Se a mão de Deus toureasse, provavelmente seria muito parecida com o que vemos pela mão de Morante de la Puebla.
Não pela perfeição, porque essa não existe no toureio, felizmente, pois é precisamente a imperfeição que faz da Tauromaquia uma arte tão singular. E muito menos por qualquer tentativa de endeusamento, pois se há coisa que sempre me fez espécie, é a redoma onde, tantas vezes, se colocam determinados toureiros, ganadarias ou grupos de forcados...
Mas porque há momentos em que o toureio de Morante se transfigura, deixa de ser apenas 'carne' para ser 'espírito'. Há um instante em que tudo parece suspenso, em que um simples lance de capote consegue parar o tempo. Morante é até capaz de provocar Olés quando aparentemente nada faz. Capaz de transformar um gesto simples numa manifestação artística impossível de explicar. E isso não se aprende, não se treina, não se fabrica. Ou se tem... ou nunca se terá.
Foi precisamente esse fenómeno que Lisboa recebeu ontem, na corrida que inaugurou a Temporada de Abono do Campo Pequeno, e que a fez esgotar quatro dias antes...
Pelo que, ambiente (excessivamente) festivo não faltou e em consequência, um espectáculo que por norma se rege pela imprevisibilidade, acabou por confirmar aquilo que todos antecipavam desde o anúncio do cartel: Morante de la Puebla sairia em ombros pela Porta Grande.
Antes disso, e na parte equestre, António Telles abriu com chave de ouro a corrida. Aproveitou as boas condições do oponente que se arrancava ao cite, para ser autor de uma actuação em crescendo, com destaque para o segundo e terceiro curto, e com a maestria que lhe é apanágio. O rejoneador Fermin Bohorquez, afastado das lides, viu-se 'encantado' por poder desfrutar novamente do toureio e andou com desenvoltura, mas num registo em que nem sempre as sortes e os ferros resultaram ajustados. Terminou função com dois pares de bandarilhas, e ainda quis deixar um terceiro, não consentido pelo público.
Nas pegas, noite de valentia para os Amadores de Santarém. O cabo, Francisco Graciosa, reuniu com um piton nos meios da perna, emendou na viagem e com ajuda efectiva do Grupo, aguentou o impacto nas tábuas consumando assim uma boa pega à primeira. Salvador Ribeiro de Almeida viu o toiro despejá-lo da cara num primeiro intento. Não desarmou e esteve enorme na segunda tentativa. Fechou-se à córnea e aguentou os derrotes do toiro novamente para o tirar, mas o forcado aguentou-se e foi autor de uma enorme pega.
Os toiros de Murteira Grave lidados a cavalo serviram com codícia, sendo ambos de bom comportamento em praça, e entendeu a delegada técnica brindar o ganadero com volta ao ruedo após lide do segundo.
Mas a noite era de Morante...
O espanhol desfrutou de um público totalmente rendido e de dois toiros de Álvaro Núñez, mansos e a escassear em apresentação para a figura e para a praça e critério que se exige no Campo Pequeno, sem cara, afeitados, mas que serviram para o toureio e para o toureiro, que certamente os terá elegido. Frente ao seu primeiro, e com a muleta, a rês serviu muito melhor pela direita onde as tandas tiveram classe e muita profundidade, enquanto pela esquerda não logrou tanta ligação, com o toiro a descair para tábuas. Frente ao seu segundo, voltou a estar superior de capote e, rendido a um público que o rejubilava, quis bandarilhar, mas nesse tércio não foi totalmente feliz. Na muleta voltou a desfrutar, iniciando de joelhos a função que foi evoluindo com os olés sucessivos da bancada e com naturais que ainda agora perduram. No final da faena, e após a primeira volta, exigiu o público uma segunda, Morante ainda a começou, mas não a concretizou, e acabou por agradecer apenas do centro do ruedo. E à semelhança do vem acontecendo por outras praças onde toureia, foi no final da corria sacado em ombros na arena, levado pela Porta Grande até ao exterior da praça onde já o aguardava a sua carrinha de quadrilhas. Um fenómeno!
Tomás Bastos esteve em Lisboa a poucos dias da alternativa e despediu-se nessa noite da condição de novilheiro. E nem sempre a constância fez parte das suas duas faenas. Lidou dois novilhos de La Cercada em substituição dos anunciados El Freixo – desconhecem-se as razões da troca -, e Bastos nunca pôde andar confiado com ambos. Frente ao primeiro ainda sofreu voltareta após bonito início de função com o capote. Na muleta, a espaços logrou bons apontamentos. Com o que fechou a corrida, tudo apontava a uma faena de triunfo. Voltou a ser vistoso de capote, e eficiente com os três pares de bandarilhas que o próprio cumpriu, mas na muleta consentiu alguns desarmes. Ainda cresceu e ganhou domínio do toiro, galvanizando as bancadas, para depois ao prolongar em demasiado a faena e acabar novamente por ir a menos.
A corrida foi dirigida por Lara Gregório de Oliveira e houve ainda espaço no inicio para António Catalão Labreca, músico e compositor da Banda do Samouco que abrilhantou o espectáculo, entregar a Morante de la Puebla a partitura com um novo pasodoble que lhe dedicou.
Há a Mão de Fátima, símbolo de protecção. Houve a "Mão de Deus" de Maradona, que entrou para a História do futebol. E há, atrevo-me a dizê-lo, a mão de Morante de la Puebla. Não porque seja divina, nem porque o seu toureio seja perfeito. Mas porque, quando pega num capote, consegue lembrar-nos que a Tauromaquia, antes de ser uma sucessão de técnicas e sortes, de regras,de triunfos e petardos, continua a ser uma forma de Arte. E a Arte, felizmente, nunca se explica por inteiro. Apenas se sente.
Patrícia Sardinha
17/07/2026