Enquanto isso, à frente da Porta Principal, tomava contornos o 1º Encontro do Aficionado, que atingiu o seu auge por volta das 20h30, com a presença de muitos aficionados, e a intervenção de José Potier (presidente da ANGF), Dr. Henrique Borges filho (empresa do Campo Pequeno) e do crítico Maurício do Vale, que teve um discurso verdadeiramente admirável e motivador nesta luta pela defesa da Tauromaquia, e onde inclusive fez saber, que o Festival Taurino será a favor da União Zoófila, porque no fundo os aficionados são os verdadeiros amigos dos animais. Seguiu-se aos discursos a actuação do Rancho Folclórico de Coruche, que juntamente com a Festa Brava, foi mais um apontamento de tradição portuguesa que os ditos anti-taurinos tanto teimam em desprezar. No entanto é importante salientar a ausência de muitos daqueles que fazem da Tauromaquia o ganha-pão, entre toureiros, empresários, ganadeiros. Porventura não terão “enfiado a carapuça” com o termo aficionado, e acharam que o Encontro do Aficionado, não contemplava os “profissionais” do meio.
Mas se havia acontecimento que realmente marcava a data de 7 de Maio de 2009, era o início da Temporada no Campo Pequeno. Se é verdade que lá fora na manifestação, fomos muitos, lá dentro, na corrida fomos muitos mais e valeu a pena. Praça praticamente cheia, símbolo da verdadeira força do aficionado, mas também da fome de toiros que os aficionados alfacinhas já sentiam. Um cartel muito apelativo, com o mais digno representante actual do toureio clássico a cavalo português, António Ribeiro Telles, o maior ícone do Rejoneio, Pablo Hermoso de Mendoza, e um dos jovens cavaleiros com mais mérito justificado, Vitor Ribeiro. Os toiros, pertencentes à ganadaria Passanha, primaram pela apresentação, foram justos de forças e de desigual comportamento, deixando-se lidar em geral. E dois grupos de forcados de maior prestígio, os Amadores de Lisboa e os de Coruche.
António Telles viu a cruz da festa, ao ser violentamente colhido logo no inicio da sua função, por um toiro com 576 kg, que depois disso acusou mansidão ao saltar tábuas sem qualquer ocorrência de gravidade. Depois disso veio decidido a dar volta por cima e fê-lo como é seu apanágio colocando a rês no centro da arena, partindo recto e cravando certeiro. O toiro tinha sentido mas António esteve sempre por cima e cumpriu com uma actuação que só não teve maior aceitação porque infelizmente hoje em dia nas bancadas dá-se pouco crédito ao toureio puro e clássico do qual Portugal ergue bandeira. No seu segundo, um toiro com 624 kg que saiu com pata, mas que depois foi a menos, escasseando algumas vezes nas forças, António voltou a evidenciar toda a maestria com destaque nos dois últimos ferros, de altíssima nota do princípio ao fim, sem enfeites e artifícios, cingindo-se ao toureio fundamental, raro nos dias de hoje de ver em prática nas arenas e que provavelmente o público, desabituado que está, já nem sabe dar merecido valor.
Pablo Hermoso de Mendoza veio a Lisboa reacender o brilho de uma fama que sendo longa, já se viu ofuscada por outros rojoneadores. E se outros recusaram vir a Lisboa, Pablo tirou disso todo o proveito (assim como a empresa do Campo Pequeno, que poupou dinheiro e teve direito a um sucesso na corrida inaugural) pondo e dispondo dos toiros que lhe calharam em sorte e abusando daquilo que melhor sabe fazer, o rejoneio, valendo-se para isso das assombrosas montadas que possui. No seu primeiro toiro, com 564 kg, chegou facilmente às bancadas com ladeios e recortes na cara do toiro, passando-lhe o cavalo como quem passa um capote, com suavidade e temple, deixando o público totalmente rendido. Valeu-lhe duas voltas à arena. No seu segundo, com 532 kg, voltou a praticar o seu estilo toureiro, mais assente nas suas enormes qualidades equestres e num toureio elementar, em que o miolo é os ladeios e os recortes, mais que a cravagem, que muitas vezes resultava de câmbios, ou após algumas passagens em falso, numa rês que no final se encontrava totalmente dominada. Mas o público, que se deslumbra com a espectacularidade, voltou a agraciar o rejoneador com ovações como nunca antes ouvidas. Pablo voltou a bisar nas voltas, e sentiu-se agradecido pelo carinho justo do público português. Pablo precisava deste triunfo no Campo Pequeno, e o Campo Pequeno precisava de um Pablo para triunfar na sua reabertura.
Vitor Ribeiro sentiu o peso de ombrear tamanhas figuras e ao mesmo tempo não teve sorte com o lote que lhe tocou. No seu primeiro, com 542 kg, andou desajustado nos compridos. Efectuou boa brega, fez-se ver a um toiro complicado, e teve uma actuação em crescendo com boa preparação das sortes. No seu segundo, um toiro com muita querência e de 592 kg, tentou cravar a sorte gaiola mas negou-se a montada. Esteve muito voluntarioso em tentar dar a volta a uma rês que esteve quase sempre fechada em tábuas, sem arrancar, e acabou por ser prejudicado com alguns ferros falhados, mas valeu o labor e o não desistir facilmente que o público soube reconhecer. No final a humildade de quem sabe, e não deu volta.
Pelos Forcados a noite pareceu fácil. Pelo grupo de Lisboa pegaram Francisco Mira e João Galamba à primeira e António José Casaca à segunda. Pelo grupo de Coruche, Amorim Ribeiro Lopes à segunda, Ricardo Dias e António Macedo à primeira.
Dirigiu a corrida Pedro Reinhardt com algum desacerto no momento de conceder música, assessorado pelo veterinário Dr. Salter Cid.