Crónica do Campo Pequeno: "Foi de ver para crer"
A Praça de Toiros do Campo Pequeno reuniu cerca de meia casa na corrida da passada quinta-feira, que se iniciou com uma sentida homenagem póstuma ao cavaleiro Joaquim Bastinhas, que foi aliás, o momento mais sério de toda a corrida.
“A empatia que gerava com as bancadas, a alegria que transmitia em cada um dos momentos e a forma como chegava aos milhares de pessoas que o seguiam, notabilizou-o de forma ímpar" – refere a nota de pesar aprovada pela Assembleia da República aquando da morte do cavaleiro de Elvas. E eu, reforço o ímpar! Logo, inimitável. Até porque geralmente as cópias deixam a desejar.
Foi portanto uma corrida de toiros, ou melhor, foi um espectáculo taurino, que acima de tudo serviu para relembrar um cavaleiro que teve o dom de jamais ser esquecido. Um espectáculo familiar, com as bancadas compostas de apoiantes, simpatizantes, conterrâneos... E que apesar da carga emocional que ostentava pelo motivo e homenagem a quem se prestava, resultou em ambiente de festa.
Uma noite de muitas palmas, de muitas ovações, sim! Mas aplaudiu a compaixão. Ponto.
Tudo o resto foi um espectáculo adaptado às circunstâncias, pelo que falar-vos ao detalhe do toureio que se viu (ironia) na corrida desta quinta-feira no Campo Pequeno, seria ferir susceptibilidades. Mas existirá quem conte tudo, até uma corrida que eu não vi, escrita por quem terá o entendimento que eu não tenho.
Lidaram-se toiros de Herds. de Varela Crujo, muito similares de apresentação, ligeiramente montados, no geral cumpridores, sendo bom (e não bravo) o quinto, um “colorao ojo de perdiz” nobre, com mobilidade e transmissão, que teve prontidão de investida, e inclusive honras de volta à arena pese embora ter feito alguns “feos” de manso, como quando raspou na arena após o terceiro curto ou se quis esconder por uma vez em tábuas. Os de a pé também cumpriram de apresentação e tiveram bons ‘apuntes’, especialmente o último, com durabilidade e investida, mas como de toureados foram pouco…muito terá ficado por ver.
João Moura desenvolveu uma actuação asseada frente ao primeiro. Cumpriu com a ferragem, sem alardes, sem exuberâncias e sem muito lidar mas "limpou-se" frente a um toiro que foi reservado após a ferragem.
A sorte gaiola com que se iniciou frente ao quarto da corrida, foi demonstrativa do valor e da intenção com que o maestro João Moura ainda cá anda, com um grande primeiro ferro comprido e a aguentar a pata com que o toiro perseguiu após o mesmo. Dos momentos mais verdadeiros de todo o espectáculo. A coisa foi a menos no segundo. E nos curtos nem sempre foi tão assertiva a actuação.
Marcos Tenório foi acarinhado toda a noite e ao carinho das bancadas se prestou, toda a noite, como ninguém. Esperou o primeiro do seu lote à porta gaiola, com o toiro a perseguir com velocidade, pondo o animal mudanças ao gosto do cavaleiro, que também anda sempre em “quinta”. Foram aliás, a exuberância dos gestos e a celeridade, uma tónica dominante na sua primeira lide, onde se destacam os compridos de praça a praça, dando vantagens ao toiro, que teve tendência para facilmente se desligar da montada, e cuja actuação culminou com um par de bandarilhas para gáudio dos tendidos. Deu duas voltas motivado pelo seu público e com a benesse do senhor director.
Frente ao quinto da corrida, cravou o primeiro comprido em sorte gaiola, arrancando-se pronto e alegre o toiro ao segundo ferro comprido. Nos curtos, houve mais vagareza e toureou mais em curto, mas iniciou sempre as sortes com o cavalo já ‘encaminhado’ para a saída, abrindo cedo o quarteio. Voltou a assinar lide com um par de bandarilhas, tendo um dos ferros caído, mas ainda assim, sido o suficiente para receber os aplausos dos presentes. Embalado e já com as contas de somar feitas para a porta, Marcos Bastinhas prestou-se à segunda volta, e não lhe vi qualquer pedido de autorização, nem consentimento por parte do novato director de corrida, que comeu e calou. Antes, Marcos despiu a casaca e deixou-a no centro da arena para depois, em mangas de camisa e acompanhado do forcado Bernardo Borges dos Amadores da Chamusca – autor de uma grande pega, sim, merecedora de duas voltas –, completar o cavaleiro as quatro que precisava para abrir a dita.
Em praça, estiveram dois Grupos de Forcados que se encastaram para aguentar a violência com que em geral, todos os toiros investiram nos primeiros intentos.
Pelos Amadores de Portalegre, pegou Ricardo Almeida à segunda, com eficácia do primeiro ajuda; e João Fragoso também ao segundo intento e ambos a sofrerem derrotes nas primeiras tentativas de pega.
Pelos Amadores da Chamusca, Francisco Borges consumou à segunda após a violência do toiro no primeiro intento; e como já referido, Bernardo Borges efectivou à primeira a pega mais rija da noite, fechando-se com decisão e a aguentar a ‘braveza’ do toiro que o queria despejar.
O festejo teve ainda a particularidade de ser misto e contar com a presença da ‘estrela’ Cayetano Rivera Ordoñez, do qual nos ficou desta noite…os bonitos olhos. Tudo o resto, foram duas faenas muito similares e que resultaram num toureio pouco emotivo, de passes isolados, sem se cruzar, toureando sempre para fora e com um toureiro que pouco fixa os pés na arena. Ainda deu arzinho de sua graça ao sexto, com desplantes pelo meio. Mas soube a pouco.
Dirigiu a corrida o novel director de corrida, Ricardo Dias, benevolente, pouco criterioso, numa noite em que foram exaltados os sentimentos, as emoções, as saudades e a compaixão, em detrimento do toureio com qualidade.
E abriu-se de facto nesta noite a Porta Grande do Campo Pequeno, que vale o que vale, pois não pode ser primeira praça do país aquela que não se rege pela exigência.
