Crónica de Moura - Um "corridão" cheio de nada...


Um cartel como o apresentado ontem à noite em Moura, pressupõe a todos os títulos, um espectáculo em que a emoção e o interesse sejam de máxima contundência, e aqui, louve-se a empresa pelo arrojo e aposta desta dimensão numa praça de interior e que logrou uma casa praticamente cheia. Mas na vontade dos artistas e na disposição do conclave não reside a totalidade da festa, e o Rei quando manda, manda para bem e para mal...

A corrida de Veiga Teixeira ficou aquém. De uma ganadaria com este selo e esta qualidade sempre se espera mais, e os toiros da Herdade do Pedrogão não lograram honrar a divisa. Difíceis e exigentes quase todos, sonsos alguns, a menos os lidados na segunda parte, um manso de livro, e a imporem dificuldades por mais génios que casta, pois várias vezes se viram limitados por condições e não por vontade. O lidado em terceiro lugar e com 540kg foi o mais completo de um encierro um ponto abaixo do esperado também no que respeita a apresentação e trapio.



O toiro que abriu praça era comprido e com esqueleto, apregoaram-lhe 600kg, tinha cara e impunha seriedade.  Revelou-se encastadito, com uma locomoção interessante em vários momentos da brega (sem lograr aguentar muito e a vir a menos no final) e a sacar raça no momento máximo da sorte, chegando ao peito do cavalo com a cara humilhada e soltando derrote quando o ferro caía. 
Luís Rouxinol não o aproveitou da melhor maneira e muito pouco conseguiu extrair dele, ficando a sensação de que podia (e devia) ter havido mais. Envolveu-se em alguns momentos de boa brega mas sentiu-se fora dali, e na retina fica apenas o terceiro curto e um palmito.
O quarto foi um toiro nobre e que chegou a apontar classe, no limite da raça que se exige para imprimir emoção, e por isso, custoso de definir o seu estado, ora sacando mais génio, ora retraindo-se e ficando por baixo do toureiro. 
Rouxinol esteve exímio nos compridos, com três tiras de mérito e vibrantes, para nos curtos dar lição de lide e de toureio mas com falta de maior essência na jurisdição. Montando no Douro, sentiu-se e gostou-se na brega, ligado e a explanar ali o conceito de lidar um toiro, mas no momento do ferro sentiu-se que falta qualquer coisa, por vezes maior ajuste, mas essencialmente, que se sinta o risco e o impacto que se sentia quando uma Viajante saía da cara dos toiros, por exemplo. Esta falta de acople veio ser rectificada na cravagem do palmo e par com que selou a prestação, de boa nota.


O primeiro oponente de Vítor Ribeiro fora devolvido por lesão (há que aguardar...), e toureou em terceiro lugar o segundo animal do seu lote, com 540Kg e de escasso trapio.
À boa qualidade do oponente, nobre e com mobilidade (q.b.), para além de fijeza, aliou-se um toureiro sério e a tourear para lhe potenciar as qualidades, sendo o único toiro que foi melhorando e moldando-se ao bom trato. 
A lide foi a correcta, sempre com sentido e atenção ao que o toiro demonstrara, e a acertar nos terrenos onde podia mandar e nos terrenos onde podiam equilibrar as vontades e meter o animal a investir... infelizmente, a sequência nos ferros não manteve o mesmo nível, e tal como Rouxinol, sentiu-se que faltou o colmatar com efectividade os ferros para as actuações puderem catapultar. O seu segundo curto, por direito e sem o quarteio aberto demasiado cedo, foi um bom ferro de verdade. 
O que lidou em quinto lugar era difícil e fiero, listo e muito custoso em obediência pelo seu génio. Ribeiro andou esforçado perante um animal que não regalava nada, e o aperto às montadas e à quadrilha era notório, sempre buscando o mínimo descuido para investir com perigo. Nada se passou para além da segunda bandarilha, em que fora dos seus terrenos lhe crava um ferro com maior impacto.


O primeiro toiro do lote de Francisco Palha, com 580kg, negro mulato e com agradável cara foi um manso de livro. O cavaleiro andou esforçado perante as dificuldades impostas pelo toiro, e quase todas as suas tentativas de motivá-lo resultaram infrutíferas, num labor sem nada para recordar para além do segundo bom comprido.
O último Teixeira da noite acusou na báscula 560kg, negro, bisco do pitón direito, com a cara fechada mas sério por morfologia, muito em Oliveira e com uma mirada desafiante.
À reserva e falta de chama do toiro, Palha não lhe mexeu muito (intervenções algo abusivas da quadrilha), deixando-o nos seus terrenos confortável e atacando-o com viagens largas em que o cavalo partia com ímpeto, mas só a escassos dois metros o toiro consentia a chamada e deixava-se vencer pelo cavaleiro. Com falta de regularidade nas sortes, sem consistência para todas manterem o mesmo nível, os dois últimos curtos foram os de maior impacto da noite, um deles destacado pela forma como o cavalo escapa o toiro enquanto este se encontrava fechado em tábuas. 


Os Amadores de Alcochete rumaram ao Alentejo e obtiveram uma noite de sucesso numa das primeiras actuações na presente temporada. 
Diogo Timóteo esteve correcto numa pega fácil à primeira tentativa, com uma grande ajuda de João Rei, e excelente prestação do conjunto (algo verificado nas três pegas do grupo); Francisco Gaspar quase se descompôs na cara do terceiro, mas aguentou de braços e esforçou-se para ficar, numa viagem em que o toiro saiu recto e o grupo voltou a estar eficaz; João Guerreiro, a dobrar José Freire que caiu ao recuar e saiu magoado no primeiro intento, esteve simples e fez o que se pedia, sem dificultar e com o grupo a ser fundamental a fechar a pega, efectivada na sua tentativa inicial.


O Real de Moura não logrou uma noite positiva, sentido na pele as dificuldades de um lote com complicações, mas com várias lacunas e erros que não são costume.
João Cabrita enfrentou-se com o bruto e brusco primeiro, com uma investida dura e violenta. À quarta tentativa, e com o grupo a finalmente encaixar, consumou; David Prata, inseguro e sem mando, denotou dificuldades no cite e na reunião, pegando à terceira tentativa; Rui Branquinho acabou por protagonizar o momento da noite. Após uma primeira tentativa dura e com o toiro a despejar com facilidade o forcado, no segundo intento, e com o animal a partir com muita velocidade e força, o forcado aguentou-se e suportou vários derrotes altos e uma viagem longa em que o toiro viajou sempre com muita pata, com uma grande ajuda do afamado e reconhecido Pénalti, mas com o grupo mal na fotografia a ajudar, mas a emendar a tempo de fechar uma grande pega.

Dirigiu o Sr. Agostinho Borges, podendo e devendo exaltar o seu poder com muito maior exigência (das voltas e música atribuídas, quase metade eram injustificáveis), sendo abrilhantada com uma qualidade e nível altíssimo pela Banda de Alcochete, que se deste cartelazo há um triunfo sério e gordo, será sem dúvida dos músicos alcochetanos.



Pedro Guerreiro
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