Crónica de Moura: "Fácil de contar: como os trabalhos das câmaras!"

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Soará difuso e até poderá parecer desprovido de sentido o título que estampa esta crónica, mas passo a simplificar a analogia, que de certo modo, simplifica a história de uma corrida em que um trabalha e dois vêm: como tanta vez acontece naquelas obras levadas a cargo por câmaras municipais, em que na rua vemos dez trabalhadores, mas a cumprir com o ofício, não estão mais que um ou dois. Soa-vos o paralelismo?

João Moura(s) (pai e filho) andaram precavidos, deram trabalho a quem lhes cobra (bandarilheiros) e se há mérito recordatório de algo que fizeram, que com eles partilhem os louros… Porque na obra de Moura, bem montada e com os detalhes minimamente cuidados, cumpriu Ventura com o seu ofício, denotando que inevitavelmente, há um distanciamento de figuras.

Venho da parte que acredita nos livros, que trazem o estudo do toiro e do toureio, que tenta meter na mente tudo e todos os conceitos possíveis, e por isso venha da parte que diz, que lidar um toiro é diferente de passar e deixar ferros, de manter um toiro no terreno e limitar-se a andar à deriva… e a diferença que vem nos livros, que cria estatuto, que emociona e empolga, foi um rejoneador que a logrou.

Mas passando à corrida propriamente dita, com destacamento óbvio e lógico para a empresa, que encheu a praça pelo mérito de conseguir um cartel rematado, ficando um primeiro grande reparo… os Toiros de Alves Inácio. Houveram, pelo menos, quatro toiros, sem trapio para a praça de toiros de Moura. Escorridos de carne, muitos dele sem remate, com apenas caixa e cara, mas nula seriedade e uma aparência anovilhada que foi maioritária. A sua disponibilidade e comportamento foi aliado para ocultar algumas das lacunas acima referidas, pois quase todos, incluindo mansos, tiveram momentos em que andaram e tiveram vontade, embora a falta de chama e raça tenha sido uma nota evidente, sendo visível que queriam mais do que podiam. O terceiro foi um bom toiro, o primeiro foi encastado, e o quinto faltou-lhe transmitir mais nas viagens e passar o trote para galope.

João Moura, homenageado pelos seus 40 anos de alternativa, teve por diante um toiro com 530 kg, negro e com pouca cara, para além de fechada. Harmónico e bem conformado, com hechuras para investir, mostrou-se disponível e pronto de início, humilhando no capote e sem restrições a se mover, até que começara a descair para vários e diferentes terrenos, e perdendo a ligação. João Moura pouco lidou, descurando mexer no oponente enquanto se viram capotes em excesso. De verdade, cravou dois ferros com o selo que fazem dele maestro, o primeiro e quarto, com reuniões de qualidade e de frente. Caiu no erro de cravar o palmo com o toiro já rachado e em tábuas, e o tempo tornou-se desgastante.

O quarto foi manso, doía-se após os ferros, distraído e sem selo. João Moura buscou andar diligente, mas a lide não teve argumentos para desenvolver, com passagens menos dotadas de critério e rigor, que aliadas a uma fase mais apática do público, fizeram com que não haja momentos a recordar.

Diego Ventura, que a par de João Moura, foi homenageado no pátio de quadrilhas pelos seus 20 anos de alternativa, deu o plano, encheu a praça, e da obra, foi quem mais consistência apresentou nos resultados. 

O primeiro Alves Inácio que lidou, com 495 kg, um autêntico novilho amorfo morfologicamente, sem presença e a carecer de um “torero enfermero” que lhe desse vida. Moveu-se com nobreza quando quis, foi mais brusco em outras ocasiões, mas nunca passou de um trotón sem clareza e sem definir-se para poder chegar a mais. Correcto Ventura com dois compridos, o segundo mal cravado e traseiro em demasia, cravando num espaço pequeno e de pouco movimento para a montada. Ladeou ajustado e tentando imprimir ritmo ao animal, levando-o dormido no seu estribo, mas o público não respondeu como pretendera, e os dois primeiros curtos que cravou, estruturados com intenção e cravados com qualidade, mas nulos de emoção pela falta chama do toiro. Mas quando sacou um cavalo novo, e que a quiebro cravou violinos, exultou o público como mola, oportuno Ventura e chegando aos leigos com facilidade, mas em termos de toureio, disseram muito menos que os anteriores.

O quinto, com 610kg, alto e comprido, mal feito e feio de cara, mas rematado e com mais praça que os irmãos de camada, serviu com prestância uma completa actuação do rejoneador luso-espanhol. Daquelas que se dá apreço até aos detalhes, porque se vê fazer bem e com intenção, e para além disso, sem descurar a mínima verdade do que é encarar o toiro e dar-lhe o peito de um cavalo. Dobrou-se em curto com facilidade, após uma sorte de gaiola quase sem ninguém esperar e que prendeu logo o público com impacto. Toda a lide foi gradualmente crescendo, com o toiro a adquirir mais emoção nos momentos de jurisdição, e aguentado disponível até não aguentar mais o poder e a lide que Ventura e as suas montadas lhe proporcionaram, tapando-lhe defeitos e mostrando-o melhor do que na realidade foi. Montando o Nazarí andou com classe e elegância costumeira, mas com expressão na cara do toiro, com uma sequência limpa e assertiva de ferros curtos. Antes de sacar o Dólar para o par final, cravou um ferro em sorte de quiebro que resultou emocionante pelas distâncias e como escapou o cavalo à investida. O par final, sem cabeçada, foi arrebatador e a praça caiu em delírio.

João Moura Jr. desaproveitou um bom toiro, que saiu em terceiro lugar. Animal com 505 kg, pescoço comprido, também ele sem remate e com pouco trapio, mas com fundo e muita qualidade, estando apenas limitado por falta de força e mais vida, porque saía de qualquer lado e imediatamente sob aviso do cavaleiro, com franco, com classe e nobreza, andado sempre perseguindo com a boca fechada. Moura Jr. optou por dar-lhe distâncias largas, com decisões nem sempre acertadas nos terrenos elegidos, e desvirtuar todas as potencialidades do animal com câmbios que fizeram das reuniões momentos sem emoção e sem ajuste. Infelizmente, e já foi tarde, apenas no último curto, que o decidiu encarar de frente e sem lhe dar o engano de trajetória, cravou um bom ferro.

O que fechou a noite, lomo recto, negro listón com 515 kg, tinha uma córnea bonita e bem armada, mas também ele não evidenciou trapio salutar. Toiro informal e sem muito conteúdo, pedia que o provocassem e o fizessem sentir desconfortável para lhe avivar a alma para a luta, e cavaleiro de Monforte sentiu isso quando lhe pisou os terrenos de compromisso e o sentiu mais perto das montadas, que fora unicamente no final da lide, em que logrou duas bandarilhas com melhor visibilidade e uma pirueta ajustada que acordou o público.

Em noite de comemoração dos 47 Anos do Real Grupo de Forcados Amadores de Moura, noite hostil e difícil em várias ocasiões para a jaqueta mourense, que suplantou dificuldades.
Gonçalo Borges abriu praça frente a um toiro que entrava com tudo e impunha dificuldades com derrotes desconcertantes e altos, tendo consumando com valentia ao quarto intento; Gonçalo Malato foi escalado para pegar o segundo. Mediu bem os tempos e o toiro saiu a meter bem cara, mas a chegar ao seio do grupo humilhou em demasia e o forcado saiu por baixo, tendo depois sido colhido com violência e dobrado por David Carvalho, que consumou à primeira tentativa, segunda do conjunto; Márcio Zeferino, com uma reunião mais ortodoxa a seu jeito do que brilhante e bem conseguida, pegou com correção à segunda tentativa, com o grupo bem a ajudar; João Cabrita pegou o quarto à segunda tentativa, um toiro que entrava duro e metia a cara com poder, aguentado o forcado de braços e em que se não há lacunas nas ajudas, poderia ter resultado numa grande pega na primeira tentativa; O quinto, com 610kg, foi pegado de cernelha por Rui Ameixa e Fernando Navas, realizando duas entradas, sendo que na segunda, o intento consumou-se; Cláudio Pereira fechou uma noite dura e séria para o grupo, com o habitual cite sereno e de forcado feito e experiente, mandando com garbo e sabendo estar na cara do toiro. Consumo no segundo encontro.

Dirigiu sem grandes problemas de gestão o Sr. Agostinho Borges, sendo a corrida abrilhantada a nível mediano pela Banda “Os Amarelos” de Moura.

Por: Pedro Guerreiro
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