Crónicas de Vila Franca: “Uma noite de Sonhos, uma tarde de Entrega”



Se Vila Franca é diferente, é certamente. Se está, mais ou menos exigente do que antigamente, não tenho essa capacidade para avaliar, mas que Vila Franca tem uma afición única, isso tem. 

Talvez porque bastando entrar na centenária Palha Blanco tudo nos delega para um passado de história, para uma afición antiga, castiça e séria ao mesmo tempo, e que por isso o ambiente seja sempre de grande expectativa. 

Decorre ainda a sua Feira de Outubro mas já a Palha Blanco pode dormir descansada por concretizadas que estão com sucesso a sua novilhada e a sua corrida mista.

- A NOVILHADA -

Da primeira, fica-nos a essência de um festejo que promove e incentiva sonhos. Uma novilhada é sempre revestida de muita ilusão por parte daqueles que, estando a começar, pretendem ser levados a sério para poderem concretizar o seu sonho. 

E na noite de sábado, perante uma meia casa de muita juventude, apresentaram-se muitos sonhos, os dos cavaleiros praticantes em augurarem uma alternativa, os dos novilheiros em se tornarem matadores e até os dos juvenis forcados em passarem à “equipa” dos consagrados. 

Lidaram-se novilhos da ganadaria Palha, com melhores condições os de cavalo, sendo mais “desconfiados” os de a pé, sempre procurando os toureiros, dando mais opções o lidado em quinto lugar. 

A cavalo, Francisco Correia Lopes revelou bom conceito de toureio, resolvendo de forma eficiente a papeleta. Joaquim Brito Paes apresentou-se mais ‘toureado’ que o alternante, com desembaraço e gancho com o público, sendo autor de uma actuação em crescendo, com destaque para o terceiro e quarto curtos de boa nota e dando vantagens ao novilho. Dois jovens que pedem mais oportunidades e um salto para compromissos mais sérios. 

As duas pegas dos juvenis de Vila Franca foram valorosamente concretizadas à primeira tentativa. 

A pé não pudemos desfrutar tão convictamente de toureio, porque nem sempre os novilhos o permitiram, descompondo muitas vezes nas muletas dos artistas. O espanhol Rafael León (Escola de Málaga) cumpriu de forma discreta perante um novilho que rapidamente o procurava após cada tanda; Filipe Martinho (Escola da Moita) evidenciou boas maneiras perante uma rês de pouca força e entrega na muleta; Fábio Jiménez (Escola Salamanca) viu-se com o melhor do lote, um animal nobre, fixo na muleta, e com o qual cumpriu uma actuação com conteúdo; e Duarte Silva (Escola Vila Franca) também viu a actuação comprometida pelo comportamento do oponente, ainda assim, logrou uma faena em crescendo com bons pormenores de quem é um toureiro valoroso.

No final, o Grupo Tauromáquico "Sector 1", outorgou o Prémio Incentivo à Melhor Faena, a protagonizada pelo de Salamanca, sendo certo que os sonhos de todos os outros terão continuidade além deste festejo.

- A CORRIDA MISTA - 

Já no domingo, uma Palha Blanco cheia em dia de eleições e numa tarde ventosa, foi palco de um festejo misto que pretendeu homenagear o Maestro José Júlio pelos seus 60 anos de alternativa. Quis a saúde, ou falta dela, que o toureiro, Figura de Vila Franca, não pudesse receber em mãos e na arena da sua praça, a devida homenagem fazendo-se representar pelo sobrinho e irmão. Ainda assim, deixou uma mensagem tão sua: “David diz a Vila Franca que hoje não pode ser mas outro dia será!”. Que recupere pronto! 

Novamente um curro da centenária ganadaria Palha. Exigente, sério, pesados, melhores os lidados a cavalo e o sexto da ordem, lidado a pé. 

A corrida iniciou com a lide a duo, Luís Rouxinol, pai e filho, e cedo puseram a Palha Blanco em polvorosa, tal a disposição com que o mais novo se fez a uma empolgante sorte gaiola, e o pai, na ressalva, completou com o segundo comprido. Deixaram mais dois ferros compridos e num momento em que o público já vibrava de pé e queria ver mais dos Rouxinóis, eis que o toiro investe na trincheira e acaba por partir um pitón. Uma pena. 

A solo, Luís Rouxinol viu-se com um toiro que transmitia e se empregava com codicia na perseguição à montada. Com o Douro, arrimou-se com os ladeios mas novamente não pôde cumprir com o seu ofício, pois após colocação do terceiro curto, o toiro perdeu as mãos e acabou por ficar inutilizado sendo devolvido aos curros. Ainda assim, o público reconheceu a entrega e o mérito ao cavaleiro de Pegões. 

O quinto toiro da corrida não impôs a Luís Rouxinol Jr. grandes dificuldades, sendo do lote, o mais cómodo. O jovem cavaleiro voltou a revelar a entrega e a raça que lhe são características, com um grande sentido lidador, destacando-se na ferragem pelos cingidos terceiro e quarto da ordem, bem como o palmito com que rematou actuação. O público, esse, ficou rendido ao valor de Rouxinol Jr.. 

Poucas oportunidades de se mostrarem tiveram os Amadores de Vila Franca, que viu dois dos três toiros lidados a cavalo a saírem inutilizados, pelo que só puderam consumar uma das pegas por intermédio de João Luz, que concretizou com eficácia à segunda tentativa. 

O matador de toiros Nuno Casquinha destacou-se no tércio de bandarilhas, que cumpriu com vistosidade, para na muleta se ver com um manso perigoso “Palha”, que depois de alguns avisos, o acabou por colher de forma violenta. Abreviou e recolheu à enfermaria. Regressou valente para lidar o nobre sexto da corrida, e aí pôde colocar em prática o seu toureio poderoso, com uma série de tandas com qualidade pela direita e bonitos apuntes pela esquerda. Acarinhado pela sua terra, o toureiro desfrutou e aproveitou as boas intenções do oponente. 

Manuel Dias Gomes tem uma fineza no capote cada vez mais apurada. E isso foi notório nos seus dois toiros bem como no quite em que saíu ao primeiro toiro de Casquinha. Na muleta, e com o primeiro do seu lote, andou arrimado e muito por cima de um toiro que se descompunha nas tandas, e que o matador foi “dominando”, obrigando-o a investir por ambos os pitons. Com o que encerrou corrida, voltou a ver-se com outro exigente toiro de Palha, e mais uma vez teve recursos para construir uma faena com verdade, mérito e muita entrega. Está todo um toureiro!

De enaltecer também, o labor dos jovens bandarilheiros que nesta tarde saíram às ordens dos dois matadores, João Ferreira, João Martins, Filipe Proença, André Rocha, Pedro Noronha e Filipe "Chamaco", mostraram que a prata lusa cada vez mais vale ouro.

No final, depois de sete toiros, sendo que dois deles se viram a metade, o público ainda queria mais, tal era a ânsia daquela gente por “toiros” – lá está, que a afición de Vila Franca é especial -, mas a isso não obriga o regulamento. E a coisa ficou por ali.

E verdade seja dita, foi uma tarde de muita entrega por parte dos artistas e de muito reconhecimento por parte das bancadas, pelo que só por isso, mesmo com dois toiros inutilizados, a corrida mista em Vila Franca, valeu por muitas.


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