
[Especial Fiestas de Las Angustias 2008] De Samouco a Ayamonte, 30 anos depois
SAMOUCO - (Por Pedro Rodelo, webmaster de http://bandadosamouco.blogspot.com e asesor editorial de NATURALES, CORREIO DA TAUROMAQUIA ).
Em finais dos anos 70 chegavam ao Samouco relatos dos grandiosos festejos que em Espanha se realizavam em honra de Nossa Senhora das Angustias, pelo Ayuntamiento de Ayamonte. No ano de 1977 a Banda de Música da Sociedade Filarmónica Progresso e Labor Samouquense teve a honra de ser convidada para abrilhantar as ditas festas, convite este que não pode ser aceite pelo facto de já existirem compromissos para com outras entidades para as mesmas datas. Com este convite nasce o desejo por parte dos Músicos e da Direcção de que talvez num futuro próximo existisse novamente a oportunidade de a Banda abrilhantar tal grandioso evento em La Puerta de España pois, ademais estas festas realizavam-se em território estrangeiro e surgia assim uma oportunidade de fazer chegar mais além o bom nome da Banda de Música da Sociedade Filarmónica Progresso e Labor Samouquense e do Samouco.
A Direcção de então da S.F.P.L.S., embora tivesse declinado o convite para o ano de 1977 por motivos de agenda, prontamente se mostrou disponível para abrilhantar os citados festejos no próximo ano de 1978. Assim começa a surgir uma troca de correspondência entre as partes interessadas e em Abril de 78 é feito um convite pelo Ayuntamento de Ayamonte para que uma comissão representativa da S.F.P.L.S. se desloque a cidade andaluza para troca de impressões e outros acordos referentes à deslocação da banda. Parte então a comissão composta na parte directiva pelo Presidente da S.F.P.L.S. António José Pinho e o Secretário Mário Delgado Sobral, pelo Maestro Francisco Domingos Taneco e ainda pelos membros da Banda de Música Emídio José Carvalho e Alberto Sena Gonçalves, todos em direcção a Ayamonte.
Na bagagem levam a vontade e determinação de levar a bom porto a tarefa a que se propunham. Levam ainda um gravador com algumas peças musicais gravadas pela Banda de Música com o intuito de dar a conhecer o reportório que incluía, como não poderia deixar de ser para uma actuação em terras de Espanha, alguns pasodobles que são nesta sinónimo de tradição e aficíon. É recebida a referida comissão pelo Alcaide do Ayuntamento, que dispensa as suas melhores atenções sobre o assunto, finalizando este mesmo a reunião com a colocação de uma máquina de escrever frente ao Secretário da S.F.P.L.S. para que no momento redigir-se o termo de contrato que foi devidamente assinado pelas partes, ficando assim acordada a deslocação da Banda, pelo valor de 290 mil pesetas.
Estava então na hora de voltar a casa e dar conhecimento à população do Samouco e principalmente aos componentes da Banda de Música as boas novas, com estes últimos a ficarem radiantes com a deslocação a efectuar. Apenas se distanciavam alguns meses dos serviços a prestar em Ayamonte, o que representava um curto espaço de tempo para que se tomassem todas as indispensáveis resoluções e preparar a respectiva documentação oficial, respeitante a elementos da Banda e outros que a acompanharam. Foram tantos os assuntos a tratar que o mais leve descuido poderia arruinar toda a obra. São feitos os devidos preparos, escolhe-se repertório para os respectivos concertos, para os actos religiosos e arruadas, pedem-se novas peças de repertório espanhol aqui e acolá, o maestro ensaia, exige, recomenda e tudo vai indo no bom caminho musical. A data aproxima-se, tomam-se notas, dão-se conselhos, apertam-se os ensaios, para que nada falte e tudo corra na melhor ordem, são constantes os cálculos para que as pesetas cheguem para liquidar todas as despesas com músicos, transportes, salvos condutos, e toda a demais logística necessária.
Assim, a 6 de Setembro de 1978 é dada a ordem de partida ao motorista e põem-se a caminho de Vila Real de Santo António. A bordo seguem músicos, directores, instrumentos, fardamento, cozinheiros, acompanhantes, boa disposição e entusiasmo, e ainda a satisfação de engrandecer a sua música, levando-a a outras terras e a outras gentes. Pelo caminho fazem uma pequena paragem para o almoço afim de não se perder mais tempo, porque já algum tempo tinha sido desperdiçado na partida e no furo que tiveram pelo caminho. A viagem continua, sacode os apetites, estoiram os ditos de espírito (próprio dos portugueses) esfuzia a boa disposição e continua o apetite.
Finalmente Vila Real: cada músico leva o seu instrumento, a sua bagagem, e segue para a alfândega a fim de embarcar e atravessar o Rio Guadiana. A Banda do Samouco executou nessa primeira vez e tal como sempre até hoje o Pasodoble Ayamonte até o barco atracar no cais. O desembarque dá-se com aplausos, olés e entusiasmo dos Ayamontinos que aguardavam a sua chegada. A banda forma e marcha tocando até junto do Ayuntamento a fim de apresentar cumprimentos ás entidades oficiais, executaram-se o Hino Espanhol e o Português, repetindo o mesmo gesto frente ao Consulado Português.
Em Ayamonte foram vários os serviços que se efectuaram, com destaque para o desfile de oferenda de flores à Patrona da Santíssima Virgem das Angustias, o grandioso concerto musical no salão nobre do Circulo Mercantil, a Procissão da Patrona de Ayamonte Santíssima Virgem de las Angustias, o concerto na Cale Cristobal Colón, o concerto no Salão da Sociedade Cultural Casino España, o desfile de Gigantes Y Cabezudos e por fim, as despedidas oficiais, tocando novamente os Hinos Espanhol e Português. Termina assim a colaboração da Banda de Música da S.F.P.L.S. no ano de 1978 em Ayamonte, há 30 anos atrás.
A 11 de Setembro parte de Ayamonte o autocarro em direcção ao Samouco. À chegada a felicidade é grande, tanto por parte da comitiva que se deslocou a Ayamonte como da própria população que esperava entusiasticamente a sua banda. Em seguida, a Banda percorre as principais artérias do Samouco sempre tocando animadamente e com o estalar de foguetes como pano de fundo, seguida por grande parte da população em apoteose.
Hoje, exactamente 30 anos depois, mais uma vez se repete o mesmo ritual, praticamente imutável desde a primeira vez. Os tempos mudam: mudam músicos, maestro, directores, mas alguns ainda se mantêm inamovíveis desde a primeira vez, assim como inamovível é o entusiasmo criado por Ayamonte, o orgulho de difundir através da sua Banda o prazer e o recreio na modalidade da música, de participar, de convívio, entre a própria banda de música e com todos os Ayamontinos, que ainda hoje se mantêm e demonstram tão hospitaleiros como da primeira vez.