Sobre a noite 'mágica' em Lisboa: "Não se escrevem crónicas a Morante"

NATURALES
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Não se escrevem crónicas a Morante, 

Pois não têm temple, não conseguem contar o princípio, nem o fim ou qualquer outra parte. 

A Morante dedicam-se antes poemas, cantes... 

Porque esses sim sabem de arte. 



Num Campo que é Pequeno, 

Sobrou naquela noite pouco espaço à disposição. 

E quando rompeu no paseillo o toureiro, a figura, de ar altivo e sereno, 

Cresceu nas bancadas o delírio, as palmas e a admiração. 



Abriu tércio o cantante. 

Diego El Cigala toda a noite entoou em palavras as faenas desejadas. 

Mas era da arena, por Morante, 

Que mais música chegava às bancadas. 



Dos quatro de Zalduendo, animais de pouca cara, 

Foram nobres e colaborantes, o que abriu e o que fechou função. 

Aos outros, os de má compostura a investir, 

Não esteve o artista para perder tempo, abreviou e dali lavou as mãos. 



Logo frente ao primeiro viu-se a Morante o que mais o público lhe estima. 

Aquela mão quando toca no capote, faz sonhar, faz vibrar, 

Aquela mão quando toca no capote faz rima! 



Depois com a flanela, 

Lá foi bordando por salteado, 

Ora mais arrimado, com um toureio perfumado a canela,

Ora mais solto, mais despegado. 



Mas valeram-lhe olés por todo o lado, 

Das bancadas, da trincheira, da tribuna,

E até de quem assistia mesmo de olhos fechados. 



Foi no último que se fez mais caro aquele momento, 

Com um toureio de fina postura, 

Houve tandas infinitas de fazer parar o tempo…

Olé Morante artista! Olé Morante, Figura!



No final, e porque o ambiente estava criado,

Aplaudiram-no de pé, em grande saudação.

Pela sua quadrilha numa volta ao ruedo foi sacado.

E depois, depois a noite de Morante ficará na recordação.





Patrícia Sardinha