Os sofrimentos de uma mãe, mulher e irmã de toureiros : Rosa Maria Banha Vieira Pedro foi homenageada pela tertúlia “El 27

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SANTAREM / VILA FRANCA DE XIRA (O MIRANTE // NATURALES, Correio da Tauromaquia Ibérica)
A tauromaquia esteve sempre associada à sua vida, como esposa, irmã e mãe de bandarilheiros. Rosa Pedro viveu sempre nos bastidores da festa brava, mas a tertúlia “El 27” trouxe-a para as luzes da ribalta, prestando homenagem à mulher de coragem que sofre anonimamente em silêncio enquanto os homens dão a cara na arena.
Tem um só coração mas às vezes seriam precisos mais dois, para quem sofre em triplicado nas bancadas da arena. Rosa Maria Banha Vieira Pedro, 53 anos, mãe, mulher e irmã de toureiros, sofre sempre em silêncio e de coração apertado de cada vez que o marido, os dois filhos e o irmão enfrentam o toiro. Esposa do bandarilheiro João José Vieira Pedro e irmã de Jacinto Fernandes Banha, Rosa Pedro viu ainda os dois filhos, Ricardo Pedro e João Pedro “Juca”, seguirem o trilho traçado pelo pai.
Foi a pensar em quem sofre nos bastidores da arena que a “El 27” prestou homenagem a Rosa Maria, no dia 7 de Março, em vésperas do Dia Internacional da Mulher, lembrando e reconhecendo o mérito de todas as mulheres que estão por trás das figuras de proa da festa brava ribatejana. A tertúlia taurina vilafranquense organizou um almoço de tributo no Clube Vilafranquense onde fizeram questão de estar presentes cerca de sessenta pessoas, entre familiares e amigos.

Rosa Pedro recorda dois momentos de grande angústia no seu percurso de mãe e esposa de bandarilheiros. “O primeiro foi quando o meu filho “Juca” tinha apenas alguns meses de idade e o meu marido levou uma cornada muito grande, no Algarve. Teve de ser operado e sofri muito nessa altura sem saber o que podia acontecer”, lembra emocionada. “O outro momento foi também uma cornada muito grande que o meu filho Juca levou na Figueira da Foz. Ainda hoje tem a costura marcada na boca. São imagens muito violentas para uma mãe”, explica.
Apesar de saber que a actividade tauromáquica é arriscada Rosa explica que prefere acompanhar a família na arena. “Prefiro saber logo na hora tudo o que acontece, seja bom ou mau. Não aguento ficar em casa sem saber. Acho que sofro mais e é uma angústia maior, ficar a pensar se alguma coisa terá corrido mal”, diz-nos.
Confessa que no momento em que soube que os filhos iam seguir as pegadas do pai sentiu um misto de alegria e de dor. “Fiquei orgulhosa porque sou aficionada e gosto muito dos toiros, mas como mãe sofre-se sempre muito mais porque há sempre aquele instinto maternal de protecção e de não querer que nada de mal lhes aconteça”, realça.
O marido admite que “não é fácil”, mas diz que Rosa Maria tenta não transmitir essa angústia e esse sofrimento quando entra na arena. “Isso é muito importante e é o principal numa família de toureiros”, explica, enquanto Rosa Maria vai acenando com a cabeça e concordando. Já Jacinto diz que durante o correr das lides já a viu “meter muitas vezes as mãos à frente dos olhos, quando as coisas não correm bem”, mas sublinha que é “uma grande bênção” no final da corrida poder partilhar a glória com a irmã.
Rosa Pedro agradeceu a todos a homenagem, de forma emocionada. “Sou uma pessoa pequenina mas hoje aqui fizeram-me sentir grande”. “Considero que este é um reconhecimento merecido a todas as mulheres e não só a mim, porque o papel de todas estas mulheres nunca tinha sido reconhecido até hoje”, concluiu, de lágrimas nos olhos.

Um amor que nasceu do infortúnio
Salete Costa e José Russiano conheceram-se em circunstâncias pouco normais. No dia 28 de Maio de 2006 Russiano foi tourear à Azambuja com o matador Nuno Velásquez, e quando ia a meter um par de bandarilhas levou uma cornada do touro e teve de ficar internado uma semana e meia no Hospital de Reynaldo dos Santos, em Vila Franca de Xira.
Foi nessa altura que conheceu Salete Costa, que era enfermeira no hospital. “Nos últimos dois dias de internamento fui eu que fiquei responsável por ele. Começámos por conversar e descobrimos que tínhamos amigos em comum, aqui em Vila Franca”, explica.
Daí até ao casamento foi apenas um passo. Salete e José começaram a encontrar-se fora do hospital e foram reforçando a relação até darem o nó definitivo. Para a enfermeira, o sofrimento de estar casada com um bandarilheiro é ainda maior do que para a maioria das mulheres. “ É muito difícil, porque eu vivo a tauromaquia de uma forma diferente. Recebo-os no hospital e vejo as coisas que acontecem e sei que há probabilidade de acontecer com o José, como já aconteceu no passado, e isso é muito complicado. Sofro mesmo muito”, confessa.
Ainda assim, Salete diz preferir ficar a sofrer em casa do que ir à arena assistir à corrida de touros. “Acho que é pior na arena. Prefiro ficar em casa, de coração muito apertado, à espera do telefonema a dizer que correu tudo bem”, conclui com um sorriso.

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