Crónica encerrona de Luís Rouxinol: "Venha de lá outra encerrona, Luís!"


Existem coisas que desejamos muito mas que nem sempre conseguimos ou podemos ter. Luís Rouxinol quis muito ser cavaleiro tauromáquico, e conseguiu! Luís Rouxinol quis muito ser Figura do Toureio, e conseguiu! Quis sempre dar o seu melhor em Praça e triunfar muito, conseguiu!

Agora, aos 30 anos de alternativa, quis pela primeira vez lidar seis toiros em solitário. Não que precisasse desta encerrona para se justificar ou para fazer prova do que tem sido o seu percurso até aqui. Mas Luís Rouxinol queria certamente com esta encerrona, poder festejar as três décadas enquanto cavaleiro profissional, com um gesto diferente e no qual poderia obter um triunfo redondo… Mas às vezes, nem tudo é como queremos e o resultado geral não correspondeu na totalidade ao que seria desejo do cavaleiro.

Contudo, a digna passagem, a disposição e o valor de Luís Rouxinol, tornaram esta noite especial!

A Praça encheu. Uns bons ¾ de casa, de gente da sua terra, de gente amiga, de gente que reconhece o mérito e a subida a pulso deste cavaleiro, aplaudindo-o quase sempre de pé, em efusiva dedicação. E aos que escrevem de toiros, e que nesta corrida estiveram presentes, não bastaria a Rouxinol que lhe dedicassem um abecedário por tudo o que foi, e é, enquanto cavaleiro. Nem será esta encerrona a ‘manchar’ o percurso daquele que é um lidador nato, um dos melhores cavaleiros da actualidade e o que mais prémios logrou conquistar até aqui.

Disse-o em público Luís Rouxinol, que todos os toiros da sua encerrona tinham sido escolhidos e vistos por si no campo, excepto um. Apostou em ganadarias das ditas “duras”, das que podiam transmitir em praça mas quis o destino que de 6, apenas 2 tivessem tido qualidades suficientes para o toureiro poder desfrutar. Curiosamente, o único que não foi ver no campo, foi o que ganhou o prémio Bravura em disputa.

A iniciar o espectáculo, Luís Rouxinol protagonizou as cortesias como único cavaleiro mas acompanhado por todos os que formam a sua verdadeira equipa, os cavalos. Que, um a um, o seguiram numa volta à arena emotiva e muito aplaudida. 


Escolheu para primeiro da corrida, o toiro de Ernesto de Castro, com 480 kg, de pouca transmissão, manso, custoso de se fixar e que Luís Rouxinol recebeu com uma sorte gaiola, deixando o primeiro comprido ligeiramente descaído. Melhorou nos seguintes e tentou a custo manter o toiro ligado às montadas, que com arrancadas bruscas, foi pedindo contas ao cavaleiro. Rouxinol cravou a ferragem da ordem sem contudo romper actuação, que resultou morna de resultados.

O de António Silva, com 505 kg, feio de cara e badanudo, foi reservado nas reuniões, e frente ao qual Luís Rouxinol teve passagem discreta, ficando como de melhor nota o palmito com que encerrou função.

Lidou em terceiro lugar o toiro do Eng. Jorge Carvalho, de 500 kg, pequenote de tipo mas bem apresentado, que acabou por ser o mais manso de toda a corrida. Sem dar um passo, desinteressado no cavalo mas com sentido, impôs que Luís Rouxinol se arrimasse de mais argumentos. Praticou abordagens mais cingidas, como no primeiro curto em que foi acima do toiro para o deixar. Tentou contrariar a tendência da rês em descair para tábuas, colocando empenho e esforço nesta actuação, que ainda assim não teve concessão de música. 

O toiro da ganadaria Vinhas, com 507 kg, teve ‘honras’ de lide a duo. Após efectivar a ferragem comprida, pediu autorização para que o filho, Luís Rouxinol Jr. coadjuvasse nos curtos. Nem sempre houve entrosamento entre pai e filho, com pormenores de um e outro numa lide que chegou às bancadas, principalmente com os ferros violinos e os desplantes toureiros que praticaram.

Havia de vir do Alentejo a salvação e também uma motivação maior para Luís Rouxinol. O toiro de Murteira Grave, com 535 kg, teve aquilo que Rouxinol ansiava: seriedade e transmissão. Raspou muito, é verdade, mas nunca se queixou do cavalo, perseguiu sempre e arrancou-se aos cites do cavaleiro. Foram bons de verdade os três compridos desta actuação, e nos curtos, apresentou para um bom toiro uma boa égua, a sua estrela “Viajante”. Cravou os curtos quase sempre dando vantagens e aguentando a pouca distância a investida do animal, ainda que nem sempre redondeasse no momento do ferro. Rematou com um par de bandarilhas, o único que lhe vimos nesta corrida, e um palmito, ambos de boa nota.

Da ganadaria do Eng. Luís Rocha, outro ‘alentejano’, veio uma nobre rês com 510 kg, que voltou a permitir luzimento a Luís Rouxinol. Para isso, teve por ferramenta o “Douro”, que levou o toiro empregue durante a brega com os ladeios ajustados a que se permite. Ainda consentiu alguns toques mas foi bom o quarto curto e o palmito com que deu términus a uma ‘maratona’ de lides em solitário.

Nas pegas, os Forcados da T. T. do Montijo e os Amadores do Montijo, dividiram entre si o ‘mal pelas aldeias’, entre pegas duras e outras mais facilitadas. Pelos primeiros, pegou o cabo, Márcio Chapa, que só consumou à quinta tentativa e a sesgo com as ajudas carregadíssimas, depois de intentos anteriores não efectivados; Joaquim Consulado consumou à segunda tentativa; e Luís Carrilho à primeira. Pelos amadores do Montijo, pegou Élio Lopes numa rija e dura pega, que aguentou a viagem e os derrotes, consumando à primeira; José Pedro Suiças também teve braços, e uma boa ajuda para efectivar à primeira; e João Paulo Damásio à segunda, depois do toiro ter derrotado alto no primeiro intento.

Decidiu o júri a atribuição do prémio Bravura ao toiro de Murteira Grave, o de Apresentação a Jorge de Carvalho, e a melhor pega a de Élio Lopes (Amadores de Montijo).

Não dirigiu a corrida, o sr. Rogério Jóia, que por ‘indisposição' saíu do recinto após a lide do primeiro toiro, ficando a gestão da corrida delegada no veterinário, Dr. Jorge Moreira da Silva.


Porque o mérito desta encerrona se escreve não só pelo que foi esta noite mas por todos os feitos de Rouxinol até aqui, no final o cavaleiro foi sacado em ombros pelos seus subalternos.

E assim, sem estar mal, Luís Rouxinol também não esteve totalmente bem. Cumpriu, esteve digno mas queremos mais! Venha de lá outra encerrona, Luís! 

Mas desta vez, que não seja ele a escolher os toiros...






Por: Patrícia Sardinha
Fotografias: Francisco Potier Dias




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