Noite para encher chouriços e dos valentes, tais os quilos de carne (vulgo chicha) que se viram na noite da passada sexta-feira, na arena da Praça de Toiros em Salvaterra de Magos.
No entanto, pese embora o sururu que se criou nas redes sociais após serem dados a conhecer os pesos das reses de Dolores Aguirre (560, 605, 705, 770, 720 e 660 kg), não foi de facto o ‘volume’ que condicionou o comportamento do curro espanhol mas sim os quilos de mansidão que carregavam dentro. E isso não se podia prever, e nada se pôde fazer, a não ser sofrer para dentro as “dolores” (leia-se dores) de termos que ver toiros que não permitiram desfrutar de toureio.
Ainda que no geral bem apresentados, com excessivo peso é certo, mas cumpridores à vista, de comportamento a coisa foi mais escassa e só o terceiro, quarto e sexto apresentaram algumas condições, sendo um curro de animais mansos, sem raça, que nada queriam com os cavalos mas que tinham especial gosto pelos capotes e forcados, aos quais se ‘atiravam’ com imensa ‘fome’…
A corrida acabou por resultar numa expectativa gorada em ver três jovens cavaleiros que, sem matéria, pouco ou nada puderam luzir.
Manuel Telles Bastos teve por primeiro um toiro que se adiantava e com o qual foi mais solvente na brega do que na concretização da ferragem. Com o segundo do seu lote, animal para 770 kg (coisa pouca), nunca se chegou a entender completamente ainda que o toiro não acusasse na arena o (excessivo) peso e tivesse tido alguma mobilidade.
A Luís Rouxinol Jr. calhou a “sorte grande e a terminação”. Se o primeiro não o quis ver, malvisto que era, completamente distraído, sem dar atenção ao cavalo, salvando-se o esforço do cavaleiro para contrariar tendências; o segundo então foi um manso do pior que já se viu. Fugia na frente do cavalo, não tinha uma investida, exigia-nos uma grande paciência, coisa que nem sempre o cavaleiro teve e enfim, nada a recordar.
António Prates teve mais garantias com o lote que lhe tocou. O primeiro saiu distraído mas não complicou, deixando-se, com o cavaleiro a lograr desembaraço e eficácia na actuação. Mais inconstante andou frente ao último do festejo, outro toiro que teve mobilidade mas com o qual Prates consentiu demasiadas passagens em falso, além de valente toque na montada, oscilando entre bons momentos conseguidos e outros sem interesse.
O bom desta noite no que às lides equestres diz respeito, chegou-nos ao intervalo, com o amador António Telles filho, autor dos melhores momentos de toureio da corrida, com uma lide desenvolta, bem-intencionada, um toureio frontal e bons ferros, especialmente aquele quinto, de gente grande! Pela frente também é certo, teve qualidade a matéria diferente da que tocou aos colegas, com um novilho de José Palha de excelentes condições, codicioso, enraçado, que teve mobilidade e investida e foi merecedor de volta ao ruedo, bem como o representante da ganadaria.
Valentes nessa noite tiveram que andar os Amadores de Montemor e Lisboa, em ano de comemoração dos seus 80 e 75 anos respectivamente, com os comboios que tiveram por diante.
Pelos alentejanos de Montemor, pegaram Francisco Bissaia Barreto à primeira, com uma grande pega, a aguentar a velocidade do toiro para depois reunir de forma eficaz e o grupo coeso a efectivar; João da Câmara por três vezes aguentou a violência da reunião, acabando dobrado pelo cabo, António Vacas de Carvalho, que consumou à quarta (sua primeira); e António Pena Monteiro e Francisco Godinho exibiram-se numa grande cernelha ao ‘manso de livro’, aguentando ambos enormemente de braços.
Pelos Amadores de Lisboa, Tiago Silva saiu lesionado depois de um primeiro intento no qual o toiro o despejou com violência no chão, sendo dobrado por Duarte Mira que consumou assim à segunda (sua primeira); o experiente Pedro Gil viu-se com o mais pesado (770 kg) e logrou à primeira, uma pega de enorme mérito do forcado, a aguentar uma brutidade a velocidade do embate e a viagem, tendo braços para dar a volta ao Mundo, até que o Grupo ajudasse a consumar; e João Varanda quase bisou na sorte de Gil, concretizando à segunda, uma pega rija, emocionante, e bem fechado na cara do toiro. José Maria Marques, de Montemor, concretizou à primeira a pega ao novilho, com a composição a fazer-se também por elementos jovens do Grupo de Lisboa.
Estavam em disputa os Prémios de Melhor Pega “Nuno Salvação Barreto” e Melhor Grupo “Simão Malta”, atribuídos respectivamente a Pedro Gil e ao seu Grupo, Amadores de Lisboa, do qual foram jurados os senhores Pedro Graciosa, Nuno Santana e Francisco Chalana.
E assim se resume uma noite em que se registou menos de ¾ de casa e onde houve de facto toiros grandes mas toureio curto… Valeu-nos o momento de António Telles filho, do novilho de José Palha e da valentia e desempenho dos dois Grupos de Forcados em praça.
Patrícia Sardinha