David Antunes: "Sou um homem que fez as coisas com amor pela profissão"

NATURALES
Publicado por -


O bandarilheiro David Antunes despede-se das arenas no próximo domingo em Vila Franca, a sua terra, num Festival Taurino misto, onde reúne amigos e que promete ser de muita emoção.

DAVID ANTUNES: "Sempre me preocupei em fazer as coisas em toureiro"


Ser de Vila Franca e para mais sobrinho do maestro José Júlio e do bandarilheiro Dário Venâncio…estava escrito que toureiro tinha que ser. Foi através deles que também começou esta sua paixão pelo toureio?
Sim, sem dúvida. Desde menino que as vivências com os meus tios me atraíram para o mundo do toiro. Tinha sete anos e pedi aos meus pais para ir viver para a quinta do meu tio José Júlio. Ali, todos os dias treinavam matadores, bandarilheiros, novilheiros, inclusive algumas Figuras do Toureio que quando vinham a Portugal por ali passavam. Era um ambiente incrível a que não resisti. Naquele tentadero chegavam a estar muitos toureiros juntos a treinar ao mesmo tempo… Foram tempos inesquecíveis.

O David chegou a ser novilheiro. Durante quanto tempo durou esse sonho, que recordações tem dessa altura e porque desistiu?
Fiz alguns espetáculos como bezerrista e depois estive pouco tempo de novilheiro. Praticamente foram dois anos. Toureei no Campo Pequeno em três ocasiões: uma novilhada e duas corridas de toiros; e em Vila Franca actuei em algumas mais... Essas foram as mais importantes e onde as coisas correram mesmo bem. Tão bem que no ano seguinte puseram-me logo em corridas de toiros para as quais eu não tinha rodagem suficiente para as tourear e aí, ao não ver futuro na profissão como tinha sonhado, decidi que o melhor era retirar-me.

Mas ainda pensa nisso? Que podia ter continuado…e quiçá tirado a alternativa de matador de toiros?
Não penso nisso e só pego na muleta para explicar alguma coisa na Escola José Falcão e raramente no campo entre amigos. A minha carreira de bandarilheiro faz-me sentir realizado, e penso que foi o melhor que fiz porque ser "matador de toiros é muito difícil e ser figura do toureio é quase um milagre". Cada um tem o seu sítio na Festa e o importante é seres respeitado e bem-sucedido no lugar que ocupas.

Como se deu então a possibilidade de passar a trajar de prata?
Um dia na rua de Vila Franca encontrei o maestro Vítor Mendes que me desafiou: "Então porque não se faz um bom subalterno?! Se quiser esteja amanhã às 9h30m na porta da minha casa para treinar". E eu às 8h já lá estava! Não podia perder a oportunidade de acompanhar uma figura do toureio daquela dimensão… E a partir daí treinei sempre com o maestro e fiz-me bandarilheiro.

Neste seu percurso houve certamente alguns sustos. Qual o marcou mais?
Nestes anos todos de toureiro, pelas minhas contas, toureei cerca de 1300 corridas de toiros mas onde tive os piores acidentes foi no campo. Um deles foi num tentadero de machos, um toiro colheu-me pela axila e levou-me preso pelo piton uns 15 a 20 metros. Levei uma cornada forte e milagrosamente escapei. E no ano de 2017, em Arruda dos Vinhos, houve um toiro me partiu o pé e me parou na temporada em que me ia retirar. Daí ter estado um ano parado e só agora surgir esta oportunidade, deste festival, onde me despeço na praça da minha terra.


Pelo contrário, que melhor momento recorda?
Tenho várias recordações que gostaria de referenciar mas recordo especialmente, uma corrida de toiros de Ernesto de Castro em Vila Franca, às ordens de José Luís Gonçalves, em que me tive que desmonterar... Foi uma corrida que me marcou bastante e foi um êxito rotundo com os toureiros em ombros.

O David foi, quer peão de brega à ordem de cavaleiros, quer bandarilheiro a sair com matadores e novilheiros. Com que artistas saiu ao longo da sua carreira de subalterno?
Estive 7 anos na quadrilha de António Ribeiro Telles, 3 anos com João Moura Caetano e Paulo Caetano, e 13 anos com o Luís Rouxinol e Luís Rouxinol Jr.. De matadores de toiros acompanhei várias vezes o maestro Vítor Mendes, José Luís Gonçalves, o Luís Vital “Procuna”… Esses foram aqueles com quem mais sai. Mas também com o meu tio José Júlio, Rui Bento, Nuno Velasques, Nuno Casquinha, António João Ferreira, Manuel Dias Gomes e Pedrito de Portugal. Toureei também em Espanha com Sanchez Vara, e em França com Fernández Meca. Saí ainda num Festival em Espanha com o maestro Manzanares e também com algumas figuras espanholas quando estas vinham a Portugal, como El Cordobes, El Juli, Ruiz Miguel, etc.

E o que preferia? Acompanhar um cavaleiro ou um matador?
Encarava com a mesma responsabilidade sair com um cavaleiro ou matador. O meu objectivo era que tudo saísse bem para mim e para o toureiro. No entanto, com os matadores havia outro entendimento devido à minha experiência como novilheiro.

Sempre se disse que um subalterno deve passar o mais discreto e deixar o cavaleiro/matador ser o protagonista. Contudo, o David sempre deu nas vistas pelas boas maneiras e arte com que pegava no capote. Foi consequência do tempo que foi novilheiro?
Sempre me preocupei em fazer as coisas em toureiro, desde o andar pela praça, ao executar os lances ou ao vestir-me de toureiro. Todos os detalhes são importantes e tudo isso veio da aprendizagem com o meu tio José Júlio, nos tempos de novilheiro e depois com os toureiros com quem saia. Tudo junto faz um todo, e se alguma vez saía algum remate mais artístico, saía com naturalidade, sem premeditação.

Considera importante que um subalterno, apesar de ser uma ‘sombra’ do toureiro, tem que ter alguma arte e classe no seu ofício, e não só largar ‘trapadas’ como infelizmente ainda se vê nalguns casos e que a muitos parece suficiente?
Um subalterno é acima de tudo um toureiro, e como tal, deve de fazer as coisas com categoria mas sem exibicionismos. Ao bandarilheiro, quanto a mim, compete levar os toiros toureados de largo e sem deixar enganchar no capote, e deixa-los nos sítios e nos tempos certos da lide. Eu sempre tentei suavizar as investidas dos toiros e leva-los largo.

E o que faz na realidade, ser um bom toureiro de prata, na sua opinião?

Um bom toureiro de prata quanto a mim, para além daquilo que já referi, tem que ser bom dentro e fora da praça. É importante ter educação e cultura taurina, saber estar num sorteio, saber defender o seu toureiro, saber falar com o toureiro e saber acompanha-lo.


Muitas vezes foi o primeiro da sua categoria no escalafón. Isso também o envaidecia?
Sem ilusão, metas, ambição, nada se consegue. Mas eu não me envaidecia, pois queria sempre mais. Muitas vezes o que toureia mais, não quer dizer que seja o melhor. Eu sempre quis conquistar acima de tudo o respeito dos toureiros. Depois o dos aficionados, e por isso surgiram sim, muitos troféus importantes.

Nas últimas temporadas, e durante muito tempo (quantos anos?), foi peão de brega fixo na quadrilha do cavaleiro Luís Rouxinol. O que é essencial para se estar tanto tempo às ordens do mesmo toureiro?
Estive durante treze anos na quadrilha do Luís Rouxinol, uma grande figura do toureio e um grande homem. É um grande orgulho para mim ter acompanhado o Luís durante tantos anos. Dentro da praça é um toureiro muito poderoso, que triunfa todos os dias, e o entendimento entre mim e o Luís deu-se desde o primeiro dia que sai com ele. Fora da praça, tanto ele como o seu filho Luís Rouxinol Jr., proporcionam um ambiente espectacular.

O ano passado já esteve afastado das arenas mas decidiu agora fazer oficialmente a despedida num Festival Taurino na sua terra. Porquê?
Sim, como já referi, infelizmente tive um percalço em Arruda dos Vinhos em 2017, ano em que tinha previsto ser o da minha despedida. O ano passado as coisas não se proporcionaram embora, houvesse grande insistência do meu grande amigo e antigo apoderado da família Rouxinol, o senhor Francisco Penedo, que no passado Inverno infelizmente nos deixou, e a quem eu dedico este dia da minha despedida. Este Festival era também um grande desejo do meu amigo Francisco. Como não pôde ser no ano passado, este ano aceitei de bom grado o convite do Club Taurino Vilafranquense para a realização deste festival. Fiquei sempre com aquele remate final da minha carreira por fazer e este domingo vou realizar esse sonho.


O cartel é misto, e conta com actuações de alguns dos toureiros com quem saiu na quadrilha ao longo dos anos. Prevê-se portanto uma tarde de emoções?
Estou muito feliz com o cartel de dia 31. Reúne a maestria de Luís Rouxinol e Victor Mendes, duas referências na minha carreira. O Marcos Bastinhas, que debuta em Vila Franca depois do falecimento de seu pai, e que é um toureiro com raça. O Luís Rouxinol Jr. que vem confirmar o seu grande triunfo do ano passado em Vila Franca. O matador Manuel Escribano, um grande e poderoso toureiro sevilhano, e um grande amigo também. E o nosso Manuel Dias Gomes, que foi aluno da escola José falcão, e que já triunfou forte em vila Franca, e também meu amigo. Os novilhos estão preciosos, e decerto que vamos dar o nosso melhor para um grande espectáculo.

Fecha-se uma porta mas o David já vislumbra o futuro… Tem dois filhos gémeos, e um deles também tem este gosto pelo toureio, inclusive frequenta a Escola de Toureio “José Falcão”. Pelo que se tem dito e visto do Tomás, raça, arte e modos não lhe faltam. Poderá ele vir a concretizar o sonho do pai e chegar a matador de toiros?
O meu filho Tomás nasceu com umas condições naturais para o toureio, nas quais temos muita esperança, no entanto ainda é muito cedo para prever o seu futuro. O tempo o dirá.

Numa frase, como descreveria o percurso do bandarilheiro David Antunes?
Foi um homem que fez as coisas com amor pela profissão.