LISBOA (Marta F. Reis, jornal I, 4 janeiro 2010) .- Os touros de Joaquim Grave acumularam prémios em 2009. A ganadaria Murteira Grave, concelho de Mourão, venceu a melhor corrida do Campo Pequeno e teve o galardão de animal mais bravo numa feira de Cáceres. Contudo, no balanço final, há uma quebra de 30% na facturação. Em Espanha, a crise meteu água no sector tauromáquico, com reflexos em terras lusas. No país da "fiesta brava", ficaram por lidar quatro mil touros, que alguns empresários temem que aumentem a concorrência com as produções nacionais. Para o ganadeiro de uma das criações de touros de lide mais prestigiadas no país, não há razão para alarmismo. Os primeiros números do tauromaquia nacional para 2009 contradizem o mau agouro ibérico: segundo a Associação Portuguesa de Criadores de Toiros de Lide (APCTL), no ano passado houve 331 espectáculos e 757 mil espectadores, um recorde nos últimos anos. Foram lidados 1984 touros, de uma produção nacional à volta dos 2000. Para os responsáveis do sector, o renascimento da aficción em terras lusas, impulsionado pela adaptação dos criadores às necessidades do mercado e por uma folga nos preços, garante, para já, uma rasteira à crise.
"Nem optimismo, nem pessimismo: expectativa." É desta forma que João Santos Andrade, presidente da APCTL, encara o futuro das touradas em Portugal. Apesar de ainda não haver números oficiais da Inspecção-Geral de Actividades Culturais, as principais associações já fizeram as contas a 2009. Na praça do Campo Pequeno, vista como um barómetro, houve uma lotação média de 87%, com 5700 espectadores por espectáculo. Para José Fernando Potier, da Associação Nacional de Grupos de Forcados, outro bom indicador são as transmissões televisivas: "Foram transmitidas umas seis ou sete corridas na televisão, e mesmo assim havia praças cheias, o que significa que o público não fica só em casa."
A quebra em Espanha tem a ver com os espectáculos promovidos por câmaras de cidades mais pequenas, onde a crise e o desemprego venceram a tradição, explicam os responsáveis. "Como houve menos 20 a 30% de espectáculos, sobraram touros", justifica Paulo Caetano, vice-presidente do Sindicato Nacional de Toureiros. Em Portugal, as sobras de touros são residuais. À produção das 95 ganadarias nacionais, somaram-se 130 touros importados. "Em Portugal, a crise sente-se, até porque os preços de aluguer dos touros têm vindo a baixar com a concorrência de Espanha", comenta João Santos Andrade.
Adaptação Para o balanço positivo contribuem algumas estratégias de adaptação. João Queiroz, director da revista "Novo Burladero", refere que a baixa nos preços das bilheteiras acabou por aumentar o fluxo de espectadores. Os criadores também passaram a ser mais comedidos, adianta João Santos Andrade. "Há uns anos a produção era excessiva, mas os ganadeiros conseguiram equilibrar o número de touros necessários graças à introdução de raças de carne", adianta.
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