Crónica de Évora: “A Banda tardou mas a Festa fez-se”



Não esteve fácil o início de corrida na noite do passado sábado em Évora para o 59º Concurso de Ganadarias. Chovia que se fartava, e ainda que a Arena d’Évora seja coberta, o estrondo dos trovões e a força da chuva a bater no metal, faziam esquecer qualquer ambiente de toiros aos que, já abrigados, se encontravam sentados no recinto à espera que o espectáculo tivesse início.

Vinte e duas horas em ponto. Não havia banda…

A Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898 estava atrasada, e desta vez não houve dedo do Bruno de Carvalho para os lados de Alcochete, tinha mesmo sido o autocarro da conceituada banda que tinha avariado.

Após alguns minutos depois da hora marcada, decide-se iniciar a corrida sem banda. Ainda que o regulamento a isso faça obrigação, pareceu-me o mais coerente. A praça estava cheia, 3/4 de casa bem medidos, a hora tardia e havia uma corrida para se concretizar.

Desenrascou-se as cortesias com um pasodoble na aparelhagem mas respeitou-se a integridade do espectáculo não se repetindo a proeza durante a primeira lide. Nas cortesias, um minuto de silêncio em memória do maior ausente naquela noite, o empresário António Manuel Cardoso “Néné”, e também pelo homenageado, João Nunes Patinhas.

Foi aliás, com uma justa homenagem póstuma a essa referência da forcadagem, que prosseguiu o espectáculo, com a distinção a ser recebida por Bernardo Patinhas, filho do saudoso forcado, cabo fundador do Grupo de Amadores de Évora.

Seis Ganadarias a concurso pelos prémios do costume em disputa, seis animais de variados comportamentos e tipos, e curiosamente, acabou por ser o mais manso, o mais difícil, o que gerou a mais interessante actuação.

O primeiro toiro, da ganadaria Calejo Pires, com 580 kg, não só não era o anunciado nos cartazes como na verdade, ainda não tinha os 4 anos cumpridos, dado que nasceu em Outubro de 2014, levando por isso o 5 na espádua, pese embora a sua aparência rematada de carnes. Foi um animal manso que se defendia no cavalo, tapando-se nas reuniões e de pouca investida mas que tinha boas maneiras nos capotes dos peões de brega. Luís Rouxinol tentou dar-lhe a volta mas nunca se entendeu totalmente com ele, com uma actuação onde não se livrou de um toque pela inesperada reacção do toiro aos arreões.  Ainda assim, e mesmo sem música ambiente, manteve as bancadas entusiasmadas mas careceu de mais argumentos a sua lide. O quinto curto foi o melhor que lhe vimos nesta lide.

O toiro de Condessa do Sobral, com 565kg, também não era o aguardado, e se calhar, ainda bem. Já que o que saiu ao ruedo eborense, foi o que de melhor comportamento se apresentou naquela noite. Um toiro que se arrancava pronto e de todos os sítios, pelo que melhor não podia ter calhado a Vítor Ribeiro para se (re)estrear nas arenas após 2 anos ausente. Melhor nos curtos que nos compridos, Ribeiro entusiasmou com um conceito de toureio frontal, destacando-se nos dois primeiros curtos, daqueles que se querem ver, cingidos e sem descurar os remates. Uma boa actuação que nos deixou com vontade de voltar a ver Vítor Ribeiro.

O toiro de Canas Vigouroux, castanho, bem apresentado mas com pouca cara, carecia de força e vontade de se mexer, foi anunciado com o peso de 575 kg, e de lidado teve pouco. Marcos Bastinhas não teve passagem feliz com esta actuação, pecando na velocidade excessiva com que andou nos curtos. Raramente parou o cavalo, andando sempre à volta do toiro, que apesar de reservado, ainda o apertou contra as tábuas. Uma actuação esforçada.   

O de António Silva, com 585 kg, foi o mais díficil da corrida. Manso, andando a passo sem se fixar, sem romper nas sortes, foi no entanto o que proporcionou a actuação com mais interesse. Talvez porque vendo as dificuldades, obrigou a que Luís Rouxinol se arrimasse. Depois de constatar o que tinha em mãos nos compridos, e cravou 2 de boa nota, foi buscar o Douro. Com o seu cavalo estrela, teve que lhe pisar os terrenos para o convencer a sair das querenças, andou sempre ligado no toiro, preocupando-se em contrariar as más tendências da rês e acima de tudo, sem abusar nos ladeios e nos recortes a que este cavalo muitas vezes no habitua, impondo seriedade nas abordagens para cravar os ferros. Uma actuação séria e inteligente a do cavaleiro de Pegões. Rematou com o grande par de bandarilhas e o público de Évora validou-lhe o esforço e o mérito.

Vítor Ribeiro voltou a “bailar com a mais bonita”. Outro bom toiro lhe tocou em sorte, o de Pinto Barreiros, com 568 kg, bem apresentado, imponente, e que foi nobre, sempre fixo nas montadas mas com menos durabilidade. Faltou-lhe romper mais, até porque não saiu dos médios. Ribeiro voltou a andar a gosto mas resultaram mais desajustadas algumas reuniões.

O de Branco Núncio com 570 kg foi um animal sério que saiu com raça mas veio a menos após os compridos. Marcos Tenório veio com melhores intenções e foi bom de verdade o seu 2º comprido. Nos curtos, insistiu em batidas, que no engano, mandavam o toiro para fora da sorte, levando a algumas passagens em falso pelo meio. Deixou a ferragem da ordem mas voltou a não ter actuação suficientemente convincente.

Nas pegas houve dureza, emoção e acima de tudo companheirismo entre os Grupos.

Pelos Amadores de Montemor pegou Francisco Bissaia Barreto à segunda com uma boa pega em que foi eficaz o primeiro ajuda António Cortes Monteiro; Francisco Borges consumou à 4ª tentativa com ajudas carregadas depois de intentos anteriores em que o toiro derrotava muito; e João da Câmara à segunda e sem problemas.

Pelo Grupo de Évora, António Torres Alves pegou à primeira com eficácia; o cabo João Pedro Oliveira sentiu a dureza do seu toiro e consumou à 3ª, depois de ter saído lesionado, e inclusive chegado a ser colocado numa maca, se levantar e honrar o seu compromisso; e Ricardo Sousa também à segunda, com uma grande pega, rija e com o primeiro ajuda a ser preponderante na consumação da pega.

No final, o júri, composto pelos senhores ganaderos entenderam dirigir os prémios às ganadarias de Condessa do Sobral (Bravura) e Pinto Barreiros (Apresentação).

Dirigiu a corrida com benevolência na concessão de música, muitas vezes logo ao primeiro curto independentemente da qualidade da sua colocação, o delegado técnico Marco Gomes.

E numa noite em que a Banda tardou, valeu o ambiente vivido e a casa cheia, naquela que foi a primeira corrida em que os filhos do malogrado empresário “Néné” assumiram o papel de empresários e com sucesso.





Por: Patrícia Sardinha


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