Crónica de Lisboa: “Chama-se Vergonha Toureira”

NATURALES
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A frase não é minha, ouvi-a do crítico, Dr. Domingos da Costa Xavier, ali pelo meio da corrida que se realizou na passada sexta-feira em Lisboa, e para mim qualificou bem a noite.

Cinquenta e um ano depois, o Campo Pequeno ganhou aqueles frutos arredondados de cor vermelha que agora no Verão sabem bem nas saladas, e arriscou na organização de uma corrida só de matadores portugueses. 

O desfecho em termos de casa era previsível, para mais em época alta de férias, para mais quando esta temporada nem os "cavalos" têm conseguido esgotar Lisboa. O prejuízo, esse suponho mínimo, três portugueses deve ser coisa barata, quase dada, comparada com as figuras que se trazem a Lisboa e muitas delas também não enchem a praça. 

De facto o Toureio a Pé em Portugal não se faz pagar nem tem força. Não é culpa dos toureiros, que os há actualmente com muito ou tanto valor quase como os “maestros” lusos de antigamente e a quem hoje alguns idolatram sem nunca os terem visto tourear. Também não me venham com a história que é porque cá não existe a corrida integral, que já no tempo dos outros senhores não se picava nem matava o toiro, e viveram-se anos dourados. 

Na minha opinião, houve por cá um descrédito a essa vertente do toureio depois de promessas goradas que duraram anos... Houve a “fronteira” espanhola mais apertada, já que proliferam por lá candidatos a diestros e onde entrar um “estrangeiro” para ser figura é cada vez mais difícil. Houve o domínio nas nossas praças por empresários a quem esta vertente não interessa por terem motivações e ligações passadas a outras áreas da Festa; Houve, e há, a nega dos cavaleiros a corridas mistas; Houve a (des)criação do toiro a pensar no Toureio a Pé e sim a formatação do boi da corda ao gosto dos cabalistas; Houve o emburrecimento do público a quem não se fala, não se dá, nem se explica o toureio apeado e que vai às touradas para ser fotografado, aparecer nas redes sociais e que acha que para ver toureio a pé é mais fino ir-se a Espanha... 

Houve tudo e mais alguma coisa menos a fomentação do Toureio a Pé nos últimos anos em Portugal. Salvem-se as Escolas de Toureio... 

E para se dar uma corrida a pé, há que acima de tudo cuidar-se o toiro. Ontem em Lisboa viram-se animais (de)mais pesados, alguns até com mais idade que muitos dos que vêm cá tourear figuras do rejoneio... O curro de Calejo Pires saiu desigual de apresentação e comportamento. Com pouca carita, gordos e grandes, saíram no geral mansos encastados, exigentes, de melhores condições os lidados em segundo, terceiro e sexto lugar.

António João Ferreira é toureiro dos pés à cabeça e isso ontem ficou bem patente. Faltou-lhe a sorte. Frente ao primeiro, gordo, feio, sem classe na muleta, pouco pôde valer-se o toureiro além da sua determinação. Frente ao quinto, um perigoso toiro que por várias vezes o avisou, ainda se viu a gosto com uma série arrimada, justíssima e séria, mas acabou colhido e uma má queda deixou-o visivelmente debilitado. Mas porque, estes sim são feitos de outra massa, pegou nos trastes e meteu-se ainda assim diante do oponente, sacando-lhe mais três, quatro passes. As dores não permitiram mais. E o público, contrariamente ao nóvel director de corrida, respeitou, entendeu e aplaudiu-o de pé! A isto se chama vergonha toureira, elucidou-nos bem alto Domingos Xavier. Tójó tem disso em demasia, pois nasceu toureiro...mal aproveitado e no país errado.

Manuel Dias Gomes amadureceu e ontem veio reforçar a ideia que sempre tive dele: tem mais que capacidades para se manter como um dos grandes do Toureio a Pé da nossa geração e para merecer muitas mais oportunidades. Perante o primeiro, animal nobre e que humilhou, Dias Gomes foi vistoso e elegante de capote para com a muleta assentar ofício num toureio templado, sem pressas, de mão baixa, logrando bons momentos, com o toiro a vir a menos com o decorrer da faena. Frente ao bonito quinto, voltou a demonstrar muita técnica com uma calma rara, muita disposição e um toiro que foi mais decomposto nas investidas convencendo mais o toureiro, que sacou de argumentos perante as adversidades do toiro.

A João Silva "Juanito", o mais espanhol dos três portugueses em praça, denotou-se o facto de ser também o mais placeado dos alternantes. Disposição, conhecimento e arrimo teve com fartura, até para se lançar a uma segunda volta sem qualquer petição por ela, e que o director de corrida “estancou”. O nosso mais recente matador de toiros, aproveitou a investida nobre do seu primeiro oponente e construiu uma faena em crescendo, por ambos os pítons e por entre desplantes vistosos e arrimados. Com o último, um toiro que teve durabilidade, voltou a demonstrar superioridade, com uma actuação variada de sustento, e iniciada de joelhos com a flanela na mão. Sobressaiu essencialmente pela direita, numa actuação que teve eco nas bancadas e pormenores de quem poderá vir a elevar o nome de Portugal aqui ao lado.

Se de ouro estamos bem servidos, que dizer da prata? 

Bons desempenhos dos bandarilheiros lusos, Cláudio Miguel, Tiago Martins, Pedro Noronha, João e Joaquim Oliveira, e aquele que é a figura do momento no que aos bandarilheiros diz respeito, João Ferreira, que ontem voltou a brindar-nos com dois grandes pares. 

Nas bancadas pouco mais de 1/4 de casa de gente que foi ali para ver toureio. Sim vá, há sempre o um ou outro do costume que foi lá para beber umas cervejas, mas ontem à noite, houve acima de tudo 'entendimento' e muita (acreditem que é verdade) gente jovem nas bancadas e um imenso respeito, longe da festividade, do exagero e dos triunfos enganosos que vivem certas outras corridas.

E valeu a pena esta corrida de sexta-feira? Valeu e já veio tarde! E valerá sempre a pena enquanto houverem jovens toureiros como os que ali se apresentaram, dispostos a tudo e cheios de um imenso valor tão mal aproveitado. 

Sem ter sido uma noite redonda artisticamente falando, foi ainda assim, uma noite importante para os que defendem o Toureio a Pé em Portugal.

Vergonha Toureira: Sentido de responsabilidade que impõe a obrigação de cumprir com o próprio dever.




Patrícia Sardinha