecer que não podem ser sempre os mesmos e que com quatro corridas não se podem levar todos. E que alguns façam uma introspeção e pensem que o Campo Pequeno é para manter e não para irem “arrebanhar” o dinheiro. Mas nós também erramos, eu não fujo a responsabilidades…. Mas há muitos desafios, como o encurtar o tempo das corridas, as voltas serem dadas apenas quando merecidas, mudanças no RET que estão mal, haver uma união da classe empresarial, os aumentos constantes que as empresas têm de pagar às associações. Há tanta coisa a fazer….

 

Naturales: E quando terminar a temporada de 2026, o que terá de acontecer para que a considere um verdadeiro sucesso?

LMP: O ideal seria ter as quatro corridas esgotadas! Mas aponto para três e uma de casa cheia... Vamos ver.


 

Os quatro cartéis que compõem o abono lisboeta 2026

 



Texto: Patrícia Sardinha
08/07/2026



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