Crónica do Campo Pequeno - 'Quisiera ser tu madre...'



Cuando pisas el albero
de la Real Maestranza, 
José Maria Manzanares,
La Macarena te dice,
La Macarena te dice,
Yo quisiera ser tu Madre
Olé tu madre,
Que despacito torea José María Manzanares

En los vuelos del silencio,
Llevas al toro prendido
Torero, capote y toro
Torero, capote y toro
Los tres se han quedao dormidos,
La Giralda que te mira como niña enamorada,
Que despacito toreo José María Manzanares

Con la muleta en la izquierda
Y los pies clavados en el suelo,
Al torero de Alicante hay que quitarle el sombrero,
Olé tu madre,
Olé tu madre,
Que despacito torea José María Manzanares


Cantou El Turronero a um toureiro de glória os versos acima citados. Um senhor na acepção da palavra, um toureiro, portanto. Um toureiro grande, gigante entre os grandes. Enquanto me faltam palavras, sobram as mesmas. José María padre, andou ontem às voltas na tumba (e maldito destino), e ouviu Turronero, acompanhado pelo genial Paco Cepero, dedicar a sua bulería ao toureiro que mantém o legado Manzanares e se encarrega de elevá-lo ao patamar que não está ao nível de todos, porque o toureio bom, roto e genial, tem de sentir-se, e ontem, sentimos...

Dá-me igual a cagada de Porta Grande. Perdoe-me os pudicos pela linguagem, mas também me dá igual. Mas a culpa não é de Manzanares, que nem o vi fazer-se às voltas como outros, as que deu foram aclamadas por quem paga. A bem da festa, saiu a ombros, mas para mal da praça, voltou a banalizar-se a nossa número 1 (?). Quem entende e desfruta da facilidade e banalidade doutro 'toureio', força... Mas ontem, o toureio, a sério, meteu todos de acordo. 

O primeiro veio da Barahona, solar de Núñez de Tarifa (Benjumea), baixo (baixo, baixinho, pequenino, anão), sério por diante, com cara agradável e que devia ter referência em Lisboa (e por onde se toureie a pé). Mediu muito, investiu sem selo, não reponía e a meio dos muletazos (que também eram só meias investidas) soltava a cara, mas não tinha maldade e se não fosse os seus traços de geniudo, o temple do seu tranco podia ter resultado... mas não. Um trinhcerazo, dois muletazos pela direita e pela esquerda nem o quis ver. Era para dar a cara com ofício e metê-lo a investir, mas José Marí não esteve para isso. Receei neste momento...



O toiro da casa matilla (García Jímenez) foi nobre, desclasado, mas blandito, com pouca profundidade e sem estar sobrado de força. Mas José Marí sacou o génio da casa e... o toureio meteu todos de acordo. O toureio (toureio, toureio, toureio.)

De Capote esteve soberbo. Gostou-se por verónicas e sentiu-se por chicuelinas, de mão baixa, rodando com garbo e torería.

Viu-se ontem em Lisboa o que é cuajar um toiro. O que é fazer um animal investir com o que tem e não tem, com as condições e fundo que só um grande toureiro consegue sacar, e quando isso acontece, o homem sonha e a obra nasce. E o toureio nasce...

Pela direita teve os melhores momentos, entregado e com alma, vaciando investidas que chegavam a à Macarena de Sevilla, com temple e ligação. Houve harmonia, inteligência e lide. Nos tempos, nas distâncias, nos toques. Houve lide de toureiro consagrado. Com a zurda o toiro não repetia com a mesma qualidade, mas houve uma tanda francamente boa e ligada. E o cambio de mão? E os passes de peito eternos, largos, a la hombrera contraria? Não sei se a bulería chega... Tenho a certeza, que junto ao teu pai, a Macarena ecoou bem alto os versos del Turronero: Yo quisiera ser tu madre!



A história do último não sei se é história, historieta, piada... O Juan Pedro, mais bastote, sem pescoço e mau tipo, saiu a raspar, brusco e manso. Doeu-se em bandarilhas (Manzanares tem quadrilha de topo, mas ontem...), e na muleta foi um mamarracho
Incomum de capote, recebeu com uma larga de joelhos e por tafalleras esteve muito bem, rematando com uma larga templada. Regalou quite ao 'nosso' Cuqui, que andou solvente por Gaoneras, e a partir daí... Uma tandita, uno pa ca y otro pa ya e nada mais. José Marí convidou o português, foi de cavalheiro mas algo abusivo, a completar lide do último da noite. 
Nitidamente inexperiente e pouco toureado, com os seus recursos, deixou algumas coisas agradáveis, especialmente pelo pitón esquerdo. 
Pouca ou nenhuma gente ouvi queixar-se da ação do toureiro Alicantino, e ainda o fizeram dar voltas à arena, mesmo que lide, e tudo o que isso implica, não tenha acontecido. 
Critério? Rigor? E verguenza torera? Mas a culpa não é de José Marí, que deu lição de toureio. A culpa é dos que vêm estudados de casa, com PG no contracto, almofadas nos joelhos caso o piso esteja duro e depois andam mal habituados. Não tenho visto nada de toureio e tenho visto Portas Grandes. E ontem vi tourear. Mas repito que me dá igual, que me estou a lixar para uma porta grande barata e pouco rotunda. Eu vi tourear...


Pablo Hermoso de Mendoza não esteve bem no seu primeiro. O de Charrua, feio e avacado, mal apresentado para o que tem de ser e deve ser (!) o toiro de Lisboa, foi fácil e algo bobo, desprovido de casta e transmissão. Pablo andou despegado, sem dar-lhe lide e sem motivá-lo, ou melhor, desmotivando-o, já que de início o animal tomou iniciativa de sair sozinho. Ferragem sem sequência, sem brilho, pecando até pelo quão dispersa resultou, sofrendo alguns toques nas montadas. 

No terceiro da noite andou nitidamente mais a gosto, contudo, sem redondear e a vir a menos. Correcto nas reuniões e mais consequente na brega, mas depois de convidar Jacobo Botero a sair do banco de suplentes, perdeu-se o fio à meada. O jovem colombiano não logrou nada de positivo nos dois ferros que cobrou, e a actuação de Pablo ficou entre dos aguas.

Não há quinto mau, dizem... O de Charrua foi um toiro bom, fixo e sempre ligado, acudindo com nobreza e clareza nas viagens, com boa conduta, com suavidade e classe. Foi o mais bonito da divisa azul e vermelha, colorao muito claro, olho de perdiz, e este sim, bem apresentado. Se é toiro de volta? Em meu entender faltou-lhe raça e força para poder reforçar esse prémio.
Ligação e exposição, a chave da derradeira actuação de Pablo Hermoso. O público de Lisboa continua a acarinhá-lo e idolatrá-lo, e Pablo sente-se a gosto na Praça lisboeta. 
Brega envolvente e sentida, as hermosinas estiveram perto de atingir o ponto máximo e que já há tempos não se vislumbravam e tudo fluiu naturalmente. Mais acertado a cravar, preocupando-se em lidar e andar ligado (e isto é tão importante para que haja toureio), Pablo conectou e o tendido respondeu agradecido. 

Noite irregular e sem constância dos Amadores de Montemor, ora por dificuldades impostas pelos toiros, ora por algumas lacunas no grupo. 

Francisco Bissaia Barreto só se entendeu com o primeiro à segunda tentativa, onde conseguiu mandar bem e o grupo ajudou como tinha de ser. 
O toiro de João da Câmara não foi fácil, e nunca investiu da mesma maneira para o forcado, ora mais brusco e rebrincado a meter a cara, ora tardo e a medir até sentir o forcado. À quinta, e depois de se verificarem algumas falhas na entrada dos ajudas, consumou. 
O quinto não deu muito tempo ao cite de Francisco Borges, saindo cedo e de largo, recuando o forcado praticamente até onde estava concentrado todo o grupo e fechando-se muito bem à córnea.

O Campo Pequeno acolheu um bom número de público, com as bancadas preenchidas em 3/4.

Dirigiu o Sr. Pedro Reinhardt, nem sempre eficiente nas decisões, e abrilhantou com qualidade a Banda do Samouco, com destaque para o solo de trompete executado no Pasodoble 'La Virgen de la Macarena', que por acaso soou na faena grande de Manzanares, e que por casualidade ainda maior, canta Turronero na sua bulería.

Y si fuera tu madre...

Pedro Guerreiro

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