Crónica: "Santarém honrou Portugal e António Taurino honrou Santarém”


Em dia de Portugal e de Camões, não poderia ter havido melhor forma para se iniciar a corrida de toiros realizada em Santarém, do que com o Hino Nacional a ser cantado em uníssono por quase 10 mil presentes na “Celestino Graça”. 

Nos tempos que correm, em que escasseiam os valores e sobram a alguns as negas às tradições do povo luso, exaltar a nossa cultura é acima de tudo um “grito” de orgulhosamente portugueses. 

Orgulhosos também podem estar os elementos que compõem a Associação ‘Praça Maior’, que em boa-hora pegaram na praça da sua terra e lhe devolveram a seriedade, a dignidade e as corridas de toiros, como a mesma bem merece. E neste 10 de Junho, milhares acorreram à Monumental de Santarém, compondo cerca de ¾ de casa à justa, o que, numa praça com a lotação de 11.500 lugares, é de louvar. 

Lidaram-se cinco toiros de José Luís Vasconcellos e Souza d’Andrade, justinhos em apresentação, exigentes mas mansos encastados no geral, bruscos nos capotes, mais complicados nas pegas e um de Canas Vigouroux a carecer de mais trapio e melhor comportamento. 

António Telles teve duas actuações similares de resultados nas quais sempre se evidenciou na brega. Frente ao primeiro, consentiu demasiadas passagens em falso pelo que passou discreto no que abriu praça, para no segundo melhorar nas intenções, a corrigir distâncias e a destacar sobretudo com o bom terceiro curto que deixou. 

No dia em que comemorava 32 anos de alternativa, concretizada precisamente naquela praça, Luís Rouxinol sobressaiu no seu primeiro, frente ao qual parecia ter novamente 18 anos, principalmente pela forma inteligente como lidou o toiro, com a preocupação de tourear, de manter ligação, exaltando-se a pouca intervenção que se vê nas lides de Rouxinol por parte dos seus bandarilheiros (o toureiro é ele). Exímio nos três compridos que deixou, nos curtos baseou a brega no toureio a duas pistas, cumprindo com a ferragem numa actuação em que o público valorizou a prestação do cavaleiro. Rematou com um bom par e um palmito em terrenos "impossíveis". No seu segundo, perante um toiro de Canas Vigouroux, tardo de investida, andarilho e de pouca transmissão, Rouxinol destoou da sua primeira lide. Quis mostrar-se numa sorte gaiola, cujo ferro resultou traseiro, e nos curtos o registo não subiu de tom, com sortes atravessadas e uma actuação discreta nas bancadas. 

João Salgueiro da Costa, dos compridos ao último dos curtos, assentou base num toureio de distâncias, com duas actuações que primam mais pelo resultado de alguns ferros do que propriamente pela lide, já que praticamente se limitou a deixar o toiro nas tábuas, se não quando coadjuvado pelos capotes que surgiam da trincheira. Frente ao primeiro, um toiro que quando se lhe dava distâncias facilmente se desligava da montada mas que teve codícia nas investidas, Salgueiro da Costa evidenciou-se pelo valor e pela particularidade de assumir ir à cara do oponente, algo quase abolido das nossas arenas, e isso, faz a diferença. Destaco o terceiro e o quarto curto, bons a valer. Repetiu intenções no sexto, menos claro de investidas mas sempre fixo no cavalo e que por várias vezes se antecipou ao cavaleiro para os ferros. Nem sempre teve assertividade a ferragem mas o grande quarto da ordem, em que “atacou” o toiro, fica para registo. 

Nas pegas, mais um louvor a Portugal com as prestações de algo tão nosso, os Forcados, neste caso os Amadores de Santarém. 

O cabo, João Grave, sentiu dificuldades para consumar frente a um toiro que foi violento nas reuniões, concretizando à quarta e com ajudas carregadas; teve valor Salvador de Almeida que à primeira se fechou à córnea; Lourenço Ribeiro tentou aguentar-se só com um braço preso ao toiro mas acabou por consumar à segunda com boa intervenção do primeiro ajuda; o momento da tarde chegou com António Taurino. Citou de praça a praça, com o toiro a arrancar-se primeiro quase que a passo para ganhar terreno e velocidade a poucos metros do forcado, que reuniu com decisão à barbela e aguentou a investida pelo Grupo todo até tábuas. Um pegão de levantar praça; Francisco Graciosa concretizou à primeira bem reunido à córnea; e terminou a prestação dos Amadores de Santarém, o consagrado Rúben Giovetty como uma pega rija à primeira em que foi notória a eficácia e coesão do Grupo. 

Dirigiu a corrida o senhor Lourenço Luzio, assessorado pelo veterinário José Luís Cruz, numa tarde de toiros, de praça cheia, de honrar Portugal e acima de tudo, de honrar as tradições tauromáquicas.


Patrícia Sardinha
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