Crónica Colete Encarnado: "Salgueiro resistiu ao tempo"

NATURALES
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Há festas que se organizam. E depois há festas que simplesmente acontecem.

O Colete Encarnado pertence a esta última categoria. Mais do que uma sucessão de eventos — entre esperas, largadas, concertos, exposições, homenagens e espectáculos tauromáquicos — é, acima de tudo, um estado de espírito que, durante três dias, transforma Vila Franca de Xira na capital de uma identidade que resiste ao tempo.

Também assim se pode definir o cavaleiro João Salgueiro: resistente ao tempo. Mas também não se esperaria outra coisa de quem soma já trinta e oito anos de alternativa, marcados por interrupções e regressos que sempre alimentaram a expectativa dos aficionados. Depois de ter suspendido a carreira em 2014 e regressado em 2016, voltou a anunciar a despedida em 2023 para, agora em 2026, voltar a vestir a casaca.

Era, por isso, sobre João Salgueiro que recaía boa parte da curiosidade dos que encheram a Palha Blanco. Como regressaria o "génio", um toureiro que ao longo da carreira sempre habituou o público a actuar nos extremos do tudo ou nada. E, assim foi também este seu regresso...

Na primeira lide sobraram as passagens em falso e os ferros falhados, perante um toiro manso e reservado. Ainda assim, luziu por dispensar a presença de bandarilheiros na arena, chamando a atenção para a importância da brega, tantas vezes esquecida nos tempos actuais e quando se fala de toureio a cavalo.

Foi, porém, na lide do quarto da ordem, um toiro com outras condições e que recebeu com boa brega, que Salgueiro empolgou. Depois de dois compridos irregulares, foi nos curtos e montando um cavalo filho da emblemática ‘Nátia’ que muito se destacou na sua quadra, que o cavaleiro de Valada do Ribatejo se arrimou e revelou estar a par das modas da actualidade, com cites de praça a praça, partindo ao toiro, esperando a meia praça, para depois avançar, fazer a batida e cravar três ferros que motivaram as bancadas. E a mais não se esticou, deixando a actuação por aí mesmo, pese embora o público exigir mais um ferro, terminando no momento em que considerou ter dito o suficiente.

João Moura Jr. não se intimidou com a fama de uma 'exigente' Vila Franca e demonstrou muita segurança, confirmando o momento consistente que atravessa com duas actuações muito similares de conteúdo. Iniciou a lide do primeiro com um ferro comprido em sorte gaiola, para depois incidir nos cites de praça a praça, encurtar as distâncias perante o toiro parado, impactar com os quiebros e deixar dessa forma a ferragem da ordem. Voltou a passar a papel químico a sua segunda lide, assente num conceito pré-definido mas eficaz, perante um toiro que se arrancou várias vezes ao cite e que se revelou o melhor da corrida, sendo autorizada volta ao ruedo à rês por parte da direcção do festejo.


Tarde de êxito também para os forcados Amadores de Vila Franca com quatro boas pegas, todas ao primeiro intento. Guilherme Dotti iniciou funções com uma rija pega de caras, fechando-se com decisão e com o grupo a efectivar com coesão; Miguel Faria fechou-se à córnea e concretizou também ele uma boa pega; a terceira pega da tarde esteve a cabo de Rodrigo Andrade que efectivou bem e com destacada intervenção do primeiro ajuda Diogo Duarte; e Rodrigo Camilo encerrou com chave de ouro uma tarde de mérito dos vilafranquenses.


A pé, uma das figuras do momento, o espanhol Borja Jiménez, que em Vila Franca reforçou os predicados de um toureiro de entrega, firme e poderoso. Frente ao primeiro do seu lote teve de ajustar a mão baixa para que o toiro não perdesse as mãos, e ir ligando as tandas perante um toiro que não teve larga investida. Desfrutou mais perante o último da tarde, com o qual se evidenciou artista de capote. O toiro teve melhores condições pela direita, e Borja deixou-o passar perto da taleguilla, baixando a mão e rematando os muletazos atrás das costas. Um toureiro que claramente agrada à afición portuguesa. Destacados ainda os pares de bandarilhas executados em ambas as funções, entre eles por um português, João Ferreira.


Lidaram-se toiros de Condessa do Sobral bem-apresentados no geral e que em comportamento não impingiram dificuldades de maior, sendo nobre o quarto e com mais transmissão o quinto.


Dirigiu a corrida Ruben Fragoso com assessoria do veterinário João Candeias numa tarde que decorreu com ritmo e que contou com cerca de três quartos de casa de casa de lotação, numa aposta ganha pela empresa gestora, que montou um cartel atractivo e de expectativa.

 








Patrícia Sardinha
06/07/2026





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