Pelo ambiente, pela condição, pelo espírito. Passava o tempo, e era só mesmo isso que se passava em Moura... Tempo. Interminável, fatigante por falsetes mal cantados e que não chegavam ao tiple, mas que por sombras pareciam querer afinar... mas ontem, nem por sombras, e desejei várias vezes que as luzes nunca tivessem voltado a acender depois da procissão.
A José de Almeida andou pela meia casa bem composta, para mais do que para menos, e agora arranjar desculpas para isto... Benfica? Frio? Cartel que com a sua qualidade, não tinha nenhum grande pressuposto? Feira? Fim do verão? O empresário, da terra, merecia outra consideração.
Do Vidigal veio até Moura um curro com o ferro Pinto Barreiros.
Pecando por toureabilidade, sobrou-lhe em exigência e altivez. Três toiros com presença digna para sair a uma praça como Moura, três com presença digna de festival. Houve de tudo, desde o manso encastado, ao informal com poucas intenções, o difícil e poderoso e o bravo. Pediram lide e contas, e avaliando a globalidade do curro, ficou aquém do perspectivado.
Vivemos um momento de imponente lúgubre ao início.
A procissão das velas transmitiu muito, tão subtil mas tão tocante, com um nome no sentido de todos... Até ao momento do minuto de silêncio. Sentimos-te ali connosco Pedro, e já não esperava mais o regresso da luz à arena. Tu estavas ali, nós estávamos contigo, sentimos e recordámos-te...
Filipe Gonçalves não se entendeu com o abreplaza. Pesou 510Kg o negro de Pinto Barreiros. Pediu muito toureiro por diante, sendo um toiro com maiúsculas. Investia de todo o lado, com notada codícia, vontade e disponibilidade. Partia de largo com andamento de bravo, no capote tinha o problema de meter as patas sempre pela frente e só pecou por raspar e revelar-se algo pegajoso no início, ficando-lhe mais por ver. O cavaleiro algarvio dispersou da qualidade do seu oponente, passando várias vezes em falso e com falta de sítio sempre que procurou encará-lo para lhe quebrar investida. Quando mudou a montada, e a atitude, cravou o ferro da corrida, correcto e a respeitar todos os tempos, antecedendo um bom par que não lhe catapultou a actuação, mas que lhe valeu maior moral.
O quarto... anda alimaña! Pesava 520Kg, e desafiou Filipe Gonçalves qual McGregor vs Mayweather... Com génio de manso, e um fundo de casta com muito poder, fiero, passou a lide a apertar, com muita pata a perseguir sem cessar, fazendo-se sentir na bancada e dominando a arena. Agarrou várias vezes o cavaleiro, sem se registar danos maiores, e até um bandarilheiro lhe provou à aspereza. Esforçado andou o cavaleiro, que tentou lidar com ele mas que se viu apertado para lhe dar lide, terminando diminuído e sem lograr destaque, mantendo o toiro o ambiente mandão que sempre impôs.
João Moura Caetano viu o seu primeiro toiro ser devolvido por aparente lesão motora, e lidou em terceiro lugar o segundo toiro do seu lote.
De pinta colorada, faltava-lhe remate e presença, lavadito de cara e para além de mal apresentado, foi daqueles que querem enganar o povinho, mas rachou com celeridade e dificultou a tarefa de Moura Caetano, que pode gostar-se no primeiro comprido, cravado com impacto e acerto. Do que restou, foram várias tentativas de tirá-lo dos seus terrenos, de motivá-lo e pedir-lhe a virtude que apontava ter, mas não houve resposta e consequentemente, nada para contar.
O quinto, algo mais escuro que colorado, revelou cedo que pouco fundo ostentara, e nenhum selo, sempre desinteressado e passando por calão.
Mexeu-lhe pouco o cavaleiro, cravando a ferragem da ordem, menos ortodoxo que o que se deseja, e sem estalar no tendido...
Uma estampa de toiro foi o segundo, anunciado com 580Kg, Castanho, bem armado, sério por todos os lados, com trapio. Pareceu algo malvisto e careceu de motor para lhe mover com raça o esqueleto, não facilitando no capote onde andou à defensiva e quase sempre rebrincado.
Francisco Palha não foi propriamente feliz na maioria das abordagens, crescendo apenas no final com vários adornos que chegam com maior força à bancada, embora isso, não tenha sido o que de melhor fez, que isso viu-se no terceiro curto, que cravou com muita decisão e com mais asseio que os anteriores.
O sexto, negro, culopollo e cubeto, pareceu bipolar pelo que mostrava num momento e contrariava logo no seguinte... O jovem cavaleiro ribatejano andou metido com ele e até podia ser que a coisa resultasse. Mas a noite ia (muito) longa, várias pessoas haviam já abandonado os seus assentos, e mais que o tal Pinto Barreiros fiero, mandava o frio... E o que procurou dar à prestação com os remates finais não foi suficiente para fazer subir muito a temperatura.
Como é hábito e tradição, a corrida da Feira de Setembro é a do aniversário e dos seis toiros do Real de Moura, que provaram (mais uma vez) em praça, que merecem contractos, num ano de fraca actividade para esta importante e histórica jaqueta do baixo alentejo.
João Cabrita pegou bem o primeiro, que veio fácil e por direito; Cláudio Pereira aguentou uma investida com altura, mas o grupo respondeu bem e o forcado mostrou querer para ficar numa primeira tentativa com brilho; Rui Branquinho não reuniu perfeitamente mas fechou bem de braços, com os restantes elementos a denotarem rapidez nos momentos chave para fechar a pega; O toiro de Xavier Cortegano veio muito humilhado, e de baixar tanto a cara impossibilitou o forcado de se manter na sua cara. No segundo encontro voltou a investir por baixo, mas o forcado aguentou e o grupo esteve bem ao entrar e ajudar o toiro na investida, dando conforto ao cara; O cabo, Valter Rico, fez valer o par de braços poderosos que ostenta para consumar ao segundo intento, depois de reunir sem a habitual qualidade; Gonçalo Guerreiro fez o que lhe competia e o Pinto Barreiros foi agradecido, fechando-se muito bem e selando com mérito a encerrona do Real Grupo de Forcados Amadores de Moura.
As três longas horas de corrida foram dirigidas pelo Sr. Agostinho Borges, sem grandes situações a registar, a não ser a luz que bem podia ter faltado, porque ontem, nem por sombras...
Pedro Guerreiro