Opinião: "A Tauromaquia não pode voltar a ser desorganizada (como era antes da pandemia)"

 


O Papa Francisco, com muito bom critério, transformou o Ano Santo Compostelano 2021, seu Jubileu, em Ano Santo 2021-2022. Assim o fez a Santa Sé no passado dia 31 de Dezembro, dia em que a abertura da Porta Santa da Catedral de Santiago de Compostela marcava o início deste Ano Santo, agora extraordinariamente bianual.

Pois bem : enquanto a Igreja desperta e vela pela sua -diante da ameaça da Covid- e a evidência de que uma volta a uma verdadeira normalidade ainda vai levar muitos meses por diante, o Mundo do Touro segue instalado numa espécie do "Deus proverá"que, salvo raras excepções, é algo como ficar de braços cruzados que a procissão não vai comigo... quando a realidade é que a Covid, com a paragem forçada de 2020 e o que parcialmente ainda se espera no 2021, esfaqueou a Festa dos Touros uma punhalada que, embora não sendo mortal, vai levar tempo para a recuperação do doente.

Leio, tanto no caso de Espanha como de Portugal, por parte de taurinos, expressões de esperança baseadas em nada, baseadas na incerteza plena e geral em que nos movemos atualmente na Sociedade em que vivemos.

O Mundo dos Touros, na Espanha, em Portugal, na França... deve ser realista, profundamente realista e não cair na torpeza do vamos ver se há sorte e...  Os ganaderos sabem bem que seus animais, com Covid ou sem Covid, devem ser alimentados todos os dias. Os Cavaleiros e os Rejoneadores sabem muito bem que os seus cracks, os seus cavalos de toureio, devem ser alimentados todos os dias. Desde o toureiro afamado, desde o Cavaleiro mais célebre até ao bandarilheiro mais humilde, desde o empresário taurino até ao motorista de um camião de transporte de gado até às praças, todos sabem muito bem que eles e as respectivas famílias têm de comer todos os dias.

Garantir isto, o que se significa no parágrafo anterior, é agora mesmo o mais urgente, o que deveria estar planejado e analisado, reivindicado formalmente, colocado em dossiers e documentos adequados e apresentado as vezes que for necessário perante direcções-gerais, secretários de Estado e ministérios.

Pelas razões que foram: pelas que denunciava José María Manzanares este domingo passado na entrevista em "La Razón"; porque talvez a acção reivindicativa do setor, tanto na Espanha como em Portugal, não tenha sido formulada com a intensidade e estratégias devidas... o caso é que a Tauromaquia -tanto na Espanha como em Portugal- é o fedorento, o maldito, o zero à esquerda dos chamados (nem sequer chamados) à Ceia do Senhor das subvenções, subsídios e ajudas paliativas dos tremendos efeitos do Covid.

Se há algo do que estão doentes os que trabalham no sector tauromáquico, é de não ter associações e entidades representativas que funcionem realmente como seria de desejar. As coisas são como são. E assim, aos governantes em um e outro país, bem conhecidos por seu nulo apoio e bem pouco respeito à Tauromaquia, os dedos se fazem hóspedes...

O mundo taurino, tanto em Portugal como em Espanha, perdeu o ano 2020, não só por não ter podido celebrar os seus habituais festejos tauromáquicos; perdeu-o duas vezes porque tinha que ter usado estes meses do stop pela Covid para se organizarem conscientemente de uma vez por todas... Terminaram 2020, um ano mais, sendo o conhecido exército de Pancho Villa... Apesar de tudo : nunca seria tarde se empregassem o tempo de inatividade que vão ter nos primeiros 8/9 meses de 2021, para passar essa grande matéria pendente que levam tantos anos suspendendo...

Não se trata de voltar assim que a vacinação o permita e...
Não sejam desastrados, não sejam cegos...
Se o setor taurino não voltar em Espanha e Portugal em máxima força, envolto por um par de organizações, entidades associativas de grande poder e fortaleza capazes de dinamizar e relançar a Tauromaquia post-Covid... então será presa mais ou menos fácil para oportunistas, revanchistas, arribistas, falsos animalistas, políticos aproveitados, tipos de baixa estofa...

Quando a Tauromaquia post-Covid estiver presente, possivelmente no final de 2021 (espero!), não deverá fazê-lo como era antes da pandemia. Deveria voltar mais forte, com as ideias mais claras, com as abordagens certeiras, com a robustez necessária para resistir aos embates que, apesar de tudo, vai certamente sofrer.

Tornar-se forte e capaz só será possível desde uma reorganização a fundo, desde uma reestruturação adequada. Por isso, empregar estes primeiros meses de 2021 em conseguir isso, nos parece como algo fundamental. É possível?. Possível é... Outra coisa é que o pessoal que no Mundo do Touro corta o bacalhau faça o que tem que fazer e deixe de estar de braços cruzados. Reorganizar o Mundo taurino, tanto em Espanha como em Portugal, é muito mais que conseguir (o que também é importante) sair protestando num domingo na capa do jornal -entre os nacionais- de menor circulação.

EUGÉNIO EIROA

Imagem : PEDRO BATALHA