Crónica de Cuba - Tudo o que não queria escrever...


Lembro-me de comentar com amigos que estes primeiros dias de Feira estavam a ser atípicos, sem espírito e o ambiente do costume. Passou a quinta de forma enfandonha e na sexta nada se alterou. Traria o sábado o tudo ou nada. 

Foi um nada cheio de tudo. De incertezas e tanta inconsciência, reivindicando posições sem ter-se noção da causa e abarcando em aventuras qual destemor e bairrismo sui generis. Também sou apologista do não pensar, arriscar e entregar o corpo a um desfecho inimaginável, viver o momento, viver a aventura. Mas o que este mundo tem de saboroso e bohémio, tem de ingrato e mal agradecido, e cada vez que ousarmos, mas com o rigor que a seriedade exige, querer uma oportunidade, olhamos primeiro para quem somos, quem temos ao nosso lado, como devemos encarar os desafios e moderar a ilusão que cria o sonho, porque a queda custa muito... 
Serve esta analogia, e num tom algo leviano e talvez até soft em demasia, para que, entre outras situações menos felizes da tarde, as três formações de Grupos de Forcados repensem e reflitam sobre tudo (!). Desde a cor da graveta ao bordado da jaqueta, ao que é um cite, para que serve, os mandamentos que ditam uma pega, que é ser forcado... Questionem-se sobre isso, o que fará ou não sentido neste mundo. Pegar à primeira não é pegar bem, e por mais vontade e decisão que se tenha, nunca há-de chegar, não aqui, não num meio que se quer sério, puro e íntegro. 
Quem interpretar, saberá decerto que estas palavras não se enquadram nem cabem no Pedro...
O Pedro, que não precisa de favores nem palmadas nas costas, é um dos forcados mais importantes desde a fundação dos Amadores de Cuba, que tem o valor que tem pela humildade que muitos querem mostrar mas jamais terão condição para se equiparar. Porque o Pedro é genuíno, é boa pessoa, é um rapaz alegre e uma peça que tem um orgulho enorme na sua terra e em representar o seu grupo. 
O Jorge Carvalho pedia um par de braços implacável e ajudas o mais sincronizadas e eficazes possível, e não é que o Pedro não pudesse, ou o grupo não tivesse alma para isso, mas deu-se uma batalha dura, inglória e ingrata, essencialmente para o Pedro... Tudo o que não queria escrever neste momento era isto. Que a corrida não tivesse sido mais uma, que o concurso desapontou-me, que a essência do que é ser forcado não descesse assim. Mas essencialmente, que não tivesse de falar do Pedro, que neste momento deverá sentir a força de todos quantos ansiamos por voltar a vê-lo na Cuba, no Arrufa, na Adega da Lua, no Cubas, no estádio da Luz, mas essencialmente, na praça da sua terra, que tanto momento importante e inesquecível lhe proporcionou!
A vida é isto, uma batalha é só uma batalha, porque a guerra, eu acredito que será tua...


Tudo o que não queria escrever, nem muita gente ouvir quando se venderam os primeiros bilhetes, foi que houve uma pequena inflação no preço que suscitou queixume, e a arena de Cuba, que carece (e merecia) um repensamento em relação à sua estrutura e condições, preencheu meia casa, às cinco da tarde, para um concurso de ganadarias, que resultou algo frustrante e monótono. 

Abriu o concurso um animal com três anos do Eng. António Silva, de pelagem castanha, cornicurto, composto de carne e que nunca quis potenciar qualidades.
Andou achouto de início, soltando-se nas viagens e fechando caminho, medindo e dispersando sempre que podia, vindo maioritariamente a menos. 
Luís Rouxinol andou num plano diligente e evidenciou mais toiro do que na realidade havia. O Silva pedia distâncias curtas e toque de atenção para lhe prender a mirada, e com o Douro Rouxinol andou capacitado a lidar mas sem transcender na ferragem, agradando ao conclave, mas ainda assim, sem encher olho. 
O quarto, segundo do lote de Luís Rouxinol, foi um utrero da ganadaria do Eng. Joaquim Brito Paes, animal baixo, de pelagem negra, lustroso e ainda que sem seriedade de toiro, era morfologicamente agradável. Não encontrou muitas limitações para se mover, mas dentro da sua condição nunca passou de pastueño, sendo um superclase nobre e fácil, tapando-se no momento da reunião e sem lograr mais que a meia altura no capote. Faltou-lhe mais codícia e principalmente transmissão.
O cavaleiro de pegões voltou a superiorizar-se ao seu oponente, inteligente a tapar-lhe defeitos e mais assertivo nas reuniões, numa prestação em crescendo e que terminou com um par de bandarilhas de exímia execução.

De Jorge Carvalho foi o segundo da tarde. Também ele com três anos, foi um manso de cátedra, e só no capote apontou características a registar, entrando nos voos com a cara por baixo mas faltando-lhe profundidade e recorrido. Teve génio de bronco e quase sempre andou à defensiva, sonso e cobarde.
António Brito Paes não o conseguiu meter do seu lado e a sua prestação resultou fria e intermitente, nula em conteúdo. 
O quinto, de Fernandes de Castro, de corpo medido e cara bonita, foi um toiro com qualidade, perseguidor na brega com alegria e nobreza, sendo contudo descastado e carente de mais raça, essencialmente nos momentos procedentes à cravagem, revelando-se ainda assim o mais completo da tarde. 
Com mais intenção e outra disposição esteve Brito Paes, que lhe doseou bem a condição e deu-lhe lide de toureiro curtido, rigoroso em todos os momentos e com melhorias notadas a nível de embroque, tardando em encontrar sítio. Da prestação, a começar discreta mas a ir sempre a mais, destaca-se o penúltimo que foi de excelência, partindo praticamente ao mesmo tempo do toiro, harmónico e acompassado, quarteando-se o cavalo no momento exato e cobrando de alto a baixo com mérito, numa prestação que só descaiu no último ferro, nitidamente desajustado e fora do tom dos anteriores. 

O Toiro de J. L. V. e Souza D' Andrade que se apresentou nos cartéis inutilizou-se no campo, e até Cuba viajou outro que... praticamente inutilizável estava. 
Esqueleto pequeno, com uma bonita capa burraca, deixou todos os que o entenderam com água na boca... que pena a falta de condição, a incapacidade, a debilidade. Era enraçado e por vezes fez da casta maior que as dificuldades, partindo a distâncias consideráveis sempre com som e alegria. Mas estava diminuído, não tinha força e toda a gente o viu... menos o veterinário, o director e todos os que têm responsabilidade e pecaram muito nesta tarde.
Francisco Palha andou irregular com ele, falhando sempre que não o encarou como pede um toiro bravo, de frente e por direito, sem constância para a lide atingir um plano positivo.
Fechou o Concurso o toiro de Cunhal Patrício, animal feio e avacado, de cara aberta e pescoço comprido. Foi um manso encastado que dentro das várias matizes de cobarde evidenciadas, veio a mais.
Andou melhor e mais solto Francisco Palha, notando-se progressos na sua capacidade lidadora. Tragou com o Cunhal uma batalha que acabou por vencer, e sempre que o encarou com a verdade que por vezes atesta o seu toureio (pena que o Francisco nem sempre a faça transparecer com a regularidade que devia), obteve momentos de fulgor e que impactaram os tendidos já a noite caía em Cuba. 

Tarde de decepção brutal no que diz respeito aos grupos de forcados.
O Silva, que calhou aos Amadores de Bencatel, não pedia nada mais que mando e estar sempre com ele, dar-lhe voz e pouco tempo para que não se aborrecera. O cabo fez tudo o contrário, com cites desajustados e intermináveis, para além de faltar mando e decisão. O toiro entrava fácil e não derrotava com poder, dificultando apenas nos momentos em que tirava a cara. As tentativas sucederam, as lesões também, e o toiro foi vivo para dentro...
Pelo mesmo grupo, Ricardo Prior pegou à primeira depois de reunir sem ortodoxia e qualidade, perdoando-lhe o toiro também na viagem pela comodidade da sua investida.

A tarde não foi fácil para os Amadores de Cuba. O primeiro derrote do toiro do Eng. Jorge Carvalho era duro e intempestivo, bruto sempre que sentia o forcado, mas mais moderado na viagem, empregando-se apenas de rins.
Pedro Primo aguentou com ele uma grande primeira tentativa, mas a falta de entrosamento nas ajudas não permitiu ao forcado aguentar-se. À terceira, da qual saiu visivelmente combalido, foi dobrado por mais dois colegas que após várias tentativas não lograram pegar o toiro, que recolheu vivo para os currais.
Nuno Rocha foi o eleito para a pega do quinto, que foi um toiro fácil e sem incomodar muito. Mal a receber o toiro, conseguiu estabilizar na cara até o grupo conseguir fechar para consumar no primeiro intento.

Pelos Amadores de Riachos foram caras Afonso Vieira, que para o dia de estreia pode ficar feliz pelo desempenho logrado à primeira, com a mais limpinha das quatro que se realizaram.
Joel Santos pegou o sexto de Cunhal Patrício, que apesar de derrotar alto não tinha muita força nem poder para grandes estragos. Saiu totalmente da cara do oponente, apenas com um braço em cima do morrillo, e o primeira (que foi chamada a dar volta) ficou na cara do toiro a maior parte da viagem... Ainda assim, pega consumada e tudo está bem quando acaba bem...

Dirigiu com falta de pulso o delegado técnico Tiago Tavares, sendo o espectáculo abrilhantado em bom nível pela Banda da Sociedade Filarmónica Cubense 1º de Dezembro. 

No final, e após mais de três horas de corrida, o júri, constituído pela minha pessoa e os críticos Nelson Lampreia e Miguel Ortega Cláudio, decidiu outorgar os troféus bravura e apresentação ao toiro da divisa de Fernandes de Castro.

Ao Pedro, sorte, fé e muita força!


Foto: Pedro Guerreiro / Arquivo
Pedro Guerreiro

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