Crónica de Évora: "Egos, manias e mentiras"

NATURALES
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São 3:11h da manhã quando inicio este meu escrito em tempo real. Dá igual a hora ou momento que leiam. A realidade da prosa que abaixo relato, é intemporal. Mas eu não vivo bem com ela. Não vivo bem com uma alma pequena, apenas camuflada por um balão de ego à distância de um alfinete para rebentar. E há duas opções: sê conivente e navega… ou pega no alfinete e rebenta.

Tal como eu sabia que a ganadaria Murteira Grave indultava (pelo menos) um toiro em Évora, quem me lê, e viu a corrida, também sabe que eu vou pegar no alfinete. Aliás, hoje, meteram-me o alfinete à disposição.

Chamou-se “La Querencia”, com o 62 a fogo, 510kg de peso, negro bragado meano, com uma cara de apaixonar Triana. Esqueleto pequeno e à semelhança dos irmãos de camada, mais aparatoso por diante. Bonito, bem feito.

Quem acompanhou a apresentação dos toiros desta corrida, sabe (exceção dos cegos e dos que não querem ver) que este toiro ou seria de volta ou seria de indulto. Mas mais do que isso, foi o espelho dos vícios, do ego e da mentira que a Festa continuará a absorver (sim, é intemporal como disse no início). Não, o “La Querencia” não foi bravo, mas tinha de ser. Não, o “La Querencia” não foi de vacas, mas tinha de ser. Não, nós não devíamos lidar com a realidade dura… mas tem de ser. E essa, bem… começa num comprido em sorte de gaiola de Miguel Moura, note-se a única passagem com intenção do jovem cavaleiro, e o resto… todo um compêndio de desconexão. O toiro media, esperava desafiante e nunca se chegou a entregar a um cavaleiro e montada que por ali andaram a deixar ferros (sem contar com avisos impróprios, capotes e mais capotes), e deixar como quem diz… passou-se ali qualquer coisa difícil de explicar. Escarbava, fazendo cara feia sempre que sentia cavalo por perto, e enquanto media, só a distâncias mais curtas e perturbantes ao seu terreno, sacava o seu génio de manso com maior visibilidade. Apontou detalhes no capote (ainda assim o primeiro toiro colocava melhor a cara, na minha opinião), sem chegar a romper, e muito menos foi bravo… Para a pega manteve a conduta de pouco claro mas não complicou em demasia a tarefa de José Maria Caeiro que esteve diligente no primeiro encontro com o grupo a atacar no tempo certo. Mas e então? Este toiro é o “La Querencia”, este toiro tinha um história para contar. Refleti quando vi o Dr. Joaquim Grave a aplaudir a sua recolha, sem que mais ninguém na praça prestasse alguma demonstração ao prémio do animal. E para mim, nesse momento, a história do “La Querencia”, ficou contada.

A corrida da Galeana decepcionou-me. De apresentação não mais que correcta para a Arena D’Évora (já se lidaram corridas Grave em Évora com superior trapio), faltou motor e personalidade à corrida.

O primeiro da tarde pesou 530kg, pouco cheio nos quartos, um toiro algo montado, bem posto de cara, negro salpicado, bragado meano e axiblanco que foi gazapón, sem fijeza e sem vontade de ir à luta, que, em abono da verdade foi pouco estimulada. Inglório nos compridos, Manuel Telles Bastos andou noutra frequência durante a atuação, sendo a falta de lide e de leitura do toiro as notas mais dominantes de uma tarde infeliz para o cavaleiro da Torrinha. A espaços, praticamente os seis toiros tiveram bonitos nos capotes, sendo que este número 8 chegou a fazer o avião com codicia e em total flexão e entrega, empurrando. Falta de toiro e falta de ver toiro. António Torres Alves, pelo Grupo da casa, fechou-se muito bem na segunda tentativa, aguentando o animal que saiu solto e reunindo correcto, estando o grupo exímio a fechar.

O segundo, o mais pesado da tarde, com 585kg e o número 54, era um toiro mais basto, hondo e algo descomposto, de esqueleto grande mas pouca força e muito limitado, sentindo-se sempre que queria mais do que podia. Marcos Bastinhas não conseguiu fazer das intenções resultados, e apesar da grande comunicação que tem com o público, os argumentos adotados nesta sua primeira lide não foram felizes mesmo que assim parecesse para a bancada. Martim Cosme Lopes do Aposento da Moita pegou-o à primeira, com mais vontade que técnica, e aguentado um derrote duro, respondendo o grupo prontidão.

Do terceiro já falámos acima, mas do quarto não… que foi o toiro mais completo da corrida. Bonito, curto de pescoço e de mãos, era reunido e tinha bom ar, com uma cara agradável e uma expressão toureira. Denotou mais fijeza que toda a restante corrida, também ele mais móvel e mais disponível. Nos voos, e como disse anteriormente, tendência geral, empregou-se com menos qualidade mas rompia com alegria e transmissão, o que não se viu no duelo com o cavalo, faltando-lhe emoção à nobreza que tinha. Ainda assim, sentiu-o por cima de Manuel Telles Bastos, que praticou um toureio vulgar e sem consistência, abrindo cedo os quarteios e cravando sem qualquer assento. Na pega viveram-se momentos de apuro aquando da primeira tentativa de Diogo Gromicho do Aposento da Moita, com o impacto e a violência a fazerem-se notar. Na dobra, Fábio Matos alegrou a investida ao toiro, encheu-lhe a cara e o grupo respondeu bem.

O toiro saído em quinto lugar era um dos que mais gostava, e curiosamente, foi um dos que mais me decepcionou. O castanho chorreado com 540kg passou uma imagem de pouco poder, com uma cara medida e sem se sentir ofensivo (tanto nas defesas como nas expressões do animal), com falta de personalidade e de vida. Marcos andou visivelmente mais sóbrio, e mesmo que não lograra redondear a prestação, fez equações um pouco mais próximas ao toureio de verdade, que não implica somente reunir e cravar, e emerge em tourear um toiro, lidá-lo e expo-lo aos seus desígnios, e rematar dando a cara para valorizar a entrega do oponente (quando verificada). As duas vezes que Marcos o fez, os resultados foram agradáveis. O par com que culminou já foi tarde e custoso de deixar, acrescentando pouco em conteúdo mas chegando ao público numa altura em que o toiro havia rachado. Rui Bento por Évora, não conseguiu ficar numa primeira tentativa em que faltou falar ao toiro, consumando na segunda com destaque para uma primeira ajuda que antecipou cedo.

O sexto foi um toiro manso, tardo e listo, não entrava em caminhos que não queria e só consentia no espaço em que ele podia imperar. Pesou 560kg, também ele negro bragado, de tipo mais feio e que tal como todos os lidados nesta tarde, à excepção do quarto, não foi franco nem leal nos ataques. Miguel Moura precisa de confiar-se e dar o salto. Estagnou em todos os aspetos, sente-se frio e preso nos cites; com falta de fulgor e de ideias para rematar; distante e sem ritmo no computo geral. O cabo do Aposento da Moita, Leonardo Matias, esteve valente e decidido a dobrar João Ventura que protagonizou duas tentativas rijas até sair para enfermaria. À segunda, quarta do conjunto ribatejano, o cabo consumou depois de uma primeira tentativa em que esteve soberbo com o toiro até que o mesmo humilhasse para o tirar.

Évora esgotou os bilhetes em tempos de pandemia, com as normas e diretrizes da DGS – Direção Geral de Saúde - a serem cumpridas. Dirigiu com falta de critério o Director Agostinho Borges, demasiado benevolente na concessão de música e voltas. Abrilhantou a bom nível a Banda de Nossa Senhora de Machede.

Em nota final, não tenho conhecimento de quem esteja a gerir neste momento as redes sociais da Ganadaria, mas quero acreditar que não foi o Dr. Joaquim Grave que me bloqueou apenas por um “Foi Bravo???”... Entre 500 comentários lindos, uma questão opinião de um aficionado sério, que podia ser debatida e dar uma boa tertúlia, foi simplesmente castrada.

Não me alongo mais, mas como diz o meu conterrâneo Luís Trigacheiro e que está nas bocas de todo o país (com todo o mérito do mudo): “vão ter que mamar comigo!".


Pedro Guerreiro
- bilhete pago -

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