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| Simão Rouxinol num bom momento do seu debute em público. Foto: Pedro Batalha |
A expectativa esteve no ar toda a tarde. O calor também! No Alentejo profundo, estas alturas do ano trazem temperaturas próximas dos 40 graus, muitas vezes mais altas do que a anunciada previsão da televisão e dos sites meteorológicos. Ainda assim, a bonita e cuidada Praça de Toiros “José Mestre Batista” em Reguengos de Monsaraz, encheu de gente motivada pelo interessante cartel montado por ocasião das Festas em Honra do Santo António e que reuniu duas das famílias mais acarinhadas pelos aficionados portugueses: os Telles e os Rouxinóis.
A corrida foi longa, isso foi! Entrámos na praça a horas de lanche e saímos de lá quase a horas de deitar… Foram três horas e meia de espectáculo e de (muito) pó… (a cuidar de futuro esse pormenor!).
Mas “tudo o que é bom demora”, e ainda que carecendo de perfeição, foi um espectáculo em que as emoções e a expectativa estiveram constantemente em praça, e raros foram os que se aborreceram nas bancadas, com um ambiente extraordinário de gente que apoiou todos os intervenientes: cavaleiros e forcados.
E é isso que também nos apaixona na Tauromaquia: o imprevisível, o apoio, o incentivo…
Pois que ao Simão Vicente “Rouxinol” não faltou apoio do início ao fim da corrida e possivelmente foi dele que todos falavam após o festejo. O jovem cavaleiro amador, que depois de andar entretido com o futebol, entendeu há dois anos que afinal queria seguir o caminho do pai e do irmão nas arenas, fez ontem a sua estreia em praça com o maior dos sucessos!
Desembaraçado, com bons modos a montar e correcto no momento do ferro, Simão cravou com acerto e com um sentido de lide que lhe parecia inato, e o seu desempenho levantou as bancadas. Foi emocionante ver como após tentar cravar o primeiro comprido, e o falhar, o público reagiu com uma grande ovação de incentivo. A partir daí, Simão retribuiu com uma lide de muita qualidade para quem é um estreante. Quem olhava para as trincheiras e reparava no pai e no irmão de semblante apreensivo, cheios de cuidados e de conselhos, notava depois o contraste calmo no Simão, a parecer que nem precisava dos “professores”. E que apesar dos seus modos de rapaz tímido, revelou ser na arena muito metido com o público e sem qualquer pudor de se exibir. O novilho de Passanha que lidou, serviu para o debute, e Simão desfrutou e empolgou.
Da parte mais a sério, salienta-se o empenho e o mérito dos profissionais para colmatarem as carências dos oponentes, tendo sido Rouxinol Jr. o que mais se destacou com uma lide em que soube aproveitar a rês de melhores condições da tarde.
Lidaram-se toiros de Vale Sorraia que saíram bem apresentados, com cara, gordos e em tipo da ganadaria. Serviu melhor o lidado em terceiro lugar, todos os outros saíam a pedir contas mas cedo se revelavam mansos, a transmitirem pouco, reservados e aos arreões.
António Telles não foi feliz nos compridos para nos curtos evidenciar a sua maestria e que quem sabe, sabe, para resolver a papeleta, indo acima de um toiro parado e cravar com decisão a ferragem da ordem.
A Luís Rouxinol não lhe bastavam certamente os nervos de uma tarde de “prova” dos filhos, ainda levou com a fava da corrida. Um toiro áspero, aos arreões, uma rolha difícil de sacar. Andou esforçado e por cima do oponente mas sem brilhantismos. O público reconheceu ainda assim o mérito do cavaleiro de Pegões.
Rouxinol Jr. teve mais sorte no sorteio com o toiro que foi mais colaborador, a transmitir e com mobilidade. Andou sempre ligado com ele, e a curtas distâncias deu vantagens à rês que se arrancava, impactando no momento do ferro montando o Jamaica.
António Telles filho teve pela frente outra fava de Vale Sorraia. Um toiro que se enquerençava e distraído com sentido nas tábuas, pelo que o jovem cavaleiro resolveu quase sempre a sesgo a ferragem da ordem numa actuação também ela de esforço.
Nas actuações a duo, foram solventes os Telles frente ao sobrero, e mais coordenados e com mais sucesso artístico, os Rouxinóis.
E se nas lides equestres os toiros investiram pouco, nas pegas foram prontos de arrancadas e a condicionar os desempenhos dos Amadores de São Manços, Amadores do México e Amadores de Monsaraz.
Pelos Amadores de São Manços pegou Martim Moreno, que no seu intento o toiro rodou-o, caiu mal e teve de ser substituído. Foi dobrado por João Amador que consumou na sua primeira tentativa com decisão e mérito do primeiro ajuda; Rodrigo Grilo aguentou o forte derrote e efectivou à primeira com o grupo coeso a ajudar; Afonso Amador encabeçou uma pega de selecção dos três grupos em praça para pegar o novilho de Passanha. Mas este ensarilhou, caiu mal e também teve de ser dobrado por Manuel Valadas que consumou na sua primeira tentativa.
Pelos Amadores do México, Alejandro Batista efectivou à terceira com as ajudas carregadas e depois de dois intentos infrutíferos; e o cabo René Tirado consumou à primeira com o toiro a ir por direito e sem complicar.
Pelos Forcados de Monsaraz, pegou André Claudino bem ao segundo intento, depois de um primeiro precipitado; e Miguel Valadas à primeira, também com um toiro que se arrancou pronto e cuja reunião aconteceu quase nas tábuas.
Dirigiu a corrida sem problemas o delegado técnico, Domingos Jeremias, numa tarde que se iniciou com a inauguração dos renovados curros, uma homenagem póstuma a Manuel Trindade dos Amadores de São Manços, e ainda uma lembrança a Simão Rouxinol pela dia da sua apresentação.
Uma palavra à Reguengos Afición, que tão bem tem cuidado o tauródromo reguenguense e criado variados motivos de interesse ao redor dos espectáculos taurinos que monta, por forma a reaproximar os aficionados de Reguengos a uma praça tão carismática como a “Mestre Batista”. Isso também é criar afición…
Patrícia Sardinha
14/06/2026
