Cabe de forma justa e merecida, começar por glorificar o destemor e empreendedorismo dos promotores da corrida de toiros por ocasião da 36ª Ovibeja.
Data em completo decréscimo em todos os aspetos, afición numa corda bamba completamente instável, mas… quando há um mas que começa por trabalho, empenho, querer, seriedade e afición, todos saem a ganhar, principalmente a própria data.
E se ver uma moldura humana bastante aceitável tendo em consideração edições anteriores (falamos de 2/3 bem preenchidos) não é sair a ganhar… será apenas sinal de que o trabalho bem feito e em prol da festa deve continuar.
Mas o motivo maior do meu regozijo acerca da corrida refere-se maioritariamente à seriedade e verdade de um senhor curro de TOIROS como há muito não via na praça da minha terra e cujo ilusão tardava em converter… A corrida de Canas Vigouroux, desigual de hechuras mas muito séria, rematada, com cara, com trapio, teve mais virtudes nas considerações de apreciação morfológica do que propriamente nos aspetos em que se baseia a bravura, contudo, nenhum deu provas de que com mimo e saber pela frente, o agradecimento não fosse reposto.
O veterano Luís Rouxinol pareceu-me distante da sua imagem mais real. Se agradou ao público e cumpriu com o costumeiro brilho popular que ostenta? É quase um facto absoluto em cada tarde; Se me faltou a forma frontal e séria que também fazem dele ocupar estatuto de figura? Na tarde de sábado sim.
O primeiro Canas, com 614kg… Que pedaço de toiro. Hondo, cuajado, um toiro feito, com trapio, sério, ligeiramente bisco, mas uma beleza, não complementou com bravura o que lhe restava em presença. Informal e com pouco fundo, valeu-lhe a nobreza e a boa vontade em querer mover-se para ajudar um Rouxinol que noutras circunstâncias o teria feito parecer um bom toiro ainda que as qualidades não fossem da estirpe dos que se querem bons. O melhor foram os compridos, já que na série de curtos sentiu-se um desentendimento inusual e umas abordagens quarteadas com tanto tempo de antecedência que no momento das reuniões o impacto não se sentia, e o acople também não.
O quarto toiro, castanho, bonito e bem feito, baixo e com bom tipo também não incomodou, e tanto “não incómodo” em ganadarias como a de Canas Vigouroux são sinais que me doem… Não se pode perder a casta! Luís Rouxinol entendeu-o na perfeição, e mostrou que a lidar e interpretar toiros haverá poucos como ele… um crédito que deixou no bolso da casaca na lide do primeiro. Com o Douro, que por si só já chega ao público, praticou o toureio que hoje em dia mais impacta na globalidade dos sectores, com brega justa e medida e submetendo a investida templada do Canas na facilidade da montada. A ferragem não resultou com o encaro que esperava, pois nas viagens as trajetórias nem sempre se verificaram benéficas para emancipar o poder que se pretende nas reuniões, e é aqui que se sente a falta de uma companheira como foi Viajante… A par da forma exímia como lidou, o par, mantendo-se montado no Douro foi de muito boa execução.
João Ribeiro Telles foi uma agradável (e necessária, convenhamos) surpresa… relembrarão aquela temporada de 2013, em que o jovem cavaleiro da Torrinha com o Ojeda e o Zique montavam o alvoroço praticamente por onde passavam. As ganas que se viram em Beja foram as desse João de 2013, com vontade de se reafirmar e entrar para o quadro (que aos poucos vai juntando o leque dos toureiros que num curto espaço de tempo terão de assumir o escalafón e sobrepor-se aos veteranos em contratos e triunfos) onde já esteve mas cujo a síndrome de inconsistência que tem assolado os cavaleiros que despontam com força, o tem deixado algo arredado dos palcos com mais expetativa. Felizmente em Beja voltou com disposição e tudo acabou por fluir. Aparte da espetacularidade e impacto que a lide ao quinto causou nos tendidos, agradou-me especialmente a forma como contornou e dominou o segundo, um burriciego difícil e volumoso, com 617kg e uma condição instável e de provador de experiências e abordagens, que ou teria de ser levado e tratado com ligação ou seria missão para esquecer. João acertou na dose e esteve superior ao toiro, ocultou-lhe o suficiente os defeitos e nos terrenos que o fez provar, fê-lo ceder e sentir-se submisso, em especial num impactante curto cravando nos terrenos de dentro, o mais exequível e de qualidade perante os restantes, com intenção mas mais variados na execução.
O quinto é o toiro que agrada a todos… negro, com 570kg, de cara harmoniosa e bem feita, aquela que chamamos de sevillana. Foi disponível, não transcendente em raça (!!!), mas voluntarioso e com codícia, empregou-se com franqueza e obteve resposta do cavaleiro. O primeiro curto resultou antológico dada a leveza e destreza com que a montada quarteia no momento exato em que o toiro investe para a agarrar. A batida quase sem pronúncia, milimétrica e flexível resultou como uma bomba no tendido. Estava o prémio caro… e portanto os seguintes, mais ou menos exuberantes na sua execução, não lograram o sabor que o primeiro deixou, embora as reuniões tenham primado por correção.
Andrés Romero esteve absolutamente fatal com o primeiro do seu lote. Animal indiferente e à defensiva, sério e mais encastado que os demais, não facilitou a tarefa do rejoneador que se limitou a aguentar toques aqui e ali, e a cravar perto da Feira… Ah! E os números, claro.
A lide ao sexto acaba por ter melhor visibilidade para a bancada, mas falta de consistência na globalidade dos argumentos. O Canas que fechou praça careceu de melhor estilo, era brusco e pouco orientado, mas foi gradualmente permitindo que o levassem onde quisessem, tendo ficado provado que a nota dominante do curro tenha sido a voluntariedade. Notando-se mais confiado numa montada que transmitia mais confiança, teve mais intenção em tentar procurar toureá-lo de frente e colocado já no tércio, de onde saía com facilidade. À vontade e melhores maneiras demonstradas faltou somente dar aprumo nas jurisdições, algo que deveria ser preocupação geral, pois são as reuniões que ditam a força maior da sorte, e se a força maior da sorte não for sentida como de risco e com poder, caminhamos para uma leviania que servirá para agradar à maioria do conclave, mas que a longo prazo não trará transcendência em termos de carreira e patamar.
Nas pegas, entre algumas complicações e outras vezes erros, os Amadores de São Manços, Real de Moura e Beja resolveram dignamente as funções que tiveram por diante, e nem sempre foram fáceis…
Pelos de São Manços, Pedro Galhardo viu o toiro passar-lhe praticamente ao lado na primeira tentativa, surpreendendo o forcado. Ao segundo intento esteve melhor a prender-lhe a atenção e consumou sem dificuldades de maior; José Quintas teve pela frente um toiro que investia com ímpeto e empregava o corpo como forma a dar profundidade à sua investida, sendo por isso importante reunir com eficácia e querer, algo que se viu na segunda tentativa, em que o forcado, apesar de não reunir de forma perfeita, teve o querer e a vontade necessária para não se largar da cara e fechar com mérito, tendo posteriormente que sair lesionado.
Pelo Real de Moura foi escalado Gonçalo Borges para a pega do maior da tarde. O toiro, malvisto e por isso carente de muita voz e atenção, foi brusco e impiedoso na primeira tentativa, entrado duro e derrotando como um manso para tirar o jovem forcado da cara. Na segunda tentativa assistiu-se a uma mostra de valor, raça e alma de um forcado e de um grupo em conseguir consumar uma grande tentativa. O toiro parte com pata, baixando agora mas a cara na reunião, e o forcado encaixa perfeito e cobre praticamente toda a cabeça do animal que dispara derrotes desconcertantes e em várias direções, com o forcado a aguentar de forma descomunal e potente; O quinto saiu pronto e com uma arrancada bonita, e investiu franco tal como havia feito no cavalo. João Cabrita fez o que lhe competia, somente esperá-lo e aguentá-lo bem, nem um passo a mais nem um a menos. Consumou com segurança à primeira.
Francisco Patanita, dos Amadores de Beja, não teve tarefa fácil com o terceiro, que não perdoou desacertos e com uma condição mais inteira revelou muitas dificuldades para o grupo, que no terceiro encontro, no único onde o forcado reuniu perfeitamente, conseguiu fechar; Mauro Lança fechou praça com uma grande pega à primeira tentativa, partindo o toiro com pata e o forcado, com querer e decisão, esteve exemplar na sua cara.
No final o Júri atribuiu os troféus Melhor lide e Melhor pega a João Ribeiro Telles e Gonçalo Borges, respectivamente.
Dirigiu Domingos Jeremias, com um critério algo desacertado nas atribuições de música, e abrilhantou o espectáculo a Sociedade Filarmónica Capricho Bejense.
Pedro Guerreiro
