Vinte dias depois o sol apareceu
e a temporada tauromáquica portuguesa, finalmente, vingou. Mourão
conseguiu assim, mesmo adiando, manter a tradição de inaugurar a época em
Portugal com a realização do primeiro de dois festivais anunciados este ano e a
propósito das festividades em honra da Senhora das Candeias, já
decorridas no início do mês.
Mourão continua também a marcar a diferença, sendo um (bom) exemplo em todo o panorama taurino nacional,
pois deve ser das poucas praças e organizações (em boa hora o Dr. Joaquim
Grave assumiu essa responsabilidade há 12 anos), que mantém o bom gosto de
apoiar e fomentar verdadeiramente o toureio a pé, com festejos mistos
que não servem apenas para ‘parecer bem’ ou porque a isso estão ‘comprometidos’.
Em Mourão, dá-se lugar ao ‘apeado’ de forma equilibrada (e até em
superioridade), entre consagrados, nomes do momento e novos valores. E foi pelos
que estão a despontar que se realizou hoje este primeiro festejo, que teve uma
lotação de cerca de meia-casa forte (três quartos fracos consoante as
perspectivas…), entre locais e forasteiros para quem Mourão já é
obrigação no calendário taurino.
Mas a castiça e bonita Praça
de Toiros ‘Libânio Esquível’ teve ainda outro atrativo nesta tarde, pois a
dois meses de completar 104 anos, estreou curros, merecidos e devidos.
Lidaram-se novilhos de Falé
Filipe, todos com o algarismo 3 na espádua, à excepção do lidado em segundo
lugar, que levava o 4, nobres no geral e com condições para o toureio, sendo mais
pequenotes os de a pé, mas com apresentação q.b. para o tipo de festejo
e para a época do ano. Afinal, as abetardas em Janeiro é que têm tanta carne
como um carneiro... não, necessariamente, o gado bravo.
Nas lides a cavalo, dois jovens
promissores. Iniciou a cavaleira praticante Mariana Avó que demonstrou
desembaraço, sendo mais efectiva nos dois compridos e primeiro curto que cravou
perante um novilho que foi nobre e cumpriu. Com a segunda montada as sortes resultaram
por vezes mais atravessadas, ainda assim a cavaleira apontou bons pormenores
indo acima do oponente para cravar, deixando uma bonita passagem por Mourão.
O amador João Gregório de Oliveira evidenciou atitude, sem acusar
grandes nervosismos de principiante, e com maior eficácia nos primeiros curtos
que cravou frente a um novilho que foi mais reservadote que o anterior. Tem boa
margem para crescer e muito ainda, claro, a melhorar.
Nas pegas uma bonita tarde para os
Amadores de São Manços que concretizaram duas pegas à primeira, com
reuniões que impactaram, e com o grupo a efectivar sempre coeso.
A pé, abriu a tarde o novilheiro Adrián,
que entrou no cartel de última hora e em substituição do anunciado ‘Realito’, e
que sorteou o novilho que menos hipóteses deu em toda a tarde, solto e desinteressado.
Ainda assim o jovem toureiro mostrou ofício suficiente para que o novilho viesse
a mais, a consentir melhores apontamentos na recta final da sua actuação. O
português Vicente Sanchéz viu-se confiado, recreando-se, aproveitando as
qualidades de um nobre e bom novilho, resultando na faena mais homogénea da
tarde. Também David Gutiérrez deixou boa passagem por Mourão, com
mando e bom recorte toureio, toureando em redondo e com temple. Fechou a agradável
tarde o novilheiro Manuel Dominguez perante um novilho mais sério, com
outras exigências, e que quando o toureiro as entendeu, subiu de nota a faena, com
a mão baixa a lograr uma boa série de tandas.
Acrescentar que a tarde iniciou
com um minuto de silêncio em memória de António Pereira Palha, “Nico Palha”,
pai do cavaleiro Francisco Palha, falecido ontem, e que a tarde foi,
como sempre, abrilhantada pela Banda Municipal Mouranense que cumpriu
com a qualidade de quem actua numa primeira praça do país (Campo Pequeno,
fica a dica…).
Amanhã, Mourão dará
continuidade à recém-inaugurada temporada com mais um festejo que se prevê de
casa cheia, sol, e certamente bom toureio.
Patrícia Sardinha
























