RAUL SOLNADO E HUMBERTO MADEIRA
Tourear tão mal como um Cantinflas
por FERNANDO MADAÍL, in DIARIO DE NOTÍCIAS
Em 1966, os dois populares cómicos participavam numa garraiada a favor da Liga Portuguesa contra o Cancro e eram comparados com o (então) famoso actor humorístico mexicano .
"A praça inteira de pé (porque a rir ninguém se aguentava sentado) aplaudiu os 'espadas' sem par." O destaque do Diário de Notícias de 10 de Outubro de 1966 não noticiava uma faena com Diamantino Viseu ou com Manuel dos Santos - nem sequer com a participação exuberante de Ricardo Chibanga, o moçambicano que ainda não se tinha estreado nas lides. O "mano-a-mano do ano" era, pois, entre Raul Solnado, o cómico intemporal, e Humberto Madeira, que ganhara o apelido de "milionário do riso".
"Espectáculo inédito e inconcebível - como fora anunciado - a garraiada de ontem no Campo Pequeno, a favor da Liga Portuguesa contra o Cancro, foi isso mesmo e mais ainda: um êxito de bilheteira e de... bom humor", descrevia o jornal. "Poucas vezes terá sido vista a multidão de pé [naquela praça de touros], como ontem aconteceu, até porque a vontade de rir era tal que poucos se aguentavam sentados." As fotos parecem confirmar tudo o que se escreveu nesta página do DN.
"Na verdade, esses dois grandes actores cómicos, tão queridos do público, Humberto Madeira e Raul Solnado ou Raul Solnado e Humberto Madeira, ambos são primeiros em popularidade, tudo fizeram (e conseguiram-no) para que o espectáculo resultasse da maneira mais sorridente possível. E houve quem chorasse a rir." Desconte-se o exagero. "Aquele mano-a-mano entre El Solnado e El Madeira foi de antologia."
Pouco importa o resto do cartel da festa, em que quase todos demonstravam "natural falta de experiência" ou, então, executavam números como o do "touro que salta barreiras como os cavalos" ou um "outro que se deixa montar e ajoelha em frente dos cavalos com invulgar cortesia" - e a actriz Florbela Queirós, no final do espectáculo, distribuía presentes aos participantes.
Mas o que interessava era mesmo ver a actuação dos dois espadas da gargalhada. "Humberto, como medida de precaução, apareceu a certa altura com o característico chapéu viking; Solnado preferiu um elmo branco dos guerreiros antigos."
"Humberto e Solnado trabalharam ao máximo para divertir o público, foram incansáveis, demonstrando ambos grande poder de imaginação e a mais profunda e natural ignorância da arte de tourear, o que era, precisamente, o que o público esperava." E, como remate deste raciocínio elogioso: "Nem Cantinflas conseguia melhor."
A comparação era compreensível na época, dada a fama da figura criada pelo actor mexicano Mário Moreno, de bigode aparado e com mais de 40 filmes, incluindo Ni Sangre ni Arena, uma sátira às touradas. E embora Solnado também tivesse participado no grande filme português ambientado nas corridas de touros, Sangue Toureiro, a película de Augusto Fraga estreada em 1958, não tinha desempenhado um papel cómico. E, no entanto, entre Cantinflas e Solnado, talvez o português fosse melhor na faena do riso.