Crónica da Corrida de Alternativa de Parreirita: “Gipsy King”


Carlos Conceição, ‘Parreirita Cigano’, foi rei e senhor na noite da corrida da sua alternativa realizada na passada quinta-feira na Praça de Toiros do Campo Pequeno.

A frescura, a tranquilidade e a assertividade, acompanhadas de um grande carinho e apoio por parte das bancadas, deram a Parreirita Cigano o triunfo maior de uma noite tão importante, a do seu doutoramento.

Também o rejoneador Jacobo Botero impôs nessa noite a ambição e a garra que, infelizmente, vamos deixando de ver na grande maioria dos nossos artistas.

Lidaram-se toiros de Veiga Teixeira, de irrepreensível apresentação, com idade, peso e trapio, todos de bom jogo, a transmitirem, pedindo mais cuidado e ofício, os lidados em segundo e quarto lugar.

A simplicidade do aperto de mão com que Manuel Jorge de Oliveira efectivou a passagem de testemunho a Parreirita, foi semelhante à simplicidade com que o jovem cavaleiro praticou o seu toureio frente ao toiro “Ciganado”, nº 524 e com 590 kg, sem floreados e alvoroços. O toiro foi colaborador, sendo manso encastado, de pouca força, e que dispôs transmissão ao labor do cavaleiro. Parreirita Cigano foi eficaz no segundo comprido que cravou, cingido, de alto a baixo, e a partir daí ganhou a confiança de que podia reinar naquela noite. Assim foi! Nos curtos, corrigiu a tentativa de uma sorte descentrada, que o equivocava a abrir demasiado o quarteio, para depois cumprir com acerto na colocação de cinco curtos, de abordagens cingidas e certeiras, não descurando o remate das sortes. Passou com distinção, valendo-lhe no final o prémio de regressar ao Campo Pequeno já na próxima quinta-feira, no lugar em aberto no cartel de dia 6 de Julho.

Manuel Jorge de Oliveira cumpre 40 anos de alternativa e voltou a vestir-se de toureiro não só para apadrinhar o seu pupilo Parreirita, como para dignamente, dar um gostinho ao braço, e lidar o segundo toiro da noite. O toiro, com 572 kg, veio a menos com a lide, sendo mais reservadote, condição aumentada por nos curtos ter pela frente dois cavaleiros, já que o veterano convidou o recém-doutorado a partilhar a actuação. Retirado há já um bom par de anos, Manuel Jorge de Oliveira deixou passagem muito digna por Lisboa, resolvendo a ferragem em sortes à tira, e Parreirita destacou no que foi o terceiro curto que cravou neste toiro. A dupla funcionou!

Rui Salvador teve actuação que resultou esforçada e forçada. A carência de argumentos e por vezes de decisão, frente a um toiro com 616 kg, de boas condições, não permitiu grande brilhantismo ao cavaleiro de Tomar, que consentiu demasiadas passagens em falso, cumprindo sem deslumbrar.

Ana Batista entrou em praça cheia de ganas, mas a ela lhe tocou o toiro que mais exigia do lote. Um bonito animal com 590 kg, manso, sempre a descair para a querença natural. Teve valor a jovem cavaleira, quando após o primeiro comprido, o toiro perseguiu a montada com muita pata, qual TGV… Nos curtos, a custo e com muito labor da cavaleira, Ana tentou contrariar a tendência para que a rês não descaísse para tábuas. Desejo nem sempre efectivado, e não apostando a cavaleira em fazê-lo investir a favor e não contra a querença do animal. Equivoco que levou a várias passagens em falso, com o toiro a faltar no momento das reuniões. Deixou três curtos, sendo o último o mais destacado. 

A João Maria Branco tocou outro bonito toiro, com 592 kg, animal que queria mais do que podia, que careceu de alguma transmissão e ao qual o cavaleiro também não se chegou a acoplar. Cumpriu com a ferragem da ordem, passando demasiado discreto pelo Campo Pequeno, acusando também a pouca rodagem que leva, depois de algum tempo afastado das arenas.

O colombiano Jacobo Botero não foi a Lisboa para ver o comboio passar e arranjou lugar no vagão da frente. Cravou o primeiro comprido ao seu toiro, animal com 590 kg, com uma conseguida sorte gaiola. O toiro tinha raça e Jacobo aproveitou-se para montar uma actuação de muita ligação com as bancadas. Teve valor para aguentar a investida alegre e pronta do toiro para o terceiro curto, e faltou um “bocadinho assim”, para que a montada se retirasse a tempo de evitar o toque que fragilizou a sorte, do que podia ter sido o melhor ferro da noite. Foi variado nas abordagens e nos cavalos, tento saído à arena com quatro no total. Rematou actuação com o ferro violino e relembrou que o Jacobo está aí para a guerra e recomenda-se. No final, e ainda que só um lugar tivesse sido dado como disponível na corrida de dia 6 de Julho, face à atitude de Jacobo, entendeu a empresa inclui-lo também no cartel.

Nas pegas a noite foi rija. Pelos Amadores do Ribatejo, pegou Rafael Costa à córnea e à primeira, com o grupo a efectivar sem problemas; e André Martins à segunda tentativa, com o toiro a levar a cabeça baixa na viagem, depois de um primeiro intento em que derrotou violentamente. Pelos Amadores da Chamusca, também Igor Rabita provou a dureza dos ‘veiga teixeira’ num primeiro intento, para depois ser dono de uns enormes braços que aguentaram a tentativa do toiro de o despejar da cara; e Luís Isidro que efectivou bem à primeira tentativa. Pelo Grupo do Aposento da Chamusca, pegou Francisco Andrade ao segundo intento, com o toiro a arrancar-se sempre com pata ao cite, e o forcado a aguentar muito bem, para o qual também foi essencial o primeiro ajuda, Pedro Coelho dos Reis; e João Salgueiro consumou à terceira numa grande pega, de valor e em que aguentou vários derrotes nas tentativas anteriores.

Dirigiu a corrida sem problemas o sr. Pedro Reinhardt, assessorado pelo Dr. Jorge Moreira da Silva, numa noite de meia casa forte e muito ambiente, e da qual resultou rei (king) o Parreirita cigano (gipsy). 




Por: Patrícia Sardinha
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