Crónica de Redondo - O lado negro da ilusão




A ilusão tem o secretismo da incógnita, é como uma chance ínfima de idealizarmos e crermos em algo que nos submete às emoções que mais nos preenchem. Todavia, no caminho do secretismo, encontramos ramificações de outras sensações que fazem despoletar a capacidade de adaptar-nos à realidade que temos por diante, mesmo que o desfecho seja bem distinto da ilusão que depositámos...

Enquadro este escrito na atual conjutura taurina que vivemos, a qual já aceitei que a ilusão que lhe posso colocar estará dependente do quanto me queira desiludir... como esta corrida no Redondo, a última da temporada, que me trouxe o lado mais negro da ilusão.

De revelação fácil, é óbvio que a analogia permite o entendimento no quão aquém ficou a corrida, embora o duplo sentido do lado negro da ilusão me tenha feito voltar a sentir o secretismo da incógnita... e esse duplo sentido fez terceiro da tarde, pesou 554kg, tinha o número 39 e foi um grande toiro. Negro, como esse lado da ilusão que ele quis destapar, era medido de tronco, sério, com morrillo farto e bem armado, de mirada pouco doce e pouco avantajado de pescoço. Impunha e tinha trapio. Apontou notas de classe nas primeiras acometidas ao capote, repetindo e empregando-se com mais codícia, valores que manteve altos na fase de curtos, com o seu lidador, Rouxinol Jr, a fundir-se com ele e a permitir que visse algo que me valesse o que sempre esperamos quando encaramos algo com olhos de ver, num meio tão deturpado onde se vê mais com olhos de comer. 

Montado no Douro, levou o Sobral a submeter-se aos poucos ao toureio encimista que transcende este cavalo. A disponibilidade do toiro permitiu um compêndio de bem lidar, sem que isso impedisse o animal de outorgar o seu lado mais encastado ou ver-se privado de emocionar. Transmitiu, e o melhor, foi que transmitiu com classe, de bem agradecido e de bem lidado, interligando características como a fijeza, o tranco mais ritmado e a vontade de vencer um duelo que acabou fundido. Bem Luís Rouxinol Jr, que cresceu com o toiro e lhe deu mais vida quando ele se queria apagar no final, mostrando que o seu conceito de lide e a forma como rapidamente faz o check up de características, fazem dele um toureiro que qualquer ganadero goste de ver lidar os seus toiros. Destaque para o primeiro comprido e para uma série de curtos de tom alto, impedido de voos maiores pela falta de chama de um dia invernal onde o lume estaria certamente por outras bandas a preparar um São Martinho que está aí à porta... de forma ideal, serve esta ponte para especificar o pouco ambiente que a meia casa preenchida proporcionou. 

O primeiro de Passanha Sobral, com 625kg, alto e comprido, negro bragado meano axiblanco, algo cuesta arriba, de cara medida mas agradável, foi de mais a menos. Pareceu disposto de início e perseguia nobre e suavón, mas João Ribeiro Telles não foi feliz na escolhas que fez, e entre toques e passagens sem brilho, não houve comunhão de filosofias, com os ataques de largo ao toiro a não resultarem.
O segundo do lote de Ribeiro Telles, com 537kg, era uma beleza de toiro... Muito em Núñez, proveniente da linha Cebada de onde é originário, era negro listón, de pelo reluzente e brilhante, baixo e sério por diante, com cara e uma altivez bonita tão característica do encaste. Como os irmãos de camada, acusou um piso demasiado pesado (uma nuvem para cavalos), e a locomoção nos médios fez-se custar, revelando-se tardo nas reuniões e pouco interessado em entregar-se a um labor que também pouco o convencera a isso. A passada que mantinha enquanto durou, era bonita e acompasada, mas a disponibilidade durou pouco, e a pena de não o ver numa muleta ficou-me na cabeça, porque vi-o fazer o avión com o pitón esquerdo no capote mais que uma vez...Enfim!
 Muito distante do JRT que vi em Beja em Abril, a intermitência com que atuou no Redondo retirou valor aos poucos momentos de mérito que lhe vi, apenas o primeiro curto de uma série marcada por pouco arrimo a terrenos mais apertados... A espetacularidade do cavalo Ilusionista e a forma fugaz e rápida com que quebra a investida animaram a bancada e tiveram chispa, mas não me motivaram pelos embroques mais distantes de rigor.

Miguel Moura, pouco bafejado pela sorte, viu a sua tarde cair a pique após queda acidental da sua montada e consequente colhida... A confiança, as ganas e a disposição foram outras a partir daí.
O sério castanho bragado meano que lhe causou momentos de angustia, com 557kg era um toiro sério e de muita personalidade, difícil e que parecia sempre estar um passo à frente das ideias do cavaleiro, literalmente, visto que se adiantava nas reuniões, altura em que sentia que podia e empurrava com mais afinco. Faltou-lhe fijeza e mover-se com franqueza e verdade, pedindo sempre mais créditos do que entregando os seus. Da lide de Miguel, apenas a grande sorte de gaiola com que recebeu... 
O que fez quinto, ficou por espremer... 575kg, negro, com pouca cara, cubeto e gacho, muito baixo de estatura mas comprido e com pescoço, aproveitando-o para alargar a sua investida na brega dada pelos peões, foi um animal que só pecou por falta de selo e evidenciar a casta do sangue, porque andou com apuntes de nobreza e um tranco boyante que até servia a gosto. Mas viu-se pouca lide, e as exequíveis condições do toiro aligeiraram-se como a falta de um momento que servisse para dar o click. Notou-se de novo pouco confiado, e as abordagens resultaram aliviadas na sua maioria, crescendo apenas nos dois últimos ferros, mas já ia tarde...

Após o feliz momento que havia vivido no terceiro, esperava com a ilusão um pouco menos negra, a lide do sexto. Mas o colorao que fechou esta temporada em Portugal, com 565kg, muito bem feito, cabeça pequena e pouca cara a destoar de um tronco que expectava algo de bom pelas formas evidenciadas e harmoniosas hechuras, foi um toiro difícil, manso encastado e reservado que só via desafio quando sentia o capote a pisar-lhe os terrenos de conforto. Confirmou-me que a ilusão tem um lado negro, e naquela tarde, só mesmo o seu irmão de camada me confirmou que esse secretismo tinha a cor da sua pelagem... 
Após bonito e emotivo brinde à sua equipa, a receção à porta gaiola não resultou efetiva pela forma abanta com que saiu o toiro, quebrando o ritmo do galope e começando a medir as intenções à sua volta. Suou Luís para dar-lhe volta, mais irregular e nem sempre feliz nas concretizações, salvando-se um palmo mais enraçado com que colmatou a sua temporada.

Nas pegas o piso encarregou-se de aliviar problemas maiores, e os toiros só pediram desempenhos minimamente correctos na sua frente, pois também não prejudicaram de forma alarmante...

Pelo grupo do Ribatejo dois desempenhos seguros, um à primeira por Rafael Costa, que reuniu decidido e o grupo conseguiu equilibrar cá atrás um bom desempenho; André Laranjinha consumou à segunda tentativa com uma boa primeira ajuda que foi determinante; 

Pelo Grupo de Arronches, Luís Marques consumou à primeira, apesar de no meu ângulo de visão me ter parecido estar fora da cara durante um momento e conseguindo de novo fechar-se decidido; Rodrigo Abreu pegou com espectacularidade o quinto, mandou vir o toiro e recuou muito para reunir como pode e aguentar uma investida alta, que apesar não causar grande desconforto, resultou espectacular pela altura exibida, respondendo bem o grupo.

O grupo da terra, os Amadores de Redondo, tiveram pela frente dois toiros que não permitiam descuido e por isso pediam concentração máxima por diante. Jorge Gato esteve valente com o terceiro da tarde, que investiu com poder na reunião e colocou a cara dura, fechando-se com firmeza à córnea; Luís Feiteirona teve uma tarefa inglória com o último, tendo de ser dobrado após sair lesionado na terceira tentativa. Com o toiro já em tábuas e a sesgo, Joaquim Ramalho consumou à sua primeira, quarta no geral. 

O curro proveniente de Barbas de Lebre, com o ferro de Passanha Sobral, exibiu trapio e seriedade, diversificado em capas e beleza, revelou várias estirpes e matizes que pediam brio e um encaro com exigência para que lhes pudessem sacar fundo, que na retina é o que me fica, a falta de fundo que não chegou a ser sacada da maioria dos exemplares. Destaque para o terceiro da tarde, marcado a fogo com o número 39. Nota geral, faltou-me mais raça e casta para uma emoção que era necessária para chegar à bancada.

Dirigiu assertivo o Sr. Agostinho Borges, a última e mais curta corrida que me lembro de assistir, cerca de 2h30min. 

Pedro Guerreiro
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