Há exactamente vinte e cinco anos nascia o Naturales.
Nascia sem imaginar o futuro. Como tantos outros projectos, surgiu para responder a uma necessidade muito concreta, colmatar as ausências do primeiro site taurino em português, o Tauromaquia Portuguesa Online, por motivos de saúde do seu director.
Num tempo em que a informação taurina não circulava à velocidade de hoje, um pequeno jornal em PDF que era enviado por email aos leitores subscritos, bastava na altura para aproximar os aficionados da actualidade da Festa Brava.
Acredito que há vinte e cinco anos ninguém imaginava que aquele projecto chegaria até aqui.
Eu, que não o criei mas dele faço parte desde o seu início em 2001, também não.
Quando comecei a colaborar com o Naturales nunca pensei que um dia lhe dedicaria uma parte tão significativa da minha vida. Muito menos imaginei que, anos mais tarde, a 1 de Junho de 2010, assumiria a sua direcção. E passado tantos anos, não tenho dúvidas de que "mãe é quem cria..." e, por isso, sinto o atrevimento de dizer que o Naturales é muito meu!
A verdade é que o Naturales para mim nunca foi apenas um site: Foi crescendo comigo. E eu fui crescendo com ele.
Nestes vinte e cinco anos, vi mudar quase tudo.
Mudaram as praças. Mudaram os protagonistas. Mudou a forma de comunicar. Mudaram os leitores. Mudou o Mundo! Também a Tauromaquia mudou...
Quando o Naturales nasceu não existiam redes sociais. Não existiam vídeos em directo feitos a partir de um telemóvel. Não existia a necessidade de publicar tudo no minuto seguinte...
Hoje vivemos numa época em que qualquer pessoa comunica. Nunca houve tanta opinião. Nunca houve tanta facilidade. Nunca houve tanto ruído... E, paradoxalmente, nunca foi tão difícil encontrar tempo para pensar. Pois por vezes tenho a sensação de que se tornou mais fácil celebrar do que analisar. Mais fácil aplaudir do que reflectir. Mais fácil seguir a corrente do que dizer aquilo que realmente se pensa.
Vivemos tempos em que quase todos triunfam. Mesmo quando sabemos que não triunfam...
Tempos em que a crítica séria é confundida com má vontade e em que a exigência parece ter deixado de ser uma forma de respeitar a Festa.
Eu continuo a acreditar exactamente no contrário.
Foi essa forma de estar que procurei 'colar' ao Naturales.
Nunca escrevi para colecionar aplausos nem procurar os 'gostos' tão em voga nas redes sociais. Nunca procurei escrever aquilo que as pessoas queriam ler. Procurei apenas escrever aquilo em que acreditava.
No entanto, ao longo destes vinte e cinco anos, houve muitas ocasiões em que o Naturales poderia ter terminado.
Poderia ter acabado porque, com o passar dos anos, fui percebendo que é cada vez mais difícil encontrar quem queira escrever por paixão, com independência e sentido crítico. Quem esteja disponível para servir um projecto, sem procurar servir-se dele.
E houve momentos em que parecia
impossível conseguir conciliar tudo e houve outros em que senti que remávamos
contra a maré.
Poderia ter acabado tantas vezes. Mas não acabou!
E não acabou por uma razão muito simples.
Porque, sem me aperceber, o Naturales deixou de ser apenas
um órgão de comunicação taurino.
Passou a ser uma responsabilidade. Uma forma de estar na Tauromaquia. Um compromisso com os leitores e com a própria Festa.
Hoje, quando olho para trás, percebo que o maior património
destes vinte e cinco anos não está no número de notícias publicadas, nas
entrevistas realizadas ou nas crónicas escritas.
Está na confiança.
Na confiança dos leitores que nos acompanham. Na confiança de quem aceita falar connosco. Na confiança de quem sabe que pode concordar ou discordar daquilo que escrevemos, mas encontrará sempre honestidade, independência e respeito pela verdade do que se passa na arena.
Naturalmente, este percurso nunca foi feito sozinha. Foram muitos os colaboradores, cronistas e fotógrafos que passaram pelo Naturales e que deixaram a sua marca na nossa história e a todos lhes devo um sincero agradecimento.
Mas se há alguém a quem devo verdadeiramente estes vinte e cinco anos é aos leitores, aos aficionados. Àqueles que continuam a acreditar que a Tauromaquia merece uma informação séria, livre e independente. São eles que continuam a dar sentido a tudo isto.
Não sei quanto tempo mais conseguirei fazê-lo. Seria desonesto escrever que sei.
Mas enquanto sentir que o Naturales continua a ser útil à Festa… Enquanto sentir que ainda há corridas que merecem ser contadas… Enquanto acreditar que escrever com independência continua a fazer sentido… Continuarei aqui... Porque nunca soube fazer isto de outra maneira. Com verdade. Com paixão. E com a mesma convicção com que, há vinte e cinco anos, começou esta história.
E se daqui a muitos anos alguém me perguntar do que mais me orgulho, provavelmente não responderei com uma entrevista, uma crónica ou uma notícia...
Responderei apenas isto: De nunca ter deixado morrer o Naturales.
Daqui a muitos anos, talvez poucos se recordem de como nasceu o Naturales. E isso não me incomoda. Porque, mais importante do que a forma como um projecto começa, é a forma como resiste.
E porque os vinte e cinco anos do Naturales não são a história de um dia. São a história de milhares de dias... E essa é, talvez, a maior conquista de todas...
Patrícia Sardinha
25/07/2026