Ainda que sabendo que na Tauromaquia a incerteza é uma constante, confesso que esta quinta-feira fui à Praça de Toiros do Campo Pequeno “a contar com o ovo” na cloaca da galinha, e enganei-me redondamente!
Padilla veio a Lisboa e não saiu pela Porta Grande.
Pela 3ª vez, esta temporada, o toureiro espanhol viu-se anunciado no abono lisboeta. Um acto compreensível e justificado desde a temporada passada, quando Padilla se tornou no novo herói de Lisboa, enchendo a praça de gente que o aplaudia por tudo e por nada, de noites que pareciam encenadas e que culminavam (sempre) com a abertura da Porta Grande.
Padilla nem precisava de fazer muito, o que fizesse servia e acomodou-se ao público de Lisboa sabendo dar-lhe o que ele queria! A empresa sempre manifestou o desejo de “cada corrida, um acontecimento” e ganhou no matador de toiros jerezano um filão de ouro… Juan José Padilla era ‘acontecimento’ garantido.
Na passada quinta-feira, a “pepita” de ouro de Lisboa não se entendeu com os oponentes ou melhor, desconfiou-se dos toiros e ao invés da Porta Grande encontrou o amargo dos assobios.
E tudo porquê?
Porque se recusou a bandarilhar o seu segundo toiro como era desejo da freguesia, a que acresceu a má prestação dos seus bandarilheiros de serviço nesse tércio. Houve vaia que soou certamente até ao Rossio, e uma “exigência” por parte das bancadas que peca por tardia...
Juan José Padilla tem todo o mérito e valor que nos merece um toureiro, uma figura e principalmente ele, pela prova de superação que passou e contornou. Pelo que Padilla também tem direito a prestações menos felizes. Não tem tão pouco a obrigação de bandarilhar os seus toiros, como na grande maioria das vezes não o faz. Mas o público de Lisboa, o mesmo que lhe tem garantido as ‘portas’, queria vê-lo bandarilhar e Padilla não lhes respeitou a vontade. Falta de respeito aliás que começou logo antes das cortesias, quando uma vez mais se fez tardar a sair do pátio de quadrilhas, valendo-lhe dois avisos por parte da ‘inteligência’.
A noite pouco prometia a Padilla e isso sentiu-se logo quando na faena do seu primeiro toiro, este não lhe saiu de feição. Um toiro de Manuel Veiga com 480 kg, que se ‘queixou’ o tempo todo e frente ao qual Padilla só entusiasmou…nas bandarilhas, tércio que o público português valoriza bastante (e em demasia). De capote foi ofuscado pelo quite de Dias Gomes, e na muleta deu um ar de sua graça por entre meia dúzia de tandas isoladas numa faena que nunca rompeu.
No que foi quinto da noite, um animal bem apresentado, com cara e 510 kg de peso, Padilla mal se viu de capote e também não quis ver o toiro, pelo que se recusou a bandarilhar. Se isso já foi difícil de tragar pelas bancadas, piorou pelo desempenho dos seus subalternos que nem um par conseguiram deixar no toiro, tal a desconfiança que fizeram do animal. Um coro de assobios como há muito não se ouvia em Lisboa. Padilla manteve-se hirto na arena até que se extinguissem os ‘pitos’. Ainda se fez séria a faena aos inícios de muleta, com o toiro a humilhar, fixo na flanela e a lograr muletazos com ligação, aos quais ainda ‘coloriu’ com alguns desplantes. Contudo, deixou-se desarmar por várias vezes, e entre o “toca a música e o pára a música” e o pouco confiado que andou, regressou a contestação. Uma noite atípica para Padilla em Lisboa! Acontece a todos…
Manuel Dias Gomes regressou a Lisboa depois do triunfo da temporada passada naquela praça e voltou...para triunfar. O jovem carece de oportunidades, como todos os outros matadores e novilheiros lusos mas demonstrou no Campo Pequeno, uma praça onde até se cancelam corridas por “falta de viabilidade” e de “acordo com toureiros”, que está feito para a guerra e para mais contratos.
No seu primeiro, animal com 504 kg e que não se fixava, Manuel Dias Gomes manteve a paciência e o valor de saber cuidar da rês e procurar dar-lhe sitio onde a mesma o quisesse. Praticamente deu uma volta ao ruedo, sacando a custo os muletazos e sendo o seu labor reconhecido nas bancadas. Já no capote, andou elegante e variado como é seu timbre.
No último da noite, reafirmou o valor e a disposição que leva dentro frente a um toiro com 491 kg que nem sempre foi cómodo a passar na flanela. Ainda assim, Dias Gomes soube, tanda após tanda, dobrá-lo e lograr uma faena de mérito. Iniciou de joelhos a função de muleta, seguindo-se estatuários pela frente e por trás, e tudo o resto, foi resultado da enorme vontade do jovem toureiro. Arrimou-se, mostrou-se e ainda deixou roçar na taleguilla um toiro que não era dos de corda. Havia que se confiar muito para se andar assim tão confiado neste toiro, e Dias Gomes não só se confiou como transmitiu essa confiança ao público do Campo Pequeno. Dizia ele há dias “Quero conquistar a afición de Lisboa”, pois penso que conquistou!
E para um bom toureiro, boa quadrilha. Cláudio Miguel, João Oliveira e João Ferreira foram portentosos praticantes da arte de bandarilhar.
Luís Rouxinol passou discreto e sem história no seu primeiro. O toiro de Vinhas, com 580 kg, tinha pouca cara, foi reservado, manso aos arreões e com o qual o cavaleiro não se entendeu. Quis impingir logo na ferragem comprida a moda dos ladeios, a qual deixou com regularidade. Mas cedo constatou que o toiro não lhe ia facilitar a vida. Pegou na estrela da sua quadra, a ‘Viajante’ mas nem assim se safou. O toiro esperava muito, condicionando o ofício do cavaleiro, ao qual a pouca disposição da calejada, e quiçá cansada égua, também não ajudou. Consentiu alguns toques e resolveu abreviar recorrendo aos ferros violinos e já com outra montada.
No que foi segundo do seu lote, a sorte melhorou para Rouxinol. O toiro com 550 kg, tinha pouca força e foi também reservadote, sendo de melhor investida pela frente do que a perseguir após os ferros, mas ainda assim, permitiu que o cavaleiro de Pegões deixasse ambiente em Lisboa, com o público a exigir-lhe ferro após ferro. Voltou a satisfazer com os compridos, para nos curtos e com o Douro, entusiasmar com os ladeios e a brega ajustada que o cavalo permite sem se deixar tocar. A actuação foi em crescendo, à qual não faltou o par de bandarilhas e os ferros de palmo. No final, Rouxinol tinha Lisboa rendida à sua actuação.
Os Amadores de Santarém demonstraram no Campo Pequeno a solidez e a eficácia do grande Grupo que são. Primeiro, por obra de António Taurino, que citou com galhardia, recuou e esteve bem a receber numa valente e rija pega, cuja viagem foi até tábuas, e ainda assim durou, sendo eficaz a restante fardação. Depois, pelos braços de Francisco Graciosa, com uma boa pega também à primeira, e onde o grupo coeso ajudou a consumar com decisão.
Lidaram-se toiros da ganadaria de Vinhas para as lides a cavalo, e de Manuel Veiga para as actuações a pé, sendo no geral animais mansos e reservados.
Dirigiu esta corrida o sr. Manuel Gama, assessorado pelo veterinário Dr. Jorge Moreira da Silva, com as bancadas a verem preenchidas cerca de ¾ de casa, e onde decorreu nas cortesias um minuto de silêncio em memória do matador de toiros espanhol Dámaso González e do jovem forcado dos Amadores de Cuba, Pedro Primo.
E na que foi a penúltima corrida de toiros da temporada de abono em Lisboa, fui “a contar com o ovo” e afinal…a Porta ficou fechada.
Por: Patrícia Sardinha