Crónica de Moura: "Sinergia de forças, lágrimas de glória…"

NATURALES
Publicado por -

Da glória bendita.

Lágrimas que se sentiam como o estridente e ensurdecedor aplauso de quem reconhece o mérito, mas também sente a saudade… 

A saudade que dói, que não cessa, que quebra uma alma e fá-la deambular pelos desígnios que o tempo quer, sem avisar quando abranda o ritmo e acalma o coração, sem avisar a mágoa e as questões por responder, sem avisar quando, onde e como nos voltaríamos a ver. E a saudade dói… Mas as lágrimas curam, quando convergem com o tempo e o sufoco não nos corrói, elas curam. Elas podem ser transcendentes, aliás, são mesmo. 

Sentimos isso em Moura, que as emoções são mais do que a utopia em que cremos, que as lágrimas, a força e a saudade também são bonitas e podemos admirá-las e agradecer-lhes… como fazemos hoje ao Mestre Joaquim Bastinhas, como fizemos ontem em Moura, como faremos eternamente enquanto perpetuar na história da nossa festa, e na nossa história pessoal.

E ontem, acho que todos nos apercebemos, a contribuição que deu para que um filho conseguisse limpar a cabeça e saísse à arena, ainda com um enorme peso nos ombros mas uma dor maior na alma, e fazer das fraquezas arma, fazer das lágrimas força e da dor fazer vida… e dar vida.

Confesso, que nos anos que levo disto de escrita taurina, nunca havia visto uma actuação tão correcta e meritória como a primeira de Marcos Bastinhas.

O Canas Vigouroux, que fez terceiro, com 585kg, era a beleza em hechuras, tão harmónico e em tipo que dava gosto ficar apenas a apreciar a imponente estampa negra que exibia. Mas Marcos quis o protagonismo e no final acabou por sobrepor-se a um toiro que na acepção da verdadeira bravura, disse muito pouco. Nobre e sem más intenções, mas sem entrega, não tinha fijeza e sempre que podia virava cara à luta. O cavaleiro encarou o de frente, como os toiros de verdade pedem, como os toiros sérios devem, como os toureiros de mérito deviam… como desta vez o Marcos conseguiu. Preocupou-se em extrair o que podia e não podia, e a leitura que fez das poucas intenções do toiro foram as melhores, imprimiu a química que falharia se fosse noutra ocasião, mas desta vez logrou visibilidade. A par de um bom par com que culminou a atuação, houve dois ferros francamente bons, com a importância que Marcos devia dar sempre ao seu toureio… espera-se que seja este o caminho.

Contudo o sexto de António Silva, um castanho chorreado com 550kg, o mais terciado da tarde, foi toiro encastado e importante, a pedir contas e com uma mobilidade mais incomodativa que auxiliadora de triunfo. Mas são toiros destes que fazem falta caríssimos… a casta, a raça, a seriedade: a verdade. E no meio de todo um misto de sensações, já meio enfadado pela duração e pelo pó, por coisas mais vulgares ou somente por falta de alguma paciência, a corrida voltou a despontar.

Sabemos todos que o momento é hostil, que é mais tocante e mais sentido quando este tipo de situações decorrem no meio, e poderia ser isso motivo para que a maioria do público, logo à partida, fosse mais benevolente e fácil para com Marcos… mas o cavaleiro não fez por isso, e neste importante e difícil sexto, mostrou o toureio como argumento para se lhe dar valor. Esperou o toiro à porta dos curros e aguentou-o no primeiro estado, até perfilar para cravar o primeiro comprido que resultou pouco agradável por colocação. Mas o segundo comprido… um dos ferros da corrida, em que se deu importância ao toiro e às distâncias, e dando a devida importância ao toiro, e aliando isso ao cumprimento das regras que ditam o toureio do bom, dá-se importância à festa e aos momentos grandes. Não houve tanto impacto como na primeira lide, mas voltou a procurar a frontalidade nos cites e nota-se o empaque que consegue ter quando as abordagens resultam desta maneira. O par, à segunda, valendo a saída da montada e o agradecimento aos céus foi emocionante e nostálgico.

A restante corrida, propriamente dita, ditou fases distintas dos outros dois cavaleiros em cartel, Luís Rouxinol e Filipe Gonçalves. Rouxinol esteve vulgar com o primeiro Silva da tarde, animal de enorme aparato pelo peso conferido, e que de resto foi aplaudido à saída. O negro azabache com 650kg era toiro para se fazer triunfador da corrida, disponível sem apertar, algo informal embora capaz e com virtudes; mas Rouxinol voltou a deixar-me com a sensação de que se perde a frontalidade perde o interesse no seu toureio, e isso ficou-me desconfortavelmente na retina… O Douro tem poder e transmite isso a cada passo, mas as reuniões estão a surgir num cruzamento que não é de todo o expoente do toureio a que nos acostumou Rouxinol.

No segundo contrariou felizmente a tendência, e com o Fenício, deu alegria a um Canas que não tinhas as melhores ideias mas que acabou por se submeter ao toureiro. Negro zaíno listón, veleto com cara, era menos aparatoso morfologicamente, mas teve um ponto de chama que não o fez ser menosprezado, pedindo luta de frente e olhos nos olhos, que foi o que Luís Rouxinol fez. Os dois primeiros curtos resultaram tecnicamente irrepreensíveis, com sequência em todos os tempos e mais garbo nas saídas, numa montada que tem um semblante e um embroque bastante marcante. Culminou com um palmo e par que resultaram efusivos no tendido.

O Canas Vigouroux saído em segundo lugar foi um toiro muito importante pelas condições que apresentou. Animal com 570kg, com pescoço e com cara, inteligente e que não se entregava de qualquer forma. Sempre a mais, sempre com mais casta e transmissão, embora mais desbordado e brusco no capote, onde arrancou sempre com som, não foi de todo bem explorado por Filipe Gonçalves, que baseou a sua prestação com quiebros, com o segundo a ser o de maior impacto e transmissão dada a justeza das distâncias, embora os restantes não tenham causado no tendido a dinâmica que pretendera.

O quinto, que foi de António Silva, distribuiu 640kg por um esqueleto largo e comprido, animal forte e com caixa, algo aleonado mas descolgado também. Foi um toiro exigente por manso, rebrincado, de meias e defensivas investidas, procurando o toureiro por alto no momento das reuniões, sem classe e desbordado. O cavaleiro algarvio andou com ganas mas nem sempre isso se transmitiu em resultados, ora por falta de toiro, ora por falta de toureiro, ora por falta de comunhão entre ambos. O epílogo, deu-se num bom par com que selou a sua tarde em Moura.

Esperava-se tarde difícil nas pegas, mas quando os toiros não complicam, e os forcados também não… desfruta-se mais e sofre-se menos, e foi assim que aconteceu.

Por São Manços dois desempenhos praticamente irrepreensíveis no que concerne a todos os momentos de uma pega e a responsabilidade de cada interveniente nela. João Rosmaninho e João Fortunato, mandaram nos cites, mandaram nos toiros, recuaram e consentiram igualmente bem, e o grupo esteve com muita eficácia e acerto a ajudar. 

A pega de João Fortunato acabaria por vencer o troféu em disputa, tecnicamente bem conseguida e, a meu ver, não se tratando de um entrega injusta dada as qualidades técnicas vislumbradas, mas o cabo dos Amadores de Beja, Miguel Sampaio, esteve igualmente bem e decidido perante o último toiro da tarde, um Silva encastado e que já tinha revelado importância no cavalo, saiu duro e com pata após um cite magistral e uma reunião de uma aspereza e impacto brutal em que o forcado aguenta de braços uma viagem algo incómoda até o grupo fechar, sendo sem sombra de dúvida, um dos momentos mais emocionantes da corrida.

Ao Miguel, sem ter ganho o prémio e sem neste momento poder ler esta crónica, espero e esperamos todos, que recupere pronto das mazelas que este hino que logrou ontem em Moura lhe causou, pois a vida de forcado é e sempre será isto, esta paixão e este amor sem medo de pegar a vida todos os dias à procura da felicidade… vai sair desta com a mesma garra e vontade que demonstrou ontem, e tantas tardes, ter.

Pelo grupo a jogar em casa, o Real de Moura, Carlos Mestre esteve correcto com um Canas que partiu recto e meteu bem a cara, sem dificultar e a permitir um bom desempenho à primeira, com o grupo coeso; Valter Rico, o cabo, prontificou-se para o Silva saído em quinto lugar, com 640 kg, que teve uma investida desconcertante e mais brusca, menos clara que as anteriores. Não recebeu da melhor forma, mas à segunda tentativa aguentou uma viagem mais dura até o grupo recompor para fechar o intento.

A outra pega dos Amadores de Beja (aparte da de Miguel Sampaio), foi executada pelo jovem forcado Francisco Patanita que esteve decidido e valente com um Canas que também não causou incómodo, humilhou e meteu a cara, encaixou o forcado e o grupo fechou à primeira.

Os restantes prémios, para além do outorgado aos Amadores de São Manços, foram entregues à Ganadaria Canas Vigouroux, como a melhor ganadaria, e o troféu Joaquim Bastinhas ao seu filho Marcos pelo melhor par da corrida, num momento de grande emoção e simbolismo.

A tarde de sol e calor em Moura registou na José Almeida uma entrada que estaria entre os dois terços e os três quartos de lotação, numa corrida dirigida por Agostinho Borges e abrilhantada, a muito bom nível, pela Banda de Amareleja.



Texto e Fotografia: Pedro Guerreiro


Tags: