Crónica de Beja - Respirar debaixo de água...


Tarde e a más horas... absolutamente de acordo. 

Sem motivos suficientemente fortes para querer desculpar-me, prefiro justificar-me enquanto relato uma tarde em que, incrivelmente, respirei debaixo de água, e ainda mais curioso, respirei muito melhor enquanto submergia.

O dia 28 de Abril resulta no condão chave dos Amadores de Beja. Há 5 anos atrás despedia-se Manuel Almodôvar, deixando um grupo coeso, com valor e qualidade, cada vez mais bem cotado no escalafón... Há três dias despedia-se José Maria Charraz, deixando um grupo coeso, com valor e qualidade, com um lugar importante e já cimentado no escalafón. Parece-me conclusivo.

Fez-se uma festa bonita, com reencontros de glórias, despedidas emotivas e um futuro que se espera feliz perante tanta responsabilidade...
José Maria Charraz, com legitimidade, abriu praça. Fê-lo com mais calma do que no dia em que assumiu funções... os anos deram-lhe calma, e o seu traquejo permitiu-lhe estar correcto e conseguir pegar bem à primeira tentativa. 
Após volta, a despedida, a emoção, a responsabilidade. Com o novo cabo, Miguel Sampaio, partilhou um momento de carregado simbolismo, para depois, e em ombros, agradecer a maior ovação que lhe fora tributada. 
O seu antecessor, Manuel Almodôvar esteve muito bem com o segundo, com uma boa pega à primeira tentativa, destacando-se o grupo, tal como na primeira, a ajudar.
Guilherme Santos, forcado jovem mas experiente, emendou-se na segunda tentativa e valeu-lhe uma grande primeira ajuda para suportar os primeiros derrotes, tendo logrado bom desempenho.
Para o quarto prontificou-se o novo cabo e tudo o que fez foram provas de que nada acontece por acaso... cite de gala, classe, a gostar-se. Apesar de pequena estatura, sente-se que pode com os toiros, nota-se poder e confiança. E curiosamente já chovia, e o Miguel, com tudo o que de bem vez, fazia-me respirar debaixo de água... pegou no primeiro intento. 
João Fialho quis despedir-se no quinto, que foi inglório e não lhe honrou a carreira como um dos mais destacados forcados dos Amadores de Beja, tendo consumado apenas na terceira tentativa. 
José Miguel Falcão, forcado que apontava muita qualidade no seu início mas que se retirou cedo, voltou por uma tarde e consumou uma boa pega à segunda tentativa.

Da corrida propriamente dita... Frio, agonia, aborrecimento, falta de ritmo, falta de tempo, uma homenagem a Manuel Castro e Brito e uma tarde que hoje, e se não é pela Festa dos Forcados, ninguém fala. 

A meia casa forte já querida nesta data, suportou uma primeira parte longa e que me faz andar à procura de algo minimamente bom para dar-lhe um filtro mais positivo... Rouxinol abriu a corrida diante de um toiro que não lhe deu opções suficientes para se entrosar com ele. Desinteressado, com resguardo em tábuas, ora saia por direito ora cortava o caminho do toureiro. Salvou-se um sesgo com o Douro; Tito Semedo andou intermitentecom um toiro encastado e com matizes, que era entregado e só pecava por algumas características mais geniudas do que de bravura, tendo o cavaleiro andado mais conformado que resoluto; João Moura Caetano enfrentou um toiro com bom tranco mas que era nulo de casta e descomposto nas reuniões. O cavaleiro andou na sua maré mas nunca puxou para si a corrente, sem que as boas intenções se aliassem ao ajustamento e emoção necessária (em falta, em falta...) para galvanizar. Depois de relatada e esquecida (convenha-se) a primeira parte, a segunda, debaixo de água (sou o único com vontade de dar uma conotação de país tropical a Portugal?) fez-nos ver que afinal, também se respira e poderemos continuar respirar (e suspirar)...

Entre um grande ferro de Andrés Romero e o tremendismo cada vez mais acentuado de Rouxinol Jr, passando por um tiro no pé de Miguel Moura, a segunda parte (e com toiros em menor condição), resultou numa chuvada que despiu a Varela Crujo mas que mostrou na arena quem quer, e pode, dar um abanão...

O rejoneador Andrés Romero, do estilo comum aos demais que se apresentam com montura espanhola, mas sem abusar do folclore, não se fez rogado e tentou adaptar-se um toiro que pedia alegria e motivações fortes. Transmite muito pouco no momento da ferragem, talvez pelos embroques dizerem mesmo muito pouco, mas houve um que realmente acertou na dose de risco, nas medidas certas para ser considerado um bom ferro, com a dose de emoção certa para se qualificar como um momento destacável. Veremos que trazem as suas próximas comparações...

Miguel Moura, não obstante as suas boas condições, teve uma tarde inglória e sem conseguir marcar passo... A pecar pela colocação da ferragem, pelos momentos mortos, pela falta de acople. O terceiro curto, com o toiro a agigantar-se, fez a diferença de uma prestação aquém e com falta de ritmo.

Rouxinol Júnior está a demarcar-se a olhos vistos dos demais, e até aparecer alguém que saia à praça com as mesmas ganas, a mesma vontade e decisão do jovem cavaleiro, ninguém lhe fará oposição, que creio ser o que mais nos faria falta neste momento. Aos novos, arrimem-se, porque ou jogam para ir à champions, ou nunca passarão de aspirar a taças da liga... e este é um dos novos que vai garantindo o apuramento.
Interpretou bem um toiro com uma conduta informal e com pouca rectidão, deu-lhe espaço, soube em que sítios provocá-lo e em que terrenos crescer com ele. Pecou por uma ligeira intermitência que não lhe valeram uma lide redonda, mas houve momentos em que montando o Girassol  (e aqui soou-me a deja vu de São Manços), foi capaz de dar vida à máxima do toureio a cavalo. Enquanto isso, chovia e chovia, e respirava-se profundamente...

A corrida de Ascensão Vaz resultou parelha e simétrica no que diz respeito a apresentação, quase todos eles cubetos e de córnea baixel, sendo dissemelhante em comportamento. A quase todos faltou fijeza e motivação, exceptuando o segundo que se destacou por casta e melhor condição.

A direção de corrida esteve a cargo de Agostinho Borges e foi abrilhantada pela Capricho Bejense.

Pedro Guerreiro
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