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NATURALES
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Grande Perera sem Toiros

Campo Pequeno, 3 de Setembro, 2009

A penúltima corrida de abono da temporada no Campo Pequeno voltou a surpreender pela presença de público que preencheu mais de3/4 de casa. Contudo atrevo-me a dizer que foi pouco tendo em conta que estaria em praça uma das maiores Figuras actuais do toureio a pé, mas já diz o povo que “dá Deus nozes a quem não tem dentes”. Mas se a empresa apostou correctamente na contratação do matador extremeño, não o fez do mesmo modo, com o mesmo ‘olho certeiro’ na escolha dos toiros. Valha-nos Perera para fazer “omeletas sem ovos”.

A corrida, que foi televisionada, ficou marcada inicialmente por dois momentos de emoções, primeiro um minuto de silêncio à memória do cavaleiro José João Zoio falecido esta semana, e segundo por uma bonita homenagem ao bandarilheiro António Badajoz pelos seus 60 anos de alternativa de toureiro de prata.

Os toiros de Ortigão Costa para as lides a cavalo, tiveram apresentação, diminuído de uma das mãos o lidado em primeiro lugar, mais reservado o segundo mas no entanto serviram apesar da pouca transmissão; para as lides a pé os toiros de Herdeiros de Varela Crujo tiveram desigual desempenho, escassos de força, com alguma nobreza o que saiu em terceiro lugar, inviável o lidado em segundo.

João Telles Jr. efectuou duas lides muito similares dentro do estilo toureiro a que já nos tem habituado. Esperou o primeiro toiro, com 578 kg, à porta gaiola mas não foi feliz na ferragem comprida que resultou irregular. Nos curtos abriu por vezes demasiado a sorte, mas ainda assim concretizou com mais sucesso a ferragem apesar da rês ir a menos com o decurso da lide. Empolgou as bancadas com o ferro violino seguido de um de palmo com que encerrou actuação. No seu segundo toiro, com 588 kg, de pouca investida, voltou a insistir numa ferragem irregular, tanto nos compridos como nos primeiros curtos que cravou, fruto de alguma celeridade com que efectua o seu toureio. Entreteve as bancadas com o cavalo, pondo na lide a alegria que faltou ao toiro, e teve labor por sacar a rês das tábuas, mas faltou mais clareza e brilho na prestação.

A quem também faltou brilho e alguma organização foi aos forcados do Aposento da Chamusca a comemorarem 25 anos de existência. O grupo não se entendeu no que tocou às ajudas e isso não favoreceu os forcados que foram à cara dos toiros, respectivamente a Francisco Montoya que só concretizou a pega à quarta tentativa com as ajudas carregadas, depois de não aguentar por três vezes os derrotes do toiro e não ter ajudas; e António Melara Dias que depois de uma primeira tentativa em que não reuniu da melhor maneira e de uma segunda em que não se aguentou sem ajudas, consumou ao terceiro intento.

Pela terceira vez presente este ano na praça lisboeta Pedrito de Portugal não teve quinta-feira a ajuda ‘divina’ da irmãzinha de caridade e ficou patente que o que lhe sobra em vaidade (que em conta e medida também é fundamental a um toureiro) tem de falta em interpretação do toureio. O matador português frente ao primeiro que lhe tocou, um ‘varela crujo’ com 505 kg, sem forças, inválido, evidenciou um toureio desligado, frio e pouco arrimado. No seu segundo e depois do ‘banho’ de Perera, Pedrito saiu mais tocado, mais disposto, mas assim houvesse condições ganadeiras para o satisfazer que não foi o caso, e frente a uma rês com 524 kg, sem classe, sem investida, o matador português pouco mais fez do que prolongar uma faena que passou de discreta a maçadora. Não lhe podemos cobrar que tenha o mesmo calejo que Perera, pois distancia-os um grande número de tardes frente a toiros, mas não podemos tolerar que Pedrito não se arrime, não se entregue, não toureie! Talvez se tomasse consciência que ser matador vai mais além do olhar enternecido que lança para a legião de “tias” que o segue, a sua carreira tivesse hoje outro fulgor. E oportunidades não lhe faltaram esta temporada.

Mas quando um tem dentro de si a verdadeira pureza do toureio, ainda que lhe escasseie matéria-prima, pouco será impeditivo para que uma faena não resulte enorme. Foi assim com Miguel Ángel Perera no primeiro do seu lote, um toiro com 502 kg e de pouca força de mãos, que o matador começou logo por mostrar verdadeira elegância de capote. Com a muleta prestou-se a um toureio de entrega, de quietude, passando o toiro por trás e pela frente sem mexer os pés, levando a rês suavemente a perseguir a flanela, deixando roçar os ‘pitones’ na ‘taleguilla’ e levando os aficionados a aplaudir de pé. Pareceu fácil a Perera, habituado que está a outros toiros mais duros, mais bravos, mas serviu assim para poder deliciar as bancadas. Já com o seu segundo, uma rês mais áspera, com 504 kg, que saiu com muita pata e que acalmou no capote de Perera, não sentiu tanta facilidade, deixando enganchar algumas vezes, com a rês a fugir para tábuas. Ainda assim andou voluntarioso, sacando alguns passes de bom gosto, sem que a faena rompesse. De qualquer modo ficou o perfume e a arte de Perera na sua estreia em Lisboa.

Dirigiu a corrida com alguma benevolência o Sr. António dos Santos, assessorado pelo Dr. João Maria Nobre e abrilhantada pela sempre alegre Banda do Samouco.

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