Crónica : Alternativa de João Telles II

NATURALES
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LISBOA (NATURALES/enviados especiales) .- Quando a porta do pátio de quadrilhas se abriu, e no momento em que surge o primeiro cavaleiro na arena, rompem forte e duradouros os aplausos das bancadas. Augurava-se noite de emoções. O público compareceu em peso, esgotando a casa, como sinal do reconhecimento, carinho e respeito por uma das dinastias do toureio a cavalo em Portugal, que tem permanecido ao longo de 50 anos, fiel ao seu estilo toureiro, sendo única na humildade, e na rectidão dos seus elementos. No fundo uma família toureira, que quando toda reunida na mesma praça, é capaz de deixar transparecer, o factor união.
Esta família toureira, é a Ribeiro Telles e o motivo da reunião era forte e especial, João Telles II, o Ginja, como é conhecido da Torrinha, tomaria a alternativa na praça de toiros de Lisboa, com a presença em praça dos restantes membros da família, que antes dele e ao longo destes 50 anos, envergaram a mesma casaca azul e prata, que naquela noite ele tinha a honra de usar.
Foi Mestre David Ribeiro Telles que recebeu o ferro comprido, que passaria depois ao filho João Telles e posteriormente este ao novo cavaleiro de alternativa. Uma alternativa concedida por um avô e por um pai. Um pai que brindou o filho com um testemunho de conselhos dos quais o ‘…respeite sempre o público…’ enaltece o lema dos Ribeiro Telles. A testemunhar o acto, estavam também presentes, o tio António, e os primos Manuel e António Telles Bastos, este último também a apresentar-se como peão de brega.
O primeiro toiro de João Telles II como cavaleiro de alternativa, pesou 570 kg e tinha de nome ‘Trágico’, mas graças a Deus, trágica não foi a noite. Brindou ao pai a sua lide, aquela que considera a mais importante da sua jovem carreira, e depois iniciou função logo arriscando, esperando o toiro à porta gaiola, levando-o em curta brega, com a rês a fraquejar das mãos e a mostrar-se inicialmente distraído com as bancadas. Mas a coisa recompôs-se depois de João o levar a mudar de terrenos e a cravar-lhe dois bons ferros compridos. Andou correcto nos cinco ferros curto que deixou, fazendo jus à casaca que vestia, toureando com classe e de frente. O público exigiu-lhe mais um ferro, e João Telles II respondeu com um ferro violino de boa execução e ainda um palmito. O público retribuiu com forte ovação de pé.
João Ribeiro Telles, teve pela frente um toiro com 570 kg e demonstrou que os anos passam, mas o toureio fica para sempre. Cumpriu com a ferragem comprida, e nos três curtos que deixou a actuação foi subindo de tom. Depois João parou-se como que a ‘estudar’ o toiro, na trincheira Mestre David riu-se como que adivinhando o que o filho se preparava para concretizar, também ele deixar a sua marca num belíssimo ferro violino. O público entusiasmado ainda lhe pediu mais um ferro, mas João soube que era o momento exacto por dar como finda a sua lide.
O terceiro toiro da noite, com 578 kg de peso, saiu em sorte a António Telles que não defraudou na noite do sobrinho. Colocou o primeiro ferro comprido em sorte gaiola. Depois citou de praça a praça, permitindo à rês que se arrancasse e cravando bem o segundo ferro. Bisa a sorte com sucesso para um terceiro comprido. António Telles é sem sombra para dúvidas, o cavaleiro que personifica o toureio a cavalo português no seu estado mais puro. Brega com classe, colocando o toiro nos terrenos certos, impõe mando na voz tentando prender a atenção do toiro, e com rectidão parte para a reunião cravando certeira a ferragem curta. Foi uma actuação de altíssima nota e belíssimos ferros. A verdadeira lição magistral de que muitos se gabam mas poucos ministram.
Manuel Telles Bastos, outro cavaleiro de classe, não teve muita sorte com a rês que lhe tocou, e que acusou na balança 572 kg e cedo foi a menos, revelando-se distraída e de curta investida. Manuel deixou bem três ferros compridos, Parte de frente para cravar o primeiro curto mas o toiro nem o persegue. Foi deixando a sucessiva ferragem por seu próprio mérito e labor numa actuação crescente, mas não tendo matéria-prima para muito se luzir. Ainda assim o público esteve com ele, e entendeu o seu valor e pediu-lhe mais um ferro. Manuel deixou um excelente de palmo, em que se acentuou a boa preparação da sorte.
No que se esperava ser uma lide a duo, entre pai e filho, surpreendeu-nos João Telles ao pedir permissão para ceder a lide a seu filho. E em boa hora o fez. Fomos brindados com mais uma boa actuação de João Telles II. Esteve regular nos compridos, frente a um toiro com 608 kg. Evidenciou noção e sentido de lide cravando certeiro nos curtos, num toureio frontal, sem enfeites, artifícios ou demais engodos, e quando no final o público lhe pediu mais um ferro, João surpreendeu com um par de bandarilhas, assim estilo Bastinhas. No final o jovem cavaleiro pediu a presença do ganadeiro que agradeceu do centro da arena.
Também António e Manuel, tio e sobrinho, brilharam na lide a duo, feita a um toiro com 628 kg. Como que numa simbiose os dois cavaleiros entenderam-se e foram cravando a ferragem da ordem de modo correcto. Ao cravar o quarto ferro curto, António Telles sofre um forte toque na montada, mas que depressa foi esquecido, quando as portas do pátio de quadrilhas se abrem e em vez de dois, passamos a quatro cavaleiros em praça. Talvez os mais ortodoxos condenem o feito, mas a verdade é que serviu para mostrar que sejam quantos Telles forem em praça, o seu toureio é tão completo e bem estudado, que resulta quase como um bailado em que todos os passinhos parecem treinados. Os aficionados, esses, deliraram quando na ressalva uns dos outros, foram cravando ferro atrás de ferro. A pedido do público, que não os deixava sair de praça, João Telles, pai e filho, bisaram a sorte com mais dois ferros violinos, enquanto que António e Manuel apenas simularam a cravagem de ferro. Foi sem dúvida um dos momentos altos da noite.
As pegas estiveram a cargo de dois grupos de forcados. Pelo grupo de Santarém pegaram, Diogo Sepúlveda à segunda numa pega que não sendo tecnicamente perfeita acabou por resultar; Gonçalo Veloso também à segunda; e Ricardo Tavares e David Romão numa cernelha por opção. Pelo grupo de Coruche, pegaram os forcados, António Macedo à primeira, aguentando sozinho os derrotes; Pedro Crispim também à primeira a fechar-se forte; e Alberto Simões à primeira a dobrar Amorim Lopes.
Os toiros de Passanha primaram pela apresentação, sendo colaboradores no geral, destacando-se o terceiro. Dirigiu correctamente o espectáculo Ricardo Pereira assessorado pelo Dr. Patacho de Matos, numa corrida televisionada pela RTP1. No intervalo decorreu a oferta de uma lembrança por parte dos grupos de forcados a João Telles II.
A família Telles saiu assim em ombros do Campo Pequeno, numa noite triunfal, em que João Telles II justificou merecidíssima a sua alternativa. E no que ainda toca ao forte laço que une e é notório nesta família, salientar que enquanto os cavaleiros davam a volta à arena, pediram também ao seu irmão Manuel Ribeiro Telles, que chegou a ser cavaleiro praticante, que a eles se juntasse. Manuel num acto de humildade e sabendo que as voltas são para os toureiros, negou-se. Mas não deixa de ser de enobrecer o sentimento que faz um Ribeiro Telles pensar no seu próximo, neste caso na família.
Foi sem dúvida um espectáculo grandioso, em que até a Porta Grande foi pequena para os Telles, justificando-se assim a meu ver, a sua não abertura. - PATRICIA SARDINHA / Foto de JOAO SILVA
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