Centenário do Maestro Manuel dos Santos: "Para os aficionados mais velhos ainda hoje é recordado, mas para a maioria dos mais novos é quase um desconhecido"

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Teria cumprido 100 anos a 11 de Fevereiro deste ano. No entanto perdeu a vida precocemente, aos 48 anos, vitima de um trágico acidente de viação. Ainda assim, a curta duração da sua vida não impediu os grandes feitos alcançados e o legado que deixou, que perdura, e que este ano muito foram lembrados nas várias homenagens que decorreram a propósito do seu Centenário.

Falamos do Maestro Manuel dos Santos, e, por forma a fecharmos este ciclo de homenagem do Centenário, deixamos hoje aqui um breve testemunho feito pelo seu filho, Dr. Manuel Jorge dos Santos.



À conversa com... Dr. Manuel Jorge dos Santos


A 11 de Fevereiro deste ano, o  Maestro Manuel dos Santos, teria comemorado 100 anos de idade, uma data que o toureiro "gostava muito (...) e normalmente festejávamos em família. Íamos almoçar fora e dar um passeio.". 

E perante uma efeméride tão especial como a comemoração do Centenário do maestro várias iniciativas importantes tiveram lugar este ano, algumas por intenção da sua própria família, como a inauguração de um Museu: "Há muitos anos eu tinha a ideia de abrir ao público um Museu que reunisse os principais troféus e as principais recordações do meu pai, que guardávamos em nossa casa e que eu julgo que têm um elevado valor histórico e patrimonial e merecem ser conhecidos e apreciados por todos. Por outro lado a 1ª edição do Livro que escrevi há uns anos estava há bastante tempo esgotada e além disso eu penso que podia ainda ser melhorada com novas histórias que entretanto fui conhecendo e mais fotografias e poemas a ele dedicados. O ano passado decidi que, aproveitando a celebração do seu Centenário, este era o momento adequado para avançar com o Museu e a 2º edição do livro, além de o homenagear por ocasião da efeméride. Falámos com a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia da Golegã, que acolheram muito bem a proposta, aportaram novas ideias e apoiaram a organização e divulgação das comemorações do Centenário.".


Mas houveram também várias entidades que se associaram e que diversificaram as homenagens como "A celebração de corridas comemorativas do seu centenário nas Caldas da Rainha, Lisboa, Sobral de Monte Agraço e noutras praças, o lançamento de um Livro Infantil  escrito e ilustrado pelas minha netas Guadalupe e Luísa com o título "Manuel dos Santos - O Herói das Arenas" a sua lembrança no decurso da Feira de São Martinho, na Golegã...".


O maestro Manuel dos Santos iniciou-se no meio tauromáquico por influência do seu avô, também ele Manuel dos Santos, bandarilheiro e, embora alimentasse o sonho de se tornar matador de toiros, a dificuldade em prosseguir tal carreira em Portugal levou-o a começar por tomar a alternativa de bandarilheiro. Foram inícios certamente, humildes e de resiliência. Isso também fez que, mais adiante, com toda a popularidade que granjeou, Manuel dos Santos, ainda assim mantivesse os pés assentes na terra? "Como bem refere o meu pai teve uma infância e uns começos difíceis, teve que lutar e sacrificar-se muito para atingir os seus objectivos, no toureio e na vida, o que lhe fez crescer ainda mais a força de vontade e a resiliência. Por outro lado, sempre foi por natureza humilde e agradecido. Como disse um poeta mexicano nuns versos que lhe dedicou quando ele faleceu:


"Pois sendo de vento e barro

 muitos homens bem nascidos,

Manuel foi feito distinto

Ciclones e porcelana modelaram seu destino"

  

Essa humildade, é também revelada no facto da alternativa de matador de toiros só a ter conquistado numa segunda tentativa, a 15 de Agosto de 1948 em Sevilha, já que Manuel dos Santos renunciou à primeira intenção por ter sido colhido com gravidade a 14 de Dezembro de 1947 no México... "E também a sua intuição para escutar e capacidade para seguir bons conselhos. Neste caso o do seu apoderado, que a partir da alternativa e colhida do México passou a ser Andrés Gago. Este aconselhou-lhe renunciar à alternativa para fazer ainda uma temporada em Espanha como novilheiro e assim passar a ser mais conhecido no país vizinho e chegar com mais força à alternativa.


Um dos grandes feitos de Manuel dos Santos aconteceu em 1950, há 75 anos, concretamente a 29 de Janeiro na Monumental Plaza México, quando ganhou o importante troféu "Rosa Guadalupana". Lidavam-se toiros de Pastejé e além de Manuel dos Santos, estavam em praça os matadores mexicanos Luis Castro "El Soldado" e Silvério Pérez. Foi uma tarde histórica e única em que o toureiro português cortou quatro orelhas e dois rabos na maior praça do mundo, um feito ainda hoje não atingido por nenhum outro toureiro. "Ele falava disso com satisfação e legítimo orgulho, mas não muitas vezes, só quando o tema vinha à conversa."


Foi também empresário tauromáquico, da desaparecida Praça de Toiros em Algés e também da Praça de Toiros do Campo Pequeno e, "Como em tudo, queria e fazia os possíveis para ser o melhor. Quis ser um empresário de referência, inovador, que organizava temporadas e espectáculos memoráveis, que promovia a Festa Brava chegando a públicos e locais até então não aficionados, que apresentava e apoiava novos valores e que incentivava a juventude a interessar-se pela tauromaquia. E tudo isto conseguiu."


Pelo que, se fosse vivo e se deparasse com a temporada na Praça de Toiros do Campo Pequeno reduzida a quatro espetáculos, sendo que na época de 2025 nem houve festejo misto, o Dr. Manuel Jorge considera que o pai "Ficaria certamente muito triste. Quanto ao toureio a pé, felizmente este ano foi incluído, precisamente na Corrida em sua Homenagem e com a primeira figura mundial, Roca Rey.".



Entre a Tauromaquia da época de Manuel dos Santos, pai, e a de agora, o seu filho Manuel Jorge considera que "nessa época havia muito mais interesse pelos toiros, sobretudo pelo toureio a pé, falava-se de tauromaquia em todos os meios de comunicação social e havia muito menos oposição à Festa Brava.". E sobre se o seu pai teria gostado que o filho também tivesse seguido as suas pisadas, refere que, "Sempre disse que não, porque sabia todos os sacrifícios, privações e sangue que custa para chegar onde ele chegou. E detestava pensar que após ele ter atingido um lugar cimeiro o seu filho podia ficar pela mediocridade. Dizia que só aceitava que o seu filho fosse toureiro se conseguisse ser melhor do que ele. Era uma parada muito alta...".


Sobre o pai, refere ainda que "Guardo óptimas memórias. Para mim, além de um toureiro extraordinário, a quem ainda vi belas faenas em Festivais de Beneficência, era um Pai exemplar e o meu melhor amigo.".

E a popularidade atingida por Manuel dos Santos foi tal, que para o seu filho, "A partir do momento em que passei a ter consciência e a dar-me conta da sua popularidade, quando o acompanhava passei a sentir uma sensação estranha. Por um lado era um orgulho e uma satisfação, por outro sentia que não era só meu, que era de toda a gente...". Uma importância também sentida pelo próprio toureiro, que "...apesar de se manter sempre simples e humilde tinha plena consciência da sua importância e do seu legado na Tauromaquia.".


Mas será que atualmente ainda lhe é concedido o mérito devido ou a memória dos aficionados é curta? "Já passou muito tempo desde os seus anos de glória. Dou-me conta que entre os aficionados - e mesmo entre os não aficionados - mais velhos ainda hoje é recordado, mas para a maioria dos mais novos é quase um desconhecido. É também para suprir esse desconhecimento que escrevi e reeditei o livro "Manuel dos Santos - O Homem e o Toureiro", que as minhas netas escreveram o seu livro infantil e que temos estado a incentivar e promover as comemorações do seu Centenário. Porque julgo que é importante recordar as pessoas que se distinguem nas suas actividades e ao recordá-lo estamos também a recordar a importância que a Festa Brava teve em Portugal".


E qual seria a melhor homenagem que se poderia fazer ao Maestro Manuel dos Santos? "Pela minha parte e por parte da minha família (filhos, mulher e netos) temos feito o possível por homenageá-lo condignamente pelo seu Centenário. Também vejo com satisfação que várias Tertúlias, Empresários e Artistas se associaram a esta iniciativa. Mas julgo que uma homenagem que ele gostaria era que todos os intervenientes no mundo da Tauromaquia, aficionados, toureiros, forcados, ganaderos, empresários, críticos e todos os que gostam da Festa Brava se unissem na sua defesa, divulgação, prestígio e luta pela sua manutenção e que esta voltasse a reconquistar a importância que teve na sua época.".







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