Pedro Maria Gomes: "Não é por falta de qualidade do Grupo de Lisboa que não temos mais corridas"

NATURALES
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Nasceu e cresceu numa família profundamente taurina, pelo que escolheu ser forcado desde cedo. No próximo dia 8 de Abril, cumpre dezasseis anos ao comando de um dos Grupos de Forcados de maior prestigio e História do nosso país. Já esteve entre a vida e a morte mas foi o pensar em voltar a pegar toiros que lhe deu forças para recuperar e regressar às arenas. Homem afável, calmo, de esmerada educação, tomou este ano a dificil decisão de passar o testemunho de cabo dos Amadores de Lisboa. Falamos de Pedro Maria Gomes.



"Tenho a máxima confiança no Duarte Mira para que me substitua e eleve ainda mais a história do Grupo"



NATURALES: Este ano será uma época especial para o Grupo de Forcados Amadores de Lisboa, e em concreto para si, pois fará a passagem de testemunho enquanto Cabo do Grupo. Dezasseis anos depois de ter assumido essa responsabilidade, será um alívio ou essa foi uma decisão difícil de tomar?
Pedro Maria Gomes: Depois de tantos anos ligado ao Grupo de forma activa, como Forcado e como Cabo, não foi fácil tomar esta decisão. Eu diria que é mesmo um misto de sentimentos, de orgulho, de responsabilidade, de esperança e de dever cumprido. Mas foi uma decisão consciente e muito ponderada, pois se a responsabilidade de ser Cabo é grande, o momento da mudança e a escolha do futuro Cabo também é de enorme responsabilidade. Para mim será muito especial e ainda que nem tenhamos começado a época, já estou com saudades... Para o Grupo será certamente muito especial, pois é um marco na nossa história a mudança de Cabo e essa Corrida será certamente o ponto alto da nossa temporada.

N.: Até porque, ao contrário do que acontece em muitos outros grupos, no Grupo de Lisboa os seus cabos têm tido muita ‘durabilidade’, pois em 82 anos de existência do Grupo, o Pedro foi o seu 3º cabo, sucedendo a seu pai (que esteve 18 anos ao comando do GFAL) e a Nuno Salvação Barreto (48 anos!). Porque é que acha que isso acontece no grupo de Lisboa, os cabos estarem ao comando do grupo tantos anos?
PMG: Essa característica não se verifica apenas ao nível dos cabos. No Grupo de Forcados Amadores de Lisboa também é comum os moços de forcado permanecerem muitos mais anos no ativo do que acontece em muitos dos outros grupos. Isso resulta, em grande medida, do conhecimento profundo que os Cabos anteriores tinham do toiro e do forcado enquanto individuo, e dessa forma sabiam gerir muito bem a “vida útil” de cada um dentro da arena. Essa gestão equilibrada, permite que os forcados tenham carreiras mais longas e consistentes. Relativamente à longevidade dos Cabos, diria que também é uma consequência natural da cultura do Grupo de Lisboa. Nunca foi algo imposto ou planeado dessa forma. Simplesmente, quando existe confiança no trabalho do Cabo e existe também estabilidade no Grupo, não há necessidade de mudanças frequentes. E na minha visão, ser Cabo é muito mais do que ser forcado, são papéis completamente diferentes. O forcado preocupa-se essencialmente com a sua função na arena, o Cabo tem de pensar no Grupo como um todo, na liderança, na gestão dos actuais e também dos antigos, na motivação e também na continuidade do grupo. Esta transição exige tempo de adaptação, tanto do Cabo como do próprio Grupo, e quando esse processo se consolida, cria-se naturalmente uma liderança duradoura. No caso do Grupo de Lisboa, creio que essa longevidade resulta sobretudo de três fatores: tradição, confiança e estabilidade.

N.: E que aprendizagem se leva destes 16 anos como cabo e de 29 enquanto forcado?
PMG: Eu comecei a acompanhar o Grupo ainda em criança, depois com 13 anos comecei a treinar e a ir a todas as corridas do Grupo, por isso privei com muitos Forcados e amigos do Grupo. Com esta idade, ainda nem adolescente era, mas com a educação que tive em casa e com todas estas vivências, consegui moldar a minha formação enquanto pessoa com valores e princípios que são transversais a qualquer ocasião e momento da minha vida. Enquanto Forcado aprendi o significado da verdadeira amizade, da integridade, do respeito e da resiliência. A minha preocupação e motivação sempre foi dar tudo pelo Grupo para que saísse sempre por cima. Talvez por isso, depois como Cabo, tentei sempre passar a todos que não existem estrelas, a única estrela é o Grupo. Sempre disse preferia um Forcado menos bom, mas que fosse uma excelente pessoa, do que um excelente Forcado, mas uma pessoa que não se enquadrasse nos valores do Grupo.



"Naquele mês em que estive hospitalizado, foi o pensamento de regressar que me deu forças para recuperar"


N.: Leva consigo mais recordações boas ou das menos boas?
PMG: Tive a sorte e o privilégio de representar o Grupo em Macau, Estados Unidos da América, França, Espanha, México e de Norte a Sul de Portugal, incluindo Açores, e em todas estas viagens e corridas ficaram recordações boas e outras menos boas, mas são as boas que destacamos e recordamos com nostalgia. Mas relativamente às menos boas, à medida que fui tendo mais experiência, fui relativizando essas situações, tentando tirar sempre algo de positivo ou como forma de aprendizagem, e felizmente foram sempre superadas com o apoio de todos, e com a amizade.

N.: Uma dessas recordações menos boas, será certamente o dia 19 de Junho de 2003, na corrida da Malveira, em que devido a uma grave colhida ficou entre a vida e a morte... Foi um momento que prefere não recordar ou, passado tanto tempo, consegue ver isso como uma ‘medalha’ que faz parte deste processo de ser forcado?
PMG: Sempre vi como uma "medalha", nunca tive problemas em falar desse dia, é algo que falo com normalidade. Infelizmente as lesões fazem parte do processo de ser Forcado e, felizmente que nem todas são como as que tive nesse dia. É importante termos a consciência de que é uma actividade com muitos riscos e que por isso todos temos que dar o máximo na arena, mesmo sabendo que, infelizmente, nem sempre chega para evitar lesões. Temos que ser fortes psicologicamente e ter o apoio de todos para superar esta lesões. Felizmente foi o que me aconteceu e felizmente também, consegui continuar a carreira de Forcado.

N.: Mas alguma vez pensou em desistir, fosse como forcado ou mesmo como cabo?
PMG: Na altura do acidente, e nos anos seguintes em que tinha consultas de acompanhamento, a equipa de médicos sempre disse que voltar a pegar seria impensável dado o risco que corria e também em casa, como é normal, não havia dúvidas que não voltaria a pegar. No entanto, naquele mês em que estive hospitalizado, foi o pensamento de regressar que me deu forças para recuperar, por isso nunca pensei em desistir. Essa é outra das diferenças, um Cabo nunca pode pensar em desistir e como referi atrás, a responsabilidade é outra, por isso quando pensei em sair, tive de pensar mais no Grupo do que em mim, enquanto se fosse somente Forcado, pensaria obviamente só em mim.



"Existem Cabos que infelizmente são levados a ser também bilheteiros, organizadores de excursões, montadores de praças, angariadores de patrocínios e outros atributos que no meu entender nada têm a ver com a função de Cabo."


N.: No seu entendimento, e experiência, que características tem de ter um cabo para conseguir manter um grupo de forcados?
PMG: Na minha forma de ver, e pelo exemplo que tive no Grupo, um Cabo deve ser um líder, ter conhecimento do Toiro, conhecimento de gestão de recursos humanos, capacidade de decisão, sentido de responsabilidade e acima de tudo, ser um exemplo de valores para o Grupo. Deve também criar um ambiente em que os actuais respeitem e tenham o orgulho no Grupo e por todos os que contribuíram para a sua história. Felizmente conheci e conheço, ainda na actualidade, alguns Cabos com estas características, mas existem outros que infelizmente são levados a ser também bilheteiros, organizadores de excursões, montadores de praças, angariadores de patrocínios e outros atributos que no meu entender nada têm a ver com a função de Cabo.

N.: E o seu sucessor, Duarte Mira, tem esse perfil? 
PMG: O Duarte Mira veio para o Grupo era ainda muito novo, cresceu e moldou-se com os valores e princípios do Grupo, além disso, pela sua forma de ser, sempre foi dos que preferiu ouvir e assimilar o que lhe era transmitido pelos mais velhos. Desde há alguns anos que, dada a sua maturidade como pessoa e forcado, começou a demonstrar as características que referi em cima. Além disso, eu defino o Duarte como uma pessoa calma, ponderada, gosta de analisar perfis, bem formado e que se sabe dar ao respeito, por isso tenho a máxima confiança para que me substitua e eleve ainda mais a história do Grupo.

N.:Que mudanças sentiu, ao longo destes 16 anos, internamente no GFAL? Continua a ser fácil manter e cativar novos elementos?
PMG: O que sinto hoje em dia quando aparecem jovens, e mesmo depois de já terem alguns anos de Grupo, é que é mais difícil passar o sentido de responsabilidade e de comprometimento. A sociedade mudou, alguns valores foram colocados para 2º plano e os jovens têm outras distrações que não os obriga a fazerem sacrifícios e a serem resilientes. A minha forma de ser hoje em dia, é diferente da que era há 16 anos, muito por fruto da experiência, mas também da adaptação a esta nova geração. Se não nos soubermos adaptar aos dia de hoje, claro que sem perdermos os princípios e valores, será muito mais difícil captar e manter jovens neste mundo.

N.: E com quantos elementos contam os Amadores de Lisboa actualmente?
PMG:
Actualmente o Grupo é constituído por 30 elementos, entre experientes e novos valores.




N.: O Grupo de Forcados Amadores de Lisboa tem larga história, sendo um dos grupos referências em Portugal, mas nas últimas temporadas não têm tido uma agenda muito cheia...
PMG: É um facto sim, no entanto e como se pode ver corrida a corrida, não é por falta de qualidade do Grupo que não temos mais corridas. Como já referi, hoje existem manobras para entrar nas corridas e acções que vão muito mais além do que entendo que deve ser um trabalho de um Cabo.

N.: Há quem reclame que o facto de actualmente a maioria dos empresários que gerem as praças de toiros serem antigos forcados, não tem beneficiado por exemplo, o toureio a pé e os festejos mistos. Será que também, essa situação do empresário 'antigo forcado', não tem beneficiado certos Grupos de Forcados?
PMG: O que tem beneficiado certos Grupos é a garantia de venderem bilhetes e organizarem excursões de autocarros, pena que não se pode provar nada disto em Assembleia Geral, mas que existe, existe! Quanto aos empresários actuais serem antigos forcados, se não fossem estes quem organizaria espectáculos?! Estaríamos bem piores do que estamos. Quanto à falta de festejos mistos, eu sou a favor das corridas mistas e este ano todos os festivais têm que incluir toureio a pé. As corridas mistas têm os dois públicos e resultam na bilheteira, o que por vezes não corre bem são datas inventadas ou corridas mistas que estão mal montadas, mas isto também é o que acontece com as corridas à portuguesa.

N.: Mas voltando à vossa agenda... Mesmo em Lisboa, no Campo Pequeno, em que agora a temporada está infelizmente reduzida a 4 festejos por ano, o GFAL por norma pega numa das quatro corridas, quando noutras localidades os grupos da terra marcam presença praticamente em todas as corridas que são montadas nas praças locais. Na sua opinião, porque os Amadores de Lisboa não pegam mais na ‘sua terra’?
PMG: Essa é também uma razão pela qual não temos mais corridas. Além de pegarem em todas ou quase todas as datas das suas praças, até têm o poder de escolha de quem pega com eles, o que facilita depois para entrarem noutras corridas. Mas isto nem sempre foi assim, esses mesmos Grupos que hoje estão em todas as corridas nas suas praças, antigamente não estavam, entravam outros Grupos e eles ficavam na bancada a assistir, era perfeitamente normal, como hoje é normal entrarem em todas as corridas. A nossa situação no Campo Pequeno é particular, porque não somos tratados da mesma forma e a minha opinião é que podíamos até não pegar todas as corridas, mas termos a nossa data para pegar seis toiros e uma outra corrida, ou seja, olhar-se para a temporada e o Grupo de Lisboa ter um destaque diferente dos restantes Grupos.

N.: Mas estarão em Lisboa em 2026? Já têm esse compromisso para este ano?
PMG: Claro que sim e será na corrida de mudança de Cabo, em que pegaremos os seis toiros, mas aguardamos ainda a data por parte da empresa, sendo que a preferência é que seja em Setembro.

N.: Há pouco referiu as Assembleia Gerais... O que acha que ainda há a melhorar para o Forcado Amador em Portugal? A ANGF que vos representa funciona devidamente?
PMG: Desde que foi criada, penso que em 2001, as diversas direcções defenderam-nos externamente com tudo o que decidíamos em Assembleia Geral, foram acérrimos defensores do Forcado Amador. Quem começou a desrespeitar a nossa imagem foram os próprios Grupos e os seus Cabos que aceitam e propõe situações contrárias às que decidimos em Assembleia Geral. É um problema não só da ANGF, é mesmo de fundo, é uma alteração dos princípios e valores da nossa sociedade e por isso não é fácil de provar seja o que for, porque há demasiados interesses e protecção nestas situações.




N.: O Pedro é filho de forcado, irmão de forcado mas também de um matador de toiros, o Manuel Dias Gomes, e neto daquele que foi o primeiro novilheiro português, o saudoso Maestro Augusto Gomes Jr.. Nunca lhe passou pela cabeça, tal como ao seu irmão Manuel, ter seguido antes a vertente do toureio a pé?
PMG: O meu gosto sempre foi em ser Forcado, nunca tentei ou tive o sonho pelo toureio a pé, mas o meu Avô dizia que pela minha estatura e fisionomia, que tinha toda a figura para ser Matador de Toiros. O meu irmão Gonçalo no início também sonhou, até porque tinha uma grande ligação ao meu Avô, mas depois foi para o Grupo e ainda bem, pois foi um excelente Forcado.

N.: O Pedro tem filhos pequenos, incentiva o seu filho a que um dia siga os seus passos nos forcados? Poderemos vir a ter um novo ‘Gomes’ ao comando do GFAL?
PMG: O meu interesse é que eles sejam aficionados, que gostem e tenham orgulho na tradição familiar. Mas é claro que ia gostar que o meu filho fosse forcado, mas só se ele tiver gosto nisso, por isso que seja de uma forma natural. Quanto ao ser Cabo, não é pelo nome que tem, que deve ou não ser Cabo, tem de ser pelas suas características humanas e de liderança e claro, nomeado pelo restante Grupo.

N.: Já pensou como será o Pedro Maria Gomes depois de deixar o comando dos Amadores de Lisboa, e como será o GFAL depois de um cabo Pedro Maria Gomes?
PMG: Serei certamente um seguidor e apoiante do Grupo, em que poderão contar comigo para o que necessitarem. Tentarei sempre fazer criticas construtivas e lembrar-me que também estive no lugar deles e a forma como gostava que me dissessem as coisas. Relativamente ao Grupo sem mim, pelo que conheço do Duarte, continuará a não entrar em esquemas que manchem a nossa imagem e a nossa história. Internamente fará o seu caminho e terá de ser ajudado por todos para que o Grupo continue a ser o Grupo de Forcados Amadores de Lisboa.





Fotografias: DR/Arquivo/PMGomes

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