Crónica do 2º Festival Taurino em Mourão: "O pequeno grande valor"

NATURALES
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O pequeno grande valor

Fazendo jus à tradição, cumpriu-se na data, 1 de Fevereiro, o tradicional Festival Taurino em Honra da Senhora das Candeias, que este ano acabou por já ser o segundo da Temporada.

Para quem desconhece, este festejo foi-se moldando ao longo das últimas décadas, sendo nos seus inícios em formato 'vacada', quando se soltavam uns animais para a arena, cada um fazia o que queria, e guardava-se para o final o 'Toiro da Nª Senhora', o maior que o ganadero dispensasse e que depois de 'toureado' se matava na praça sendo a carne depois oferecida (mais tarde passou a ser vendida) nessa mesma noite do 1 de Fevereiro aos mouranenses.

A comemoração foi depois ganhando força e mais seriedade, muitos dos toureiros que hoje conhecemos, do passado ou actuais, nacionais e internacionais, passaram por Mourão. Relembro por exemplo, que a primeira vez que o José Mestre Batista se apresentou em público foi neste Festival da Senhora das Candeias, tinha ele 13 anos de idade.

Durante muitos anos,  e já neste formato de espectáculo mais sério, manteve-se o gesto do último toiro da tarde ser morto na arena, o que acabou banido de vez há coisa de uns 15-20 anos.

Desde então, ganhou força o registo 'misto', uns anos com mais boas intenções que outros, outros anos com mais figuras que outros...mas que aos poucos foi chegando aos ouvidos dos aficionados, que finalmente descobriram Mourão no mapa, e passou a ser quase obrigatório cumprir presença nesta praça alentejana a cada 1 de Fevereiro.

Vem toda esta conversa a propósito de que o Festival Taurino de Mourão, independentemente de ser numa vila e praça pequena, tem ao longo dos anos sido de muito valor e de grande contributo para a Festa dos Toiros.

Este ano, quis a ideia de um homem, que em vez de um fossem dois Festivais. Um mais 'luxuoso' que o outro mas ambos com interesse. Do primeiro falámos ontem, um sucesso a todos os níveis, do segundo fica-nos hoje para registo a oportunidade dada a gente jovem e a importância que este Festival pode ter futuramente para eles.

Lidaram-se reses de várias ganadarias, António Raúl Brito Paes, Joaquim Brito Paes, Falé Filipe, Passanha Sobral (2) e Murteira Grave, sendo toiros os lidados a cavalo e novilhos os do toureio a pé. No geral, todos se deixaram, um ou outro com mais 'queixas' mas nada que impusesse dificuldades de maior.


António Brito Paes destacou-se dos alternantes pela regularidade da sua actuação, fruto também da experiência que leva de avanço. Pela frente um toiro de boas condições da ganadaria de seu pai, António Raúl Brito Paes, bem apresentado, colaborante, com andamento, sempre a perseguir, e a quem o cavaleiro empregou uma lide cumpridora e de onde se destaca a brega e o terceiro curto da ordem. Um bom presságio para o jovem toureiro da temporada que agora se inicia.


A Francisco Palha tocou-lhe o de Joaquim Brito Paes, também ele bem apresentado, ligeiramente distraído, sendo por vezes mais reservadote. O cavaleiro foi protagonista de uma actuação intermitente, pois por entre muita disposição, acabou marcada por alguns ferros falhados, passagens em falso e toques nas montadas. Tentou mostrar-se nos ladeios e recortes mas o toiro a passo e a pouca transmissão, fizeram disso sol de pouca dura.


Parreirita Cigano filho, em substituição do lesionado Salgueiro da Costa, lidou o de Falé Filipe, outro animal colaborante e a quem um derrote ao sair na parede ainda pôs em causa a sua continuidade...mas ficou. O jovem demonstrou sentido de lide, cheio de boas intenções, aguentando muitas vezes a pouca distância mas nem sempre concretizando a ferragem com sucesso, descompondo algumas vezes as sortes. Destaque para o último ferro da sua actuação, de boa nota.




Nas pegas, resolveram a papeleta os Amadores de Monsaraz por intermédio de David Silva que depois de um primeiro intento em que não se aguentou na cara do toiro, consumou com uma pega rija ao segundo intento; Nelson Campaniço sem problemas e com o grupo coeso efectivou à primeira; e André Mendes também à primeira e sem complicações.



No toureio a pé, foi o matador Paco Velásquez quem abriu as hostes frente a um novilho de Passanha Sobral, pequenote, com alguma nobreza mas a solicitar mando para que se arrancasse, vindo de menos a mais. E também assim Paco foi construindo a sua faena, tímida inicialmente, por entre passes isolados, até se sentir mais disposto e a conseguir bons pormenores principalmente pela direita. Houve acima de tudo muita disposição por parte do toureiro.






O novilheiro espanhol Juan Carlos Carballo exibiu elegância de capote. Pela frente outro Passanha Sobral, bonito, com recorrido e que permitiu ao toureiro uma série de tandas profundas e ligadas com a muleta na mão direita. Toureiro de raça, foi construindo uma faena que soou interessante nas bancadas, rematadas com muito desplante toureiro.








A Paula Santos tocou-lhe o de Murteira Grave, animal com algum génio, sentido e a derrotar a cada passe mas desenganem-se os que acharam que a pequena Paula se entregaria à derrota. De capote foi de joelhos que o recebeu e sacou os 'olés' mais fortes da tarde. Mas foi quando pegou nele, já de flanela na mão, e o levou para o centro da arena, que a partir daí foi ela que impôs a sua genialidade e mandou na faena o tempo todo. Valor não lhe falta e arte também não. Muito caminho pela frente, mais ainda agora quando se diz que a jovem se 'transferiu' para a Escola de Toureio de Badajoz, onde as oportunidades e a exigência passarão a ser outras. Em Mourão, em momento algum lhe vimos na cara ar de desânimo ou dúvida, pelo contrário, de entre a sua inexperiência, sentiu-se que crescia a cada passe, marcou o ritmo e triunfou.

E é em jovens como a Paula Santos que entendemos o grande valor que podem ter os pequenos pormenores, as pequenas coisas...

O segundo Festival Taurino deste ano em Mourão voltou a ser dirigido pelo director de corrida Agostinho Borges, assessorado pelo veterinário Matias Guilherme e abrilhantado pela Banda Municipal de Mourão, registando 3/4 de casa.

E no ano em que Mourão se estreou com dois espectáculos consecutivos, falta apenas aqui realçar a nota positiva para a organização exemplar, profissional e de qualidade.

Provou-se que Mourão é pequeno mas quando a vontade é grande...tudo tem valor!