Naturales | 25 anos - 25 entrevistas com Ricardo Levesinho: "Decidimos que o projecto Tauroleve fará este ano o seu adeus"

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Surgiu há 20 anos e logo destacou no campo empresarial. A Tauroleve, empresa da família Levesinho, surgiu pela paixão à Tauromaquia mas principalmente por amor a uma Praça de Toiros e que sempre foi a sua 'menina dos olhos', a Palha Blanco. Inovaram, montaram cartéis únicos, estiveram na frente de outras praças como Coruche e Moita do Ribatejo... No entanto, quis o destino que não só 'altos' mas também 'baixos', marcassem o seu percurso empresarial. A cumprir duas décadas de existência, conversámos com o principal rosto da Tauroleve para um balanço e uma despedida... Ricardo Levesinho, um dos últimos empresários românticos da Festa Brava.




 Ricardo Levesinho: "A Palha Blanco será um amor que terei sempre na minha vida. Mas os amores às vezes existem à distância e a nossa relação será assim..."




Naturales: Estamos na semana em que se vive uma das datas mais tradicionais do calendário taurino português, a Feira de Maio na Moita do Ribatejo, onde a Tauroleve é a empresa gestora da praça de toiros. Que balanço faz deste percurso ao comando da conceituada “Daniel do Nascimento”?

Ricardo Levesinho: A Praça de Toiros 'Daniel do Nascimento' é uma das praças de maior responsabilidade não só de Portugal mas igualmente do mundo. Estar à sua altura exige muito e isso leva sempre as pessoas, incluindo nós próprios, a querermos mais e mais. Na nossa gestão, tivémos a presença de Morante de la Puebla, Diego Ventura, António Telles, Emílio de Justo, João Moura, Rui Fernandes, Juan Ortega, João Telles, João Moura Jr. e tantos outros, que claro nos deixa com o sabor de termos contribuído para momentos importantes na sua história. Para não falar das melhores ganadarias nacionais e da presença dos melhores grupos de forcados do país, salvo raras exceções, porque não é possível chegar a todos. Tentámos também sempre privilegiar os valores locais desde logo com a presença dos grupos de Forcados Amadores e do Aposento da Moita, bem como o matador de toiros Cuqui, que raras foram as atuações que teve em Portugal que não tivessem sido através das nossas organizações, não só na Moita como em outras praças que gerimos. Entendo que na globalidade fizemos bem o nosso trabalho porque a avaliação no seu todo creio que é um balanço que sentimos ser muito positivo pelo feedback que recebemos.


N: A Feira deste ano conta com a realização de uma novilhada popular a 23, sábado, e uma corrida de toiros no dia seguinte. A aposta nas novilhadas e nos jovens valores tem sempre feito parte das organizações Tauroleve. Considera que é uma das obrigações de qualquer empresário taurino promover os mais novos ou no vosso caso acontece mais pela imposição, possivelmente dos cadernos encargos, das praças que têm gerido?

RL: Não tenho dúvidas disso. Foi sempre algo que entendemos obrigatório. Mas lá está, se gerirmos com emoção somos atropelados pelo comboio das responsabilidades. Os outros espetáculos têm de conseguir fazer alavancar os custos das novilhadas, que só por si são deficitárias, porque as pessoas não têm o feliz hábito de acompanhar o aparecimento e desenvolvimento de jovens, o que é pena.


N: E em relação à corrida de toiros de dia 24, domingo, serão lidados toiros de Cunhal Patrício por três cavaleiros jovens, dos que têm dado cartas nas últimas temporadas, Moura Caetano, Miguel Moura e António Telles filho. Nas pegas os Amadores de Alcochete e Aposento da Moita. Qual a sua expectativa nesta corrida?

RL: Fomos atrás de um cartel onde se incluem os cavaleiros e os forcados, que nos desse garantias de compromisso por parte dos artistas, e não existe dúvidas que o elenco escolhido nos dá totalmente isso. Acresce um curro de toiros cheio de trapio, com uma apresentação irrepressível, que decerto ajudará o espetáculo a ter a emoção e a verdade que são a base da nossa festa.


N: E para a Feira Taurina em Setembro, outro dos pontos altos da temporada tauromáquica portuguesa, já têm alguma novidade que possam adiantar?

RL: Numa Praça de Toiros como a Daniel do Nascimento, a Feira de Setembro começa a escrever-se onze meses antes. Tem que ser assim de forma a conseguirmos levar para a frente muitas das ideias que temos e que acreditamos que são as melhores. Queremos ter espetáculos de grande aliciante, por isso temos já garantida a presença de Alejandro Talavante, e queremos que o Tomás Bastos aqui se apresente como matador de toiros ao seu lado. Queremos trazer igualmente os triunfadores da temporada e garantidas temos já ganadarias de enorme renome e isso faz-nos sentir satisfeitos.


 N:  Fala-se que têm tido algum apoio externo à Tauroleve na gestão da praça de toiros da Moita, respectivamente com ajuda por parte do empresário João José Carreira. Confirma? E, se sim, que papel tem tido na vossa gestão? Ele tem papel activo na montagem dos cartéis?

RL: O apoio não o considero externo porque o José João Carreira é detentor de metade da concessão da responsabilidade da Tauroleve na Moita. Faz parte integrante das decisões estratégicas e operacionais de todo o processo. É um parceiro que nós ganhámos e que se tornou um mentor e amigo.


Ricardo, Rui e o saudoso Augusto Levesinho em 'casa' na sua Palha Blanco. Fotografia: Emílio de Jesus/DR


N: Em 2024 decidiram renunciar ao ano que tinham ainda direito na Palha Blanco. Arrependido?

RL:  Não em absoluto. Normal fazerem-se conjeturas de um possível regresso, mas a história que ali desenhámos está feita e foi para nós um conto de fadas tornado realidade. Um sonho realizado com a ajuda de muitas pessoas que nunca esquecerei como foi o caso do Senhor Fernando Palha, do Senhor Provedor Carlos Dias, e de mesários reconhecidos pela sua verticalidade e valores humanos, que mais não são do que pessoas à antiga que falam de frente, que nos ajudaram a crescer com transparência e sentido de respeito e encorajamento. Estarei eternamente agradecido a essas pessoas que nunca as esquecerei. E não podia esquecer-me de todas aquelas pessoas que na Palha Blanco colaboraram e ajudaram a manter a sua linda história na pessoa do Vitor Pantaleão.  


N: E não querendo ‘deitar achas’ a uma fogueira que já está apagada, mas agora que já passou tempo suficiente, sente que poderia ter resolvido a situação de outra forma sem a necessidade de cancelar a corrida mista de 6 de Outubro de 2024 em Vila Franca?

RL: Sem dúvida. Mesmo no momento, durante o período de dificuldade na gestão da situação, passaram-nos muitas ideias alternativas como possíveis, mas naquele momento não se concretizou pelo ambiente e enquadramento entre empresa e direção de corrida por um lado e os matadores de toiros por outro. Não tivémos a capacidade de desenrolar as dificuldades e eu tinha a obrigação de conseguir com base na defesa de algo superior que é a Palha Blanco. A responsabilidade é toda minha e por isso assumi desde logo que a minha saída teria de ser efetuada porque tinha de existir consequências. Eu não ganho nada em voltar a narrar ao pormenor o que aconteceu, os boicotes e pressões exteriores, a campanha orquestrada e paga para isso, e até as existentes motivações para nós sairmos. E sabe porque não ganho? Porque não contribuiria em nada para uma Tauromaquia que adoro, para uma terra de idolatro e para uma praça com que sempre sonhei. Tenho para mim, que o que se falou está falado, e acabou. Internamente deveria ser falado e discutido para não voltar a acontecer, mas como não se fala, existe tendência a voltar a acontecer e infelizmente aconteceu logo na primeira corrida do ano seguinte já com uma nova gestão. E aí nós já não estávamos… 


N: De certa forma considera que houve alguma injustiça pelo que nalguns sítios, e redes sociais, se disse e escreveu na altura sobre a Tauroleve e o seu trabalho em Vila Franca de Xira, sem se ter em conta o muito que a vossa empresa também fez de bem na Palha Blanco? Há memória curta na Tauromaquia?

RL: Sinto que não me cabe a mim manifestar essa opinião. Mas ninguém me fará esquecer a honra que foi estar envolvido em acontecimentos que ficarão na história da Palha Blanco. Patrícia, de 2008 a 2014 e depois de 2018 a 2024, foram 14 temporada, o que creio que faz de nós talvez a empresa com mais tempo de gestão. Momentos e actuações, de e para sempre, que nunca se esquecerão. Temos a honra de ter sido connosco que o Maestro Jose Júlio comemorou o 60º Aniversário de Alternativa toureando, da encerrona do grande Maestro António Ribeiro Telles, do mano a mano entre o António e a enorme Figura de sempre Diego Ventura, do mano a mano ganadero entre Miura e Palha, do mano a mano entre António e Salgueiro, da presença de Morante de la Puebla e Alejandro Talavante, e de tantos e tantos outros artistas e grandes triunfos que ali estiveram... E claro, do enorme orgulho que tivemos em acompanhar o desenvolvimento e idade do Tomás Bastos, de conseguir que se apresentasse na Palha Blanco em corridas fantásticas, e que ali tivesse tido o valor, a galhardia e a raça que o levassem a levantar aquelas bancadas. Lembrar de tudo isto faz-nos bem e sentir que todo o nosso sacrifício e equilíbrio pessoal teve algum sentido. Não todo, porque colocamos em causa o nosso bem mais precioso que é a nossa família e a sua paz, e isso para sempre me irei penitenciar.


N:  Desde então, não concorreram a outras praças, mantiveram a da Moita; ficaram sem os dois cavaleiros que apoderavam… Foi preciso ‘parar’ para ‘pensar’?

RL: Foi a estratégia definida. Estávamos num ponto em que se não abrandássemos cometeríamos um erro grave, o que iria ainda mais dificultar os caminhos que obrigatoriamente teríamos de fazer para recuperar. Nunca pensámos em desistir no imediato, o nosso foco foi fazer o melhor para recuperar o mais rápido possível, e assim corresponder aos nossos compromissos. Talvez fosse mais fácil desistir, mas nunca tivémos essa forma de pensar que acreditamos seria de enorme irresponsabilidade e uma autêntica traição aos valores que nos foram dados na nossa família. Quando sairmos será com a cabeça levantada.

 

N:  Existe a possibilidade da Palha Blanco continua a estar no horizonte da Tauroleve de futuro?

RL: A Palha Blanco para mim é demasiado emocional. Será um amor que terei sempre na minha vida. Mas os amores às vezes existem à distância e a nossa relação será assim...


N: Mas no final desta temporada também termina o contrato de adjudicação da praça da Moita com a Tauroleve. Tencionam concorrer novamente?

RL: Decidimos que o projecto Tauroleve fará este ano o seu adeus a algo que adoramos, que nos apaixona mas que entendemos que já não é o nosso mundo, porque eu especialmente, não tive a expertise de me adaptar e gerir determinados momentos e pessoas. Fui demasiado emocional e pouco racional em determinados momentos e decisões, e isso teve custos, não só materiais, mas que criaram mutas dificuldades... E não quero mais isso para nós e para os nossos parceiros. Continuamos este ano para manter e respeitar os nossos compromissos, e sair de cara lavada, com o espirito de missão cumprida e com orgulho. No entanto, tudo faremos para apoiar o nosso parceiro José João Carreira, que também tudo tem feito para que o seu caminho a favor da Festa seja bonito, e com a grandeza com que sempre se deverá defender a Tauromaquia na sua pretendida continuidade. É um moitense de corpo e alma, um grande aficionado e um homem cheio de carácter e valores humanos... será decerto uma grande ajuda para a festa.

 

N: Considera que de alguma forma ter sido empresário-apoderado também pode ter sido mais prejudicial que benéfico? Por norma quando um empresário apodera um artista, existe muita probabilidade de se cair no registo da troca de toureiros com outros apoderados-empresários nas respectivas praças…

RL: Ser apoderado, na minha forma de ver, não é ser comissionista. É de uma responsabilidade terrível porque estamos a gerir a carreira de um profissional que ao mesmo tempo é pai ou mãe de família, e isso é de um compromisso gigantesco, porque decisões tuas podem afetar positivamente ou negativamente a mesma. Serei sempre grato pela confiança que em mim tiveram quem me convidou e apoderei. Mas não querendo fugir a pergunta, seria hipócrita se dissesse que para a vertente empresa não traz consequências e isso normalmente não é positivo. Foi uma trajetória, mas felizmente sei fazer outras coisas e tento diversificar as minhas atividades, e assim consigo pensar e acreditar que a família é que deverá estar sempre em primeiro lugar e esse é que deverá ser sempre o meu foco porque o tempo passa demasiado rápido e se não o aproveitarmos perdemos o bom que a vida nos proporciona.

 

N: Para si, considera que existem mais amigos ou ‘falsos amigos’ dentro do mundo da festa brava?

RL: Fui um felizardo porque consegui conhecer pessoas de uma enorme grandeza moral e de uma componente humana fantástica, e espero que as mesmas possuam hoje e sempre, de mim ter uma ideia positiva mesmo com as minhas dificuldades e fracassos quando existiram. Queria tanto falar de algumas pessoas mas posso me esquecer de alguma e ficarei incomodado depois comigo próprio e não quero correr esse risco. Mas creio que as pessoas sabem o que sinto por elas... E tenha sido em Vila Franca, Coruche, Moita e outros lugares onde nos cruzámos, existiram seres humanos de uma enorme generosidade e aos quais sempre serei grato. Em relação se há amigos de verdade?... Existem poucos, mas enormes como disse. O resto é só o resto com a importância que quem lhes dá ou a que eles querem ou gostavam de ter. Mas isto é um reflexo da sociedade e sendo a tauromaquia uma sociedade fechada é normal que sejamos uma amostra mas que reflete os comportamentos no geral. 


O trio Levesinho que há 20 anos fundou a Tauroleve. Fotografia gentilmente cedida por RL/DR


N:  A Tauroleve cumpre este ano 20 anos desde a sua formação. Irão assinalar de alguma forma a efeméride com alguma iniciativa, ou até menção nalguma corrida que venham a organizar, a estas duas décadas ao serviço da Tauromaquia?

RL: Nada foi pensado a esse nível. O nosso objetivo é engradecer o melhor possível a Praça de Toiros Daniel do Nascimento. É essa a nossa missão e espírito de compromisso.

 

N:  E que balanço faz destas duas décadas de Tauroleve?

RL: Foi uma maratona com muitas montanhas para trepar, com chegadas a meta fabulosas, e outras onde tivemos de ser ajudados por anjos da guarda. Demasiado cansativo e penalizador especialmente para os que nos são mais próximos.  A parte mais importante, é a união familiar e os amigos de verdade que ganhámos, mesmo com tantas dificuldades que existiram. Uma família sempre unida e a lutar pelos mesmos objetivos. Foi um projecto muito difícil mas facilitado por ter ao meu lado pessoas como o meu irmão que é uma benção.

 

N: Por falar em família... no início deste ano, perderam de forma inesperada, o vosso ‘mentor’, integrante também da empresa Tauroleve, o vosso pai, Augusto Levesinho. Terem após a sua perda, mantido a vossa actividade empresarial neste sector, foi também uma forma de o continuarem a relembrar e homenagear?

RL: O nosso pai e nossa mãe serão sempre o nosso pilar emocional, o nosso pilar como homens e acima de tudo foram, e continuarão a ser, sempre os nossos heróis. Nunca na vida nos sentimos sós, fomos uns abençoados por os termos na nossa vida. Sempre estiveram ao nosso lado de mão dada e a força que temos tido para continuar, a eles se deve, bem como a esperança que cultivaram em nós.


 

Cartéis da Feira de Maio 2026 a acontecer a 23 e 24 deste mês na Moita



Texto: Patrícia Sardinha
19/05/2026




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